29/08/2025 - 15:47
Mostra que resgata história de poloneses forçados a lutar pela Alemanha nazista no conflito é alvo de protestos. Tema é tabu pouco lembrado na memória nacional.Uma exposição sobre soldados poloneses forçados a se alistar nas Forças Armadas da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial vem causando polêmica na Polônia ao lançar luz sobre um capítulo da história pouco lembrado na memória nacional e a na história oficial do país.
Intitulada “Nasi chłopcy” (Nossos Garotos), a mostra em cartaz até 10 de maio de 2026 no Museu de Gdansk exibe fotografias, artefatos e relatos de poloneses que lutaram nas fileiras da Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista.
Historiadores estimam que havia entre 400 mil e 450 mil poloneses nessa situação – mais do que os que serviram ao principal movimento de resistência na Polônia ocupada.
Esses homens foram forçados a se alistar após a invasão da Polônia, em setembro de 1939, com a anexação de alguns territórios – caso da região de Gdansk, por exemplo, que a època era conhecida pelo nome alemão Danzig – e o reconhecimento dos habitantes que ali viviam como alemães étnicos.
Os homens que se recusaram a servir, desertaram ou tentaram juntar-se a grupos que combatiam os alemães foram condenados à morte e enviados a campos de concentração.
Os organizadores da exposição afirmam que ela traz “questões importantes sobre a lembrança – e o esquecimento – desse fenômeno após 1945”.
Esses fatos, embora largamente conhecidos pelas famílias afetadas, são considerados um tabu a nível nacional. O primeiro-ministro Donald Tusk, por exemplo, é neto de um avô pomerano que serviu ao Exército alemão, um fato que costuma ser explorado por adversários ultranacionalistas em propagandas eleitorais.
A celeuma em torno da exposição também escancarou diferenças sobre a percepção da identidade polonesa em regiões menos homogêneas do país, que falavam outras línguas e seguiam outras religiões diferentes do catolicismo. Esse era o caso de regiões como a Alta Silésia, a Pomerânia Oriental, a região de Poznań, que passaram da Alemanha para a Polônia após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e tinham populações bem mais heterogêneas que “vitrines” da identidade polonesa como Varsóvia e Cracóvia.
“Provocação moral”
Políticos do partido de direita Lei e Justiça (Pis), do ex-presidente Andrzej Duda, acusaram a exposição de relativizar a responsabilidade pela Segunda Guerra Mundial e até culpar parcialmente os poloneses pelo conflito.
Um dos pontos que mais incomodou críticos, que chegaram a organizar protestos em frente ao museu, é o nome da exposição, que os nacionalistas encararam como uma tentativa de macular a memória nacional da Polônia como vítima dos nazistas.
“Retratar soldados do Terceiro Reich como ‘nossos garotos’ não é só uma inverdade histórica, mas uma provocação moral”, afirmou Duda via X. “Os poloneses, como nação, foram vítimas da ocupação e do terror alemão, e não participantes ou perpetradores.”
Até mesmo o ministro da Defesa, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, que é membro do governo de centro-esquerda, queixou-se de que a mostra não estava em linha com a cultura de memória polonesa.
O Museu da Revolta de Varsóvia, dedicado ao evento homônimo de 1944, fez uma alusão à polêmica ao publicar nas redes sociais, poucos dias após a abertura da exposição, uma imagem histórica de adolescentes que se revoltaram contra os nazistas, chamando-os de “nossos garotos”.
O contraponto veio na forma de uma carta aberta assinada por um centenário ex-combatente da resistência aos nazistas, que lembrou a repressão a que as famílias desses soldados foram submetidas. “Esses eram nossos garotos, garotos de suas famílias, forçados a entrar para o exército inimigo para salvar seus amados”, disse Roman Rakowski. “É mais fácil julgar que encarar tal perigo.”
E é justamente a “trágica falta de opção” encarada por esses homens que a exposição quer mostrar, segundo o porta-voz do Museu de Gdansk.
Um desses homens, Edmund Tyborski, foi guilhotinado após fugir para se juntar à resistência.
“Excluir vítimas da violência alemã da comunidade nacional é antipatriótico e ecoa propaganda comunista”, disse o museu, acrescentando que vários desses soldados conseguiram fugir de fato e se juntar às forças polonesas no Ocidente.
Em comunicado, a instituição disse ainda se opor a “avaliações injustas e superficiais” e lamentou o “uso da exposição para fins políticos”, argumentando que o título “Nossos Garotos” é uma forma de reconhecer que essas pessoas vinham de comunidades polonesas, e que não tinha a intenção de glorificá-los.
O museu também recebeu apoio da Associação Cachúbia-Pomerana, que representa uma das minorias arregimentadas pelos alemães entre 1939 e 1945, e que depois da guerra sofreram discrimnação na Polônia comunista. Em comunicado, a associação afirmou que muitos críticos da exposição “não estão familiarizados com a realidade da vida das regiões anexadas”. Segundo a organização, a exposição era necessária porque revela “o destino complexo dos habitantes, que foram marginalizados na política oficial de memória durante anos”.
ra (dpa, ots)