19/02/2026 - 9:27
Milei assina acordo com Trump, Lula vai negociar na Índia: se europeus pensarem muito, acordo com o Mercosul pode fracassar por ter se tornado irrelevante.Por mais de 26 anos escrevi centenas de textos sobre o Mercosul e a União Europeia (UE). Eu estive na primeira reunião conjunta, em 1999 no Rio, quando Gerhard Schröder, o então chanceler federal alemão, já visivelmente impaciente, interrompeu a longa explanação do então presidente Fernando Henrique Cardoso. “Como o senhor professor detalhadamente explicou…”
Ao longo dos anos meus colegas na redação alemã passaram a rolar os olhos quando eu vinha com mais um capítulo na aparentemente infinita história do acordo UE-Mercosul. Simplesmente não interessava mais a ninguém.
A conclusão do acordo do acordo já foi anunciada várias vezes. Em junho de 2018 os dois lados haviam chegado a um consenso. Em dezembro de 2024 as negociações em Montevidéu foram declaradas encerradas. E agora, em janeiro de 2026, o “acordo histórico” foi finalmente assinado.
Mas aí, em 21 de janeiro, quatro dias depois da assinatura, o Parlamento Europeu decidiu enviar o acordo para revisão pelo Tribunal de Justiça da União Europeia. Essa decisão adia a aprovação do acordo pelos eurodeputados em pelo menos um ano.
Mudanças drásticas em poucos meses
Temo que esse acordo jamais vá entrar em prática. Pois, em poucos meses, as relações comerciais e a política externa na América do Sul passaram por mudanças tão fundamentais que o acordo entre o Mercosul e a UE parece vir de uma outra época.
Quatro aspectos contribuem especialmente para isso:
O primeiro é a assinatura pela Argentina, em 5 de fevereiro, do Acordo sobre Comércio e Investimento Recíprocos (ARTI) em Washington. Ele abrange tarifas, acesso a mercados, regras de investimento e disposições regulatórias, todos elementos que também desempenham um papel importante no acordo UE-Mercosul.
Em resumo, trata-se de um acordo que copia o acertado com a UE em muitos pontos – só que não levou 25 anos para ser concluído, mas algumas semanas. É de se supor que também entre mais rapidamente em vigor.
Quando isso ocorrer, muitas das vantagens que a UE negociou para si mesma com todo o Mercosul desaparecem automaticamente no caso da Argentina. Empresas dos Estados Unidos terão acesso privilegiado para investimentos e produtos. Padrões americanos serão aplicados. O acesso a terras raras e minerais críticos é garantido. Todas essas são áreas em que a UE esperava obter acesso preferencial por meio do acordo.
Em segundo lugar, é possível que o acordo bilateral entre a Argentina e os Estados Unidos imploda todo o Mercosul. Afinal, segundo os seus estatutos, a comunidade econômica sul-americana, na condição de união aduaneira, deve negociar em conjunto com novos países parceiros. Além disso, as tarifas externas devem ser definidas por consenso.
Para o ex-secretário de Comércio Exterior Lucas Ferraz, os recentes acontecimentos colocam em risco a existência do Mercosul. “O Mercosul está na UTI”, declarou ao jornal Valor Econômico.
Brasil agora resiste
O terceiro aspecto é que Bruxelas deposita suas esperanças nos parlamentos sul-americanos. A Comissão Europeia pretende aplicar provisoriamente a seção comercial do acordo assim que o primeiro país do Mercosul concluir o processo de ratificação. Isso de fato pode acontecer em breve. A Câmara dos Deputados da Argentina foi a primeira legislatura do Mercosul a aprovar o acordo. Agora, só falta o Senado fazê-lo.
Porém, justamente no Brasil, a entrada em vigor está encontrando resistência inesperada. O Congresso Nacional rejeitou, por ora, a rápida ratificação esperada pelo governo. Uma comissão decidirá se cláusulas de salvaguarda semelhantes às dos agricultores europeus, previstas no protocolo adicional, devem ser introduzidas para os agricultores do Mercosul.
Por fim, enquanto os parlamentares europeus paralisam o acordo ao enviá-lo para ser revisado pela Justiça, os governos sul-americanos estão agindo.
O Brasil, por exemplo, está avaliando se um acordo bilateral com os EUA poderia oferecer mais vantagens do que um acordo com o Mercosul. Lula deve ir para Washington numa visita de Estado onde se encontrará com Donald Trump no início de março. Ele está atualmente na Índia, onde o governo brasileiro pretende concluir um acordo sobre acesso a mercados e terras raras.
E Milei planeja uma viagem à China este ano. O que ele trará na mala de Pequim?
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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.
O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.
