17/01/2026 - 17:41
Tarifas de Trump e a rivalidade com a China levam europeus, embora divididos, a apostar no pacto com sul-americanos. Acesso a minerais do Brasil é um dos pontos cruciais.É um dia que levou mais de um quarto de século para se concretizar: a chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assinou neste sábado (17/01), no Paraguai, o Mercosul o maior acordo comercial da história da União Europeia (UE).
A UE está apresentando o megacordo como prova de que pode forjar alianças e traçar seu próprio caminho em uma era de desordem, com o pacto sendo impopular entre ambientalistas, agricultores e a poderosa França, e com a ameaça de o texto ser barrado quando os parlamentares europeus tiverem a palavra em uma votação neste ano.
O novo pacto fará com que os 27 membros da UE unam forças com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai para criar uma das maiores zonas de livre‑comércio do mundo.
As negociações começaram em 2000, uma época áurea da globalização em que novos parceiros pareciam mais fáceis de conquistar para a Europa. Mas com a guerra na Ucrânia avançando a leste e tarifas dos EUA atrapalhando o comércio a oeste, o acordo agora carrega um peso político maior.
“Há 26 anos, este era um acordo onde o que importava era liderança e estabelecer regras para o comércio mundial”, disse Andrés Malamud, analista de política externa e pesquisador da Universidade de Lisboa. “Agora é um acordo de resiliência. Trata‑se de uma estratégia defensiva. É para sobreviver.”
Força mineral do Brasil
Embora o acordo não vá transformar a economia da UE em termos de produto interno bruto (PIB), ele pode abrir acesso a materiais vistos como cruciais para o futuro do continente.
A UE mira um acesso facilitado às vastas reservas minerais do Brasil, enquanto corre para reduzir a dependência da China no fornecimento de matérias‑primas usadas para impulsionar tecnologias limpas e fabricar armamentos. Tarifas mais baixas podem levar os exportadores brasileiros a aumentar os negócios com a Europa.
O Brasil é responsável por cerca de 10% da extração global de alumínio, 13% de grafite e 16% de tântalo. Também domina o mercado mundial de nióbio, um metal amplamente usado – desde a produção de aço até os ímãs supercondutores usados no Grande Colisor de Hádrons, o maior e mais poderoso acelerador de partículas do mundo, nos arredores de Genebra, na Suíça.
Os incentivos à mineração são apenas um dos motivos pelos quais ambientalistas se opõem ao acordo, alertando também que ele impulsionará o desmatamento da Amazônia e destruirá ecossistemas.
Vitória para a indústria automotiva
A indústria automobilística da Alemanha é vista como a maior vencedora do lado europeu, já que fornecedores de peças buscam mais clientes para compensar o impacto das tarifas dos EUA e a demanda enfraquecida na China.
“É de extrema importância encontrar novos mercados”, disse Matthias Zink, CEO da divisão Powertrain e Chassis da fabricante alemã Schaeffler, em entrevista à DW no mês passado. “Haverá crescimento fora dos mercados tradicionais. Haverá crescimento no Brasil, na Índia, no Sudeste Asiático.”
Uma parte da equação menos citada pelos fabricantes de automóveis é a busca por mercados com menos regulamentação, já que a UE deverá proibir a venda da maioria dos veículos novos a gasolina e diesel na próxima década.
Mas os aplausos das montadoras alemãs não foram suficientes para abafar a ira dos agricultores europeus, que afirmam, por sua vez, estar recebendo a pior parte do acordo.
“A UE quer salvar a indústria alemã e europeia às custas dos agricultores – é simples assim”, disse um manifestante durante um protesto em Bruxelas no mês passado. Atrás dele, tratores empilhavam batatas para bloquear ruas e focos de fogo ardiam.
Contornando a França
No último ano, o Executivo da UE adicionou novas “cláusulas de salvaguarda” para limitar as importações de carne sul‑americana e evitar concorrência desleal, mas isso não foi suficiente para convencer a França, o membro mais cético do bloco.
Polônia, Irlanda, Áustria e Hungria também se opuseram ao pacto por preocupações agrícolas, mas foram derrotadas em votação da semana passada .
Embora algumas decisões de grande peso, como sanções, possam ser vetadas por qualquer Estado‑membro, políticas comerciais da UE só precisam de uma maioria qualificada. Ou seja, quando houver apoio de pelo menos 55% dos Estados-membros (15 dos 27 países), e desde que eles representem, no mínimo, 65% da população total do bloco.
É raro ver a UE tomar uma grande decisão sem o apoio da França. Em Bruxelas, isso é visto tanto como prova de que o bloco consegue agir apesar das divisões, quanto como sinal de que mais batalhas políticas virão.
Novo equilíbrio de poder
A assinatura do acordo neste sábado pode marcar um ponto de virada para o comércio europeu: autoridades também avançam com outros acordos antes travados por padrões ambientais ou agrícolas.
No ano passado, Bruxelas concluiu um acordo de uma década com a Indonésia. Antes do fim do mês, von der Leyen deve anunciar outro pacto comercial com a Índia .
“Houve uma mudança notável entre todos os parceiros comerciais dos EUA, que agora pensam onde podem diversificar seus laços comerciais”, afirma Inu Manak, pesquisadora sênior do Conselho de Relações Exteriores (Council on Foreign Relations, em inglês), sediado nos EUA, apontando para uma tendência de fragmentação na economia global.
Para a especialista, a forte disputa por influência desloca o equilíbrio de poder em direção aos parceiros asiáticos e sul‑americanos da Europa, antes vistos como “tomadores de regras”. A China se apresenta para estes países como outro potencial aliado que pode oferecer acordos mais vantajosos.
