Mais do que qualquer outro chefe de Estado, presidente francês parece estar em rota de colisão com seu colega americano. Crise da Groenlândia é teste decisivo para sua arriscada combinação de diplomacia e enfrentamento.”Meu amigo, estamos totalmente alinhados em relação à Síria. Podemos fazer grandes coisas no Irã. Não entendo o que você está fazendo na Groenlândia.” Essa mensagem do presidente francês, Emmanuel Macron , ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump , deveria permanecer confidencial, mas Trump a tornou pública em sua rede social na noite de terça-feira (20/01). “Ele logo deixará o cargo”, brincou o americano sobre Macron diante de repórteres.

Na mesma toada de constrangimento, Trump costuma imitar o sotaque de Macron em aparições públicas.

A cisão entre os líderes parece ter se aprofundando após a TV pública francesa ter exibido, na noite de terça, um documentário que mostra uma ligação telefônica privada durante a visita de Macron a Kiev em 10 de maio de 2025, aparentemente sem que Trump soubesse que estava sendo filmado.

Macron respondeu aos ataques de Trump com ironia. “É um momento de paz, estabilidade e previsibilidade”, disse o presidente francês no início do Fórum Econômico Mundial em Davos, provocando risos da plateia.

Mas o tom de seu discurso mudou rapidamente: o presidente pintou um quadro de um mundo sem regras e de uma Europa que precisa se reafirmar. Aceitar uma “nova abordagem colonial” não faz sentido, disse ele. Para o francês, a tentativa de Trump de se apropriar da Groenlândia é um excelente exemplo dessa política de poder emergente.

Sinais militares aos aliados

Apenas alguns dias antes, vários parceiros europeus da Otan – a França em especial – reagiram às declarações expansionistas de Trump sobre a Groenlândia . A convite da Dinamarca, Paris enviou cerca de 15 tropas de montanha para a capital do território ártico, Nuuk. Depois, conduziu uma manobra de reabastecimento aéreo sobre a ilha.

Ao mesmo tempo, Paris está levando adiante o plano, idealizado desde 2025, de abrir um consulado em Nuuk. A presença da França na região é uma resposta direta à retórica agressiva de Trump.

O tom da política externa francesa também está se tornando mais duro. Em seu discurso de Ano Novo às forças armadas na base aérea de Istres, no fim da semana passada, Macron falou sem rodeios: “Para permanecer livre, é preciso ser temido, e para ser temido, é preciso ser poderoso”. O presidente anunciou o envio de forças terrestres, aéreas e navais adicionais para a Groenlândia, mas ainda não forneceu detalhes.

Não é apenas um aperto de mão

Quando Trump recebeu o recém-eleito Macron na Casa Branca pela primeira vez em maio de 2017, o francês fez uma demonstração simbólica de força. Macron, então um novato na política, resistiu e permaneceu no aperto de mão notoriamente dominante de Trump por quase um minuto, abrindo um histórico anedótico de cumprimentos longos e carregados de tensão entre os dois.

A mensagem era clara: o líder da França não se deixaria intimidar por um presidente dos EUA que confunde respeito com domínio. Ele buscava igualdade, em vez de subordinação. Em Paris, as pessoas estavam convencidas de que Trump só responderia à “força”.

Ao mesmo tempo, Macron contava com a vaidade e o gosto de Trump por bajulação. Ele o convidou com honras para seu primeiro feriado nacional em Paris, em 14 de julho, incluindo um jantar na Torre Eiffel. Apesar das diferenças, a França deixava clara sua intenção de manter laços estreitos com seu aliado. Macron confiou na hospitalidade como ferramenta diplomática para tentar persuadir Trump a cooperar internacionalmente — com a França como construtora de pontes.

Palavras fortes contra nacionalismo

Macron, no entanto, não conseguiu garantir uma mudança duradoura de rumo em Washington. As relações entre os dois chefes de Estado se deterioraram. Em 11 de novembro de 2018, no centenário do fim da Primeira Guerra Mundial , Macron falou na presença de Trump sobre os perigos do nacionalismo. O presidente dos EUA interpretou isso como uma crítica velada à sua estratégia “America First” (EUA em primeiro lugar).

Macron causou um alvoroço internacional em 2019 com seu comentário de que a Otan estava “com morte cerebral”. A declaração, feita durante uma entrevista, mirou mais na atitude antagônica de Trump em relação à organização do que na aliança em si. A França queria forçar um debate: por quanto tempo a Europa pode confiar em um parceiro que questiona abertamente suas obrigações? Uma questão pertinente hoje, mas fortemente criticada na época.

Hora decisiva para a Groenlândia?

Não houve lua de mel entre Macron e Trump após a reeleição deste último para a Casa Branca, há um ano. Na primavera de 2025, as relações transatlânticas já haviam azedado. A França se tornou alvo da política tarifária de Trump depois que Macron mais uma vez pressionou por um imposto digital europeu coordenado. Trump inicialmente ameaçou com tarifas punitivas sobre vinhos e artigos de luxo franceses e depois visou outros produtos europeus.

A França e a UE responderam de forma contundente e prepararam contramedidas. Paris insistiu que a Europa não deveria depender apenas de apelos e negociações, mas também recorrer a instrumentos de política comercial rígidos em casos graves. Macron afirmou na época que a Europa não permitiria que lhe fossem ditadas regras sobre como exercer sua soberania tributária.

Em Davos, na terça-feira, o presidente referiu-se ao instrumento anticoerção da UE contra a chantagem econômica, que permite contramedidas como tarifas ou restrições de acesso ao mercado. No debate político, ele é conhecido como “bazuca” .

A fragilidade de Macron em casa

A demonstração de força de Macron na política externa contrasta fortemente com sua posição na França. Internamente, o presidente tem pouca margem de manobra . Seu governo ainda não conseguiu aprovar o orçamento de 2026 no parlamento. Na Europa, Macron também precisa garantir maiorias para sua linha de ação.

Enquanto Macron quer carregar a “bazuca” europeia, Berlim está contida. O chanceler federal alemão Friedrich Merz, um defensor convicto das relações transatlânticas, está focado em reduzir a tensão na crise da Groenlândia. Macron fala em “chantagem econômica” e exige tarifas. Merz pede “prudência” e espera trazer Trump de volta da beira do precipício diplomático por meio de negociações. Mais uma vez, Berlim e Paris estão disputando a liderança na Europa.

Europa carece de força motriz

Ainda mais do que em seu primeiro mandato, as iniciativas de Macron têm sido cada vez mais rejeitadas em Washington. O equilíbrio entre diálogo e oposição dá mostras de estar chegando ao limite. Paira a dúvida se a Europa poderá voltar a definir a agenda.

Jacob Ross, especialista em França do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), vê isso como um problema estrutural da estratégia europeia em relação a Trump: “Emmanuel Macron sempre reage a Trump”. Nem ele nem outros chefes de Estado e de governo europeus conseguiram até agora definir sua própria agenda que mostre o caminho a seguir, disse ele. Em vez disso, eles estão ocupados reagindo às provocações de Washington.