30/08/2025 - 8:35
Medicamentos contra depressão e outras condições mentais também são utilizados no tratamento de dores físicas. As evidências científicas, no entanto, ainda não possibilitam uma conclusão definitiva.Este artigo foi publicado um pouco mais tarde do que o havia planejado. No dia em que eu deveria escrever sobre a conexão entre dor crônica e antidepressivos, minhas mãos e pulsos doíam tanto que eu não conseguia digitar por mais de alguns minutos. Ah, a ironia…
Felizmente, a dor diminuiu bastante ao longo de um fim de semana. No passado, quando digitar, ou qualquer atividade que envolvesse o uso das mãos, se tornou quase impossível, precisei me ausentar do trabalho durante semanas.
A origem dessa dor, no entanto, é um mistério que nenhum dos muitos médicos que consultei ao longo dos anos conseguiu resolver.
O meu caso é comum. Embora não saibamos o número exato de pessoas que vivem com dor crônica em todo o mundo, estima-se que no Ocidente cerca de 20% dos adultos lidem com esse problema, segundo uma estimativa da Associação Internacional para o Estudo da Dor (Iasp).
A Iasp define dor crônica como “uma condição na qual um indivíduo sente dor na maioria dos dias ou durante todos os dias por mais de três meses”.
Se a dor afeta significativamente sua vida diária, como quando você não consegue mais cozinhar, praticar seu esporte favorito ou escrever um artigo, isso se enquadra na classificação da Iasp como “dor crônica de alto impacto”.
Dor crônica nos leva a tentar quase tudo
Se você ou alguém que você ama faz parte deste clube, é provável que já tenha se encontrado no ponto em que eu cheguei há cerca de um ano. Eu estava disposta a fazer quase tudo para que a dor desaparecesse.
Fiz várias radiografias e ressonâncias magnéticas dos pulsos, braços, coluna cervical e torácica, além de um teste de reumatismo, todos com resultado positivo. Experimentei vários tipos de fisioterapia, osteopatia e acupuntura, mas nenhum desses métodos ajudou muito.
Foi assim que, em uma manhã de setembro de 2024, acabei sentada em frente a uma terapeuta da dor, concordando enfaticamente com a cabeça ao ser perguntada: “você consideraria experimentar antidepressivos?”.
Esta é uma pergunta que, para muitos, não cai bem.
“Muitos pacientes se sentem insultados”, disse Tamar Pincus, reitora da Faculdade de Ciências Ambientais e da Vida da Universidade de Southampton, no Reino Unido, em entrevista à DW. “Eles acham que o médico está sugerindo que a dor estaria apenas na mente deles.”
“Para que antidepressivos se não estou deprimida?”
Pincus disse que, com o tempo, os analgésicos comuns tendem a parar de funcionar. Isso fez com que ela e outros pesquisadores da área buscassem soluções alternativas.
Há várias razões lógicas para eles terem considerado os antidepressivos como uma alternativa aos analgésicos convencionais. Uma delas é que a dor crônica pode afetar o humor ou a saúde mental de uma pessoa.
“Uma grande proporção das pessoas que convivem com dor crônica, cerca de 40%, fica de mau humor”, disse Pincus. “Elas não estão clinicamente deprimidas, mas se sentem culpadas por não se esforçarem no trabalho ou em casa, e muitas vezes não conseguem fazer o que querem ou amam fazer.”
Os antidepressivos, disse Pincus, podem ajudar com isso, além de também ajudar com a dor em si. As substâncias químicas que os antidepressivos regulam no cérebro, como a serotonina e a noradrenalina, afetam tanto o humor quanto a dor.
“As áreas que envolvem o processamento da dor em nosso cérebro são próximas às que processam as emoções negativas”, disse Pincus.
Portanto, faz sentido pensar que os mesmos medicamentos usados para tratar a depressão também podem aliviar a dor crônica. Mas a pesquisa de Pincus e colegas parece não apoiar essa ideia.
Ensaios clínicos não são conclusivos
Em cooperação a rede global de revisão de dados de saúde Cochrane, pesquisadores da Universidade de Southampton analisaram os resultados de 176 ensaios clínicos sobre antidepressivos e dor crônica. Os ensaios envolveram cerca de 30.000 pacientes e 27 antidepressivos diferentes.
A análise dos resultados foi preocupante: os ensaios sobre o efeito de antidepressivos na dor crônica pareciam insignificantes e produziam dados tão escassos entre os ensaios, que eles se sentiram confiantes quanto à eficácia de apenas um dos 27 antidepressivos testados, a duloxetina.
Outro medicamento, a amitriptilina, não passou no teste, embora seja justamente o antidepressivo mais comumente prescrito para dor crônica nos EUA, Reino Unido e Alemanha – e é um dos dois medicamentos que tomo há quase um ano.
Nenhum dos ensaios com amitriptilina analisados pelos especialistas envolveu um número suficiente de participantes para pudessem ser considerados confiáveis.
Isso não significa que a amitriptilina seja totalmente ineficaz contra a dor crônica. Durante a entrevista, contei a Pincus que meus sintomas começaram a melhorar drasticamente depois de tomar amitriptilina por cerca de quatro semanas e que também estava dormindo muito melhor. Ela não ficou nem um pouco surpreso ao ouvir isso.
“Trabalhamos com evidências baseadas em grupos”, disse a especialista. “Não podemos prever como um indivíduo reage ao medicamento. A amitriptilina, um tipo de medicamento chamado antidepressivo tricíclico, pode ter efeitos colaterais bastante desagradáveis, como causar sonolência.”
Para mim, como indivíduo, a amitriptilina funcionou bem – talvez eu tenha tido sorte. Mas, na análise de grupo, os pesquisadores encontraram baixa eficácia geral e alta probabilidade de efeitos colaterais para o medicamento. Isso não é bom quando se tenta avaliar se um medicamento pode oferecer um bom tratamento para um número maior de pessoas.
O melhor conselho: “viva a vida ao máximo”
Mesmo a duloxetina, que pareceu de fato reduzir a dor e aumentar a capacidade das pessoas de retornar às atividades cotidianas, mostrou eficácia apenas a curto prazo. E havia poucos dados sobre quaisquer efeitos colaterais ou os danos que o medicamento possa causar – se de fato causar– quando tomado a longo prazo.
“Os resultados foram promissores, mas [a falta de informações sobre possíveis danos] me preocupa”, disse Pincus.
Ao encerrarmos a conversa, a especialista, que tem experiência própria com dor crônica, me deu um conselho sobre o que talvez seja a alternativa mais natural à medicação.
“Viva a vida ao máximo que puder”, disse ela. “Seja aventureira com sua criatividade. Quando você faz isso, as sinapses no seu cérebro mudam. Qualquer tipo de atividade que lhe traga alegria ajuda você a conviver com a dor crônica.”