13/02/2026 - 12:37
Serviço de streaming produz cada vez mais obras para um público disperso, acostumado a consumir vídeos em segundo plano. O que isso significa para a narrativa audiovisual, a linguagem e o futuro do cinema?A Netflix está realmente nos deixando menos inteligentes? E não me refiro no sentido daquela velha máxima de que “a TV apodrece o cérebro”; de que as horas assistindo Bridgerton ou Round 6 seriam melhor empregadas lendo Dostoiévski. A pergunta é: estaria a Netflix simplificando diálogos e narrativas em seus filmes e programas televisivos porque sabe que seu público mal está prestando atenção?
“Stranger Things” e a ascensão do drama baseado na repetição
Esse foi um pensamento que me ocorreu ao assistir à temporada final de Stranger Things. A série dos irmãos Duffer começou, lá nos idos de 2016, como uma homenagem nostálgica aos anos 80 — um cruzamento de Stephen King com Steven Spielberg, Chamas da Vingança com E.T., com um tempero de Dungeons & Dragons. Mas, vítima do próprio sucesso estrondoso, ao longo de nove anos e cinco temporadas, a produção se tornou inchada e arrastada.
Grande parte do apelo inicial de Stranger Things era visual: figurinos, cenários, efeitos especiais bregas, mas estilosos, sequências de luta épicas. Na temporada final, muito disso cedeu lugar a cenas de personagens sentados explicando o que vão fazer, repetindo pontos da trama que o público já viu. O mundo está supostamente acabando, mas Mike, Will, Nancy e Eleven sempre têm tempo para mais uma rodada de explicação.
Diga tudo, não mostre nada
E Stranger Things não está sozinha. Basta zapear por produções originais da Netflix para perceber um padrão. Personagens descrevendo o que estão fazendo ou sentindo. Eles recordam o que aconteceu pouco antes. Eles explicam seus objetivos e motivações, caso você tenha perdido algo na primeira – ou até na segunda – vez.
Em Pedido Irlandês, uma comédia romântica água com açúcar, Maddie Kelly (Lindsay Lohan) despeja uma exposição tão explícita que chega a ser impressionante: “Passamos um dia juntos. Admito que foi um dia lindo, repleto de paisagens deslumbrantes e uma chuva romântica. Mas isso não lhe dá o direito de questionar minhas escolhas. Amanhã eu me caso com Paul Kennedy.”
Ao que James (Ed Speleers) responde com uma frase que parece menos escrita do que gerada automaticamente: “Tudo bem. Essa será a última vez que você vai me ver, porque depois desse trabalho eu vou para a Bolívia fotografar um lagarto arborícola em extinção.”
A lógica parece não ser mais mostrar sem dizer, mas sim dizer – e dizer de novo – para telespectadores distraídos.
Criando histórias para um público distraído
Essa avalanche de “dizer, não mostrar” não é acidental. É deliberada.
Durante as filmagens de Dinheiro Suspeito, novo suspense da Netflix estrelado por Matt Damon e Ben Affleck, a plataforma sugeriu que eles simplificassem os diálogos. Em entrevista ao podcast The Joe Rogan Experience, Damon contou que produtores sugeriram que “não seria tão ruim reiterar a trama três ou quatro vezes nos diálogos, porque as pessoas estão no celular enquanto assistem”.
O fenômeno é conhecido como visualização em “segunda tela” – e os algoritmos da Netflix, capazes de rastrear, com precisão de segundos, quando os espectadores se desconectam ou param de assistir, chegaram a uma conclusão direta: o público está distraído, e o conteúdo deve acomodar essa distração. As séries são escritas para serem assistidas mesmo enquanto se faz compras online, se rola a tela do TikTok ou se ouve tudo pela metade de outro cômodo.
A atriz e produtora Justine Bateman chamou isso de “musak visual” – televisão como música de elevador.
Nada disso é totalmente novo: sempre existiu TV “para passar roupa” – novelas, reprises e reality shows feitos para servir de pano de fundo enquanto os telespectadores fazem outra coisa. A diferença agora é que a Netflix aplica essa lógica a dramas de prestígio, sucessos de bilheteria e séries de grande orçamento.
E não deveria surpreender ninguém. Esta é a plataforma, afinal, que construiu sua marca sobre o mantra “Netflix and chill”. Narrativas fáceis de digerir, instantaneamente compreensíveis e facilmente esquecíveis não são uma falha – são o produto.
Por que produções da Netflix parecem e soam todas iguais?
E não se trata somente dos diálogos. Espectadores atentos da Netflix – uma espécie em extinção nos dias de hoje – podem ter notado que muitos filmes e séries da plataforma estão começando a ficar estranhamente parecidos: uma iluminação digital brilhante, mas de baixo contraste; imagens sem profundidade, que seguem visíveis na tela mesmo quando impactadas pela claridade ambiente; um som comprimido, mantendo tudo no mesmo nível médio, garantindo que os sussurros sejam audíveis, mas sem textura ou silêncio.
Essas escolhas fazem sentido se você parte do pressuposto de que o seu público não está em um cinema escuro com tela grande e som surround, mas no celular no metrô, no laptop ao ar livre, ou vendo de canto de olho enquanto o sol desbota a imagem.
O que se perde quando a atenção desaparece
Gradualmente, isso nos afasta da ideia de cinema e TV como arte imersiva e visual. Nos distancia do enquadramento, da luz e do poder expressivo do silêncio – ferramentas fundamentais do cinema.
Ainda assim, a derrocada rumo ao conteúdo de baixa qualidade moldado por algoritmos não é inevitável. No ano passado, o maior sucesso da Netflix foi Adolescência, um drama britânico de realismo social filmado em um único plano, que se recusa formalmente a ser assistido em uma “segunda tela”. Seu filme original mais assistido, por sua vez, foi Guerreiras do K-Pop, uma animação que mistura tradições narrativas do Oriente e do Ocidente e exige atenção – entre outros motivos, por incentivar o público a cantar junto com suas músicas que chegaram ao topo das paradas.
Ambos funcionaram justamente porque exigiram mais do público, não menos. Se os espectadores querem apenas barulho de fundo, a Netflix fornecerá de bom grado. A verdadeira pergunta é se o público vai perceber – ou se importar – quando a plataforma simplesmente parar de pedir sua atenção.
