Após décadas de apoio esmagador a Israel, opinião pública nos Estados Unidos tem se mostrado mais favorável aos palestinos do que aos israelenses em meio à guerra em Gaza, mostra pesquisa.Pela primeira vez, os habitantes dos EUA afirmam simpatizar mais com os palestinos do que com os israelenses, de acordo com uma pesquisa do instituto Gallup divulgada nesta sexta-feira (27/02). A mudança de opinião ocorreu em meio à guerra que dilacerou a Faixa de Gaza, deixando mais de 70 mil palestinos mortos.

Há três anos, 54% dos americanos simpatizavam mais com os israelenses, em comparação com 31% que declaravam o mesmo com os palestinos.

Agora, o apoio da população dos Estados Unidos está praticamente equilibrado: 41% dizem que sua simpatia é maior pelos palestinos, e 36% dizem o mesmo sobre os israelenses.

A diferença de cinco pontos percentuais contrasta com uma clara liderança dos israelenses há apenas um ano (46% contra 33%) e com uma trajetória de décadas de um apoio esmagador ao lado israelense, aponta a pesquisa.

A pesquisa tem uma margem de erro de mais ou menos 4 pontos percentuais, o que significa que o sentimento em relação aos israelenses e palestinos está praticamente equilibrado.

Os dados da Gallup indicam que a mudança já estava ocorrendo antes da ofensiva terrorista do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, quando membros do grupo palestino mataram 1.200 pessoas e fizeram outros 251 reféns. O ataque, no entanto, desencadeou uma resposta de Israel considerada desproporcional por parte da comunidade internacional e classificada por muitos políticos e ativistas como genocídio – o que o governo israelense nega.

Os números refletem como o apoio a Israel se tornou profundamente controverso nos EUA, com implicações profundas para a política americana e a política externa.

“É a primeira vez que eles alcançam a paridade, o que é realmente impressionante”, disse Benedict Vigers, consultor do Gallup. “Em poucos anos, essa diferença muito significativa na opinião pública agora se fechou completamente.”

De acordo com a pesquisa, 57% dos adultos americanos são a favor da criação de um Estado palestino independente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Isso não é significativamente diferente dos últimos anos, já que pelo menos metade dos adultos americanos apoia um Estado palestino independente desde 2020.

Democratas puxam mudança

A mudança de sentimento foi impulsionada em grande parte pelos democratas, que agora são muito mais propensos a simpatizar com os palestinos. A ajuda dos EUA a Israel tem sido um tema recorrente nas primárias do partido este ano.

Cerca de dois terços dos democratas agora dizem que suas preocupações estão mais voltadas para os palestinos, enquanto apenas cerca de 2 em cada 10 simpatizam mais com os israelenses. Em 2016, o quadro era muito diferente: cerca de metade dos democratas simpatizava mais com os israelenses e apenas cerca de um quarto simpatizava com os palestinos.

Do lado republicano, a maioria continua do lado de Israel — cerca de 7 em cada 10 dizem ser mais solidários com os israelenses. O resultado representa uma ligeira queda em relação aos cerca de 8 em cada 10 antes da guerra.

Algumas figuras da ala isolacionista “America First” (América em primeiro lugar) dos republicanos também estão questionando cada vez mais o apoio tradicional dos EUA a Israel.

Diferenças geracionais

A pesquisa mostra que americanos de todas as faixas etárias têm se tornado mais solidários com os palestinos. Entre os jovens de 18 a 34 anos, 53% afirmam simpatizar mais com os palestinos, sendo esta a primeira vez que a maioria dessa faixa etária expressa essa opinião.

Enquanto isso, 23% dos jovens adultos afirmam simpatizar mais com os israelenses, um recorde negativo para essa faixa etária.

Entre os americanos de 35 a 54 anos, 46% afirmam simpatizar mais com os palestinos, em comparação com 28% que simpatizam mais com os israelenses. Isso representa uma quase reversão da opinião entre essa faixa etária em comparação com 2025, quando 45% demonstravam mais simpatia pelos israelenses e 33% pelos palestinos.

Embora os americanos com mais de 55 anos sejam mais solidários com Israel, essa diferença também está diminuindo.

A mudança é apenas “em parte uma questão geracional”, de acordo com Vigers, mas que contou com o impulso de protestos estudantis contra a guerra e investimentos em Israel.

Popularidade do governo em baixa

Parte do declínio inicial na simpatia aos israelenses estava ligada à desaprovação do líder israelense, o primeiro-ministro nacionalista Benjamin Netanyahu, cuja popularidade nos EUA caiu quase 15 pontos percentuais entre 2017 e 2024, de acordo com uma pesquisa anterior da Gallup.

Netanyahu entrou em conflito com o ex-presidente Barack Obama no último ano de seu governo, depois estabeleceu uma relação mais cordial com Donald Trump, que proporcionou várias vitórias a Netanyahu em seu primeiro mandato, incluindo o reconhecimento americano de Jerusalém como capital de Israel e a soberania de Israel sobre as Colinas de Golã, que são parte da Síria. Os líderes mantêm relações próximas no segundo mandato do americano.

sf (AFP, AP, OTS)