02/03/2026 - 9:21
Líder alemão manifestou apoio aos aliados, embora reconheça dúvidas sobre a legitimidade da ofensiva contra Teerã. Berlim teme escalada e alerta para riscos na Europa.Embora o governo alemão já soubesse há alguns dias que uma intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o regime de Teerã era cada vez mais provável, Berlim também foi pega de surpresa com os ataques iniciados no sábado pelos Estados Unidos e Israel.
Nas agitadas horas seguintes, o foco foi tentar encontrar um discurso que classificasse cuidadosamente a ofensiva contra o Irã. Após consultar os ministros de seu gabinete responsáveis por questões de segurança, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, explicitou seu apoio aos EUA e a Israel, a despeito das “dúvidas” sobre a legitimidade das ações militares.
“Por isso, agora não é o momento de dar lições aos nossos parceiros e aliados. Apesar de todas as dúvidas, compartilhamos muitos dos seus objetivos”, afirmou no domingo (02/03), durante coletiva de imprensa, na véspera de uma aguardada viagem para os Estados Unidos. Merz tem um encontro previsto agendado para esta terça-feira com Donald Trump em Washington.
“Vemos o dilema de que as medidas e etapas jurídicas internacionais, que temos tentado repetidamente nas últimas décadas, são obviamente ineficazes contra um regime que está se armando com armas nucleares e oprimindo brutalmente seu próprio povo.”
Merz, que é do partido conservador de centro-direita CDU (União Democrata Cristã), havia sido informado antecipadamente sobre as ações militares, segundo seu porta-voz, Stefan Kornelius, e também conversou por telefone com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no sábado.
“O regime dos aiatolás é um regime terrorista, responsável pela opressão do povo iraniano há décadas”, afirmou, acrescentando que a República Islâmica ameaça a existência de Israel e é responsável pelo terrorismo de grupos como o Hamas e o Hezbollah: “Com os EUA e Israel, compartilhamos o interesse de que o terrorismo desses regimes cesse.”
Um comunicado conjunto de Merz com o presidente francês, Emmanuel Macron e o premiê britânico, Keir Starmer, alertou o Irã de que os Alemanha, França e Reino Unido estão prontos para adotar ação militar para defender seus interesses e os de seus aliados no Golfo.
“Tomaremos medidas para defender nossos interesses e os de nossos aliados na região, potencialmente permitindo ações defensivas necessárias e proporcionais para destruir, na origem, a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones”, dizem no texto.
Wadephul: “Irã fornece drones à Rússia”
O ministro alemão das Relações Exteriores, Johann Wadephul, também da CDU, seguiu na mesma linha de evitar taxar os ataques, ao mesmo tempo em que defende haver razões para os bombardeios.
“Não vou fazer uma avaliação definitiva do ponto de vista do direito internacional neste momento”, afirmou para a emissora NDR Info. Ele pontuou, contudo, que o regime em Teerã também fornece drones à Rússia para usá-los contra a Ucrânia.
As declarações de Merz e Wadephul lembraram as reações oficiais da Alemanha à detenção do ex-líder da Venezuela, Nicolás Maduro, por soldados americanos no início do ano. Maduro foi levado para Nova York e julgado lá. À época, o governo alemão se absteve de classificar a ação como uma clara violação do direito internacional.
Temor de escalada na Europa
Para o SPD (Partido Social-Democrata), que integra a coalizão no poder, o governo deve se empenhar na desaceleração do conflito e na diplomacia.
O especialista em relações exteriores do partido, Adis Ahmetovic, declarou: “Compartilhamos o objetivo de que o Irã não deve possuir uma bomba atômica”. Mas ponderou que um conflito de longa data em torno do programa nuclear iraniano não justifica “uma guerra com consequências imprevisíveis para toda a região”.
No entanto, vários políticos alemães temem que tal escalada, sobretudo após o assassinato do chefe de Estado iraniano e líder religioso Ali Khamenei, também possa ocorrer na Alemanha e outras partes da Europa.
O responsável pela luta contra o antissemitismo na Alemanha, Felix Klein, alertou, em entrevista à imprensa alemã, que “o Irã utilizará as suas redes neste país para realizar ataques terroristas contra instituições judaicas e israelitas”.
“Vimos repetidamente no passado as conexões entre o aumento das tensões no Oriente Médio e o aumento dos ataques à vida judaica na Europa”, afirmou.
Verdes questionam ação
O Partido Verde, de oposição, condenou os ataques. “Os EUA e Israel justificam suas intervenções militares com uma ameaça iminente que o Irã representa para eles. Não existe um mandato do direito internacional para essa intervenção. Uma justificativa no âmbito da autodefesa é concebível, mas está sujeita a requisitos elevados. É preciso partir do princípio de que esses requisitos não estão preenchidos”, afirmou a líder do grupo parlamentar da legenda, Katharina Dröge.
O vice-presidente do Bundestag, Omid Nouripour, do Partido Verde e nascido no Irã, não manifestou sua opinião sobre a legalidade da operação. Ele publicou, na rede social X, que o povo iraniano não deseja nada além de liberdade. Nesse ponto, a maioria dos atores políticos na Alemanha está de acordo.
