04/02/2026 - 8:14
Acordo comercial entre União Europeia e Índia pode dar impulso a um setor em dificuldades com a concorrência da China, a transição para o motor elétrico e as tarifas de Trump.O acordo comercial anunciado por Índia e União Europeia (UE) em janeiro foi descrito pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, como “a mãe de todos os acordos comerciais” – uma linguagem otimista para celebrar uma parceria econômica entre o maior bloco comercial do mundo e a nação mais populosa do planeta.
O acordo reduzirá ou eliminará tarifas sobre 96,6% das exportações da UE para a Índia. Embora produtos agrícolas sensíveis tenham ficado de fora para ambos os lados, muitos itens considerados vitais para a máquina de exportação da UE fazem parte do acordo, incluindo os automóveis.
A Índia concordou em conceder às montadoras europeias uma cota seis vezes maior do que qualquer outra oferecida anteriormente, o que permite a empresas como Volkswagen, Mercedes-Benz e BMW um acesso muito maior a um mercado rigidamente controlado.
Nova Délhi impõe tarifas entre 70% e 110% para carros importados e, como resultado, as marcas europeias mal conseguem entrar no mercado indiano.
Quando o acordo for ratificado, 250 mil veículos fabricados na Europa poderão entrar na Índia anualmente com diferentes taxas preferenciais, dependendo do preço e do tipo de motor. Os carros além dessa cota, ou fora dela, enfrentarão tarifas mais altas.
O acordo é uma rara notícia positiva para o setor automobilístico alemão, que tem enfrentado dificuldades nos últimos anos devido ao aumento da concorrência da China, à transição para o motor elétrico e às tarifas de importação impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
A Associação Alemã da Indústria Automotiva (VDA) saudou o acordo. Sua presidente, Hildegard Müller, afirmou que o pacto proporcionará um acesso melhorado e urgentemente necessário a esse mercado, diante de um ambiente global cada vez mais protecionista.
A BMW afirmou que se trata de um marco histórico que beneficia ambas as partes e acrescentou considerar a Índia um importante mercado, com a redução das tarifas proporcionando oportunidades adicionais.
Cotas aumentadas e tarifas reduzidas
Todos os detalhes do acordo ainda não foram divulgados, mas já vieram à tona algumas informações sobre os termos no que diz respeito aos carros europeus.
A Índia concordou em reduzir as tarifas sobre os automóveis europeus com preço de importação acima de 15 mil euros (R$ 92,3 mil), incluídos na cota anual, para 40%, com uma redução adicional para 10% ao longo dos anos, mas ainda não está claro como isso será implementado.
Os carros da UE com preço inferior a 15 mil euros estão excluídos do acordo. Os carros acima desse limite estão divididos em três segmentos, cada um com cotas e tarifas separadas.
O portal de notícias Bloomberg informou que as taxas para 160 mil carros com motor a combustão interna por ano cairão para 10% em cinco anos, e a cota de 90 mil veículos elétricos por ano atingirá a marca de 10% em dez anos. Para os carros não incluídos nas cotas, a Índia teria concordado em reduzir as tarifas para entre 30% e 35% ao longo de uma década.
Fontes não identificadas citadas pela agência de notícias Reuters disseram que os carros europeus com preço superior a 35 mil euros seriam os que teriam as maiores reduções tarifárias.
Segundo a agência de notícias Reuters, os veículos elétricos serão excluídos das reduções de impostos de importação durante os primeiros cinco anos, a fim de proteger os investimentos dos fabricantes indianos de carros elétricos.
Oportunidade maior para marcas alemãs
O acordo abre um mercado para as montadoras alemãs que estava praticamente fechado para exportação, com tarifas chegando a 110%.
O economista sênior para setor automotivo do ING Bank, Rico Luman, diz que uma tarifa de quase 40% sobre carros fora da cota continua sendo um fardo competitivo, mas a potencial taxa de 10% para os carros dentro da cota “oferece oportunidades para expandir a oferta de modelos na Índia e exportar mais carros de categorias premium para o subcontinente”.
O diretor-geral da Câmara de Comércio Indo-Alemã, Jan Noether, diz que o acordo de livre comércio consolida uma relação econômica já existente entre a Alemanha e a Índia e que as montadoras alemãs estão bem posicionadas para se beneficiarem de uma economia indiana em rápido crescimento.
“As automobilísticas alemãs enxergam o futuro do mercado indiano; elas veem o potencial de crescimento com a participação cada vez maior da população no consumo”, observou.
Como conquistar o mercado indiano?
Apesar do otimismo, as montadoras alemãs enfrentam um grande desafio para conquistar o mercado indiano.
O mercado é dominado pelas montadoras indianas, incluindo a Tata e a Mahindra, e por empresas japonesas e sul-coreanas, como Hyundai e Suzuki. As fabricantes europeias representam mal chegam a 3% das vendas.
“Não é fácil entrar rapidamente no mercado indiano devido a nomes já estabelecidos, como Maruti Suzuki, Tata Motors e marcas japonesas”, disse Luman.
Além disso, também na Índia os carros elétricos deverão ganhar em popularidade. Quando as novas tarifas para os carros elétricos europeus começarem a valer, as empresas chinesas podem já ter entrado no mercado e começado a fabricar na Índia.
Uma saída para as montadoras alemãs seriam produzir veículos elétricos de forma economicamente viável na Índia. “Acho que seria muito desafiador, mas se a Alemanha produzisse veículos elétricos lá, o mercado indiano certamente se interessaria”, comenta o especialista Sushant Singh, da Universidade de Yale.
Noether avalia que um objetivo de longo prazo da Índia é que as montadoras alemãs instalem fábricas no país e que, se isso acontecer, fortalecerá consideravelmente a presença alemã no país. “Se isso acontecer, as montadoras alemãs vão se beneficiar dos custos de produção mais baixos que o mercado indiano oferece.”
Algumas montadoras alemãs já possuem pequenas instalações de produção na Índia, principalmente a Volkswagen, que produz modelos VW, Skoda e Audi no país. A BMW produz seus automóveis em sua fábrica em Chennai para evitar as altas tarifas sobre carros importados.
Nova China?
Mesmo com a renda média per capita sendo de cerca de 3 mil dólares, uma parcela crescente da classe média da Índia está interessada em comprar carros alemães, principalmente no segmento de luxo, no qual marcas como BMW, Mercedes e Porsche são especializadas.
“Acho que existe uma oportunidade para modelos premium de montadoras como Mercedes e BMW, que são nomes bem conhecidos na Índia”, diz Luman.
Embora ele considere prematura qualquer sugestão de que o mercado indiano possa um dia ter a mesma importância que a China para as montadoras alemãs, trata-se de um mercado automobilístico com um enorme potencial de crescimento para elas, diz.
“As montadoras alemãs definitivamente têm uma janela de oportunidade para expandir sua presença, o que é definitivamente um ponto positivo num mundo com múltiplos desafios”, afirma.
