Corrida sucessória já se abre no país com fim de segundo mandato de Frank-Walter Steinmeier. Partidos pressionam por candidatura feminina.O término previsto do segundo mandato do presidente alemão Frank-Walter Steinmeier no início de 2027, já abre especulações sucessórias. O Partido Social-Democrata (SPD), de centro‑esquerda, e os ambientalistas do Partido Verde fazem campanha para que uma mulher assuma o cargo. Seria algo inédito: doze políticos ocuparam a presidência desde o fim da Segunda Guerra Mundial, todos homens.

O apelo é tamanho que até mesmo a candidatura da ex‑chanceler federal alemã Angela Merkel chegou a ser sugerida pelos Verdes. Merkel chefiou o governo alemão por 16 anos, até 2021, e manteve altos índices de popularidade durante todo o período.

No país, o presidente possui atribuições executivas, mas seus poderes são mais simbólicos, embora seja chefe de Estado. A Lei Fundamental, ou seja a Constituição alemã, lhe garante a competência de assinar acordos e tratados internacionais e nomear ministros, mas o comando da política cabe ao governo, chefiado pelo chanceler federal.

Merkel rejeitou imediatamente a especulação, chamando-a de “absurda”. A proposta dificilmente prosperaria devido à rivalidade de longa data entre ela e o atual chanceler federal alemão, Friedrich Merz. Apesar do papel cerimonial do presidente, sua relação com o Parlamento é fundamental para a execução de atos previstos pelo governo.

À emissora de televisão Phoenix, Merz afirmou que apresentará um nome em setembro. “Quero que escolhamos para este cargo uma pessoa que represente o país em sua totalidade”, disse. Ele não especificou se essa pessoa deveria ser homem ou mulher.

Como o presidente é eleito?

Setembro é o mês da última das cinco eleições estaduais deste ano. Só então ficará mais claro como será a composição da Convenção Federal, assembleia convocada exclusivamente para escolher o próximo presidente para um mandato de cinco anos.

Portanto, os alemães não elegem diretamente seu presidente. Este papel fica com a Convenção Federal, composta por 630 deputados do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento, e por igual número de representantes dos 16 estados federados.

Esses representantes podem ser deputados estaduais, mas não necessariamente. Frequentemente os partidos indicam cidadãos de destaque, como atletas ou artistas, para fazerem o papel de delegados. O voto é secreto e não há debate. A reeleição é permitida uma vez.

Todos os candidatos devem ser cidadãos alemães e ter pelo menos 40 anos. É eleito quem obtiver maioria absoluta – mais da metade dos votos. Se isso não ocorrer em duas rodadas, realiza-se uma terceira e última votação, na qual vence quem obtiver maioria simples.

Oficialmente, o presidente ocupa o cargo mais alto do país, ainda que o chanceler federal tenha maior poder sobre a estrutura estatal alemã.

Klöckner ou Aigner?

A combativa presidente do Parlamento alemão vem sendo citada como possível candidata. Julia Klöckner é uma política da União Democrata Cristã (CDU), mesmo partido de Merz. Mas sua indicação é impopular entre os social‑democratas, que compõem a coalizão governista liderada pelo bloco conservador CDU/CSU.

A Esquerda e os Verdes também a criticam, acusando-a de ser uma figura polarizadora. Em julho, por exemplo, foi criticada ao proibir o hasteamento da bandeira LGBT+ na fachada da sede do Parlamento durante o Dia do Orgulho.

Já Ilse Aigner, da União Social Cristã (CSU), partido irmão da CDU, teria mais chances de obter apoio, inclusive entre adversários políticos. Ela chefia o Parlamento estadual da Baviera há oito anos, período em que foi elogiada por conseguir manter diálogo com diferentes partidos.

O desafio para sua candidatura é a de que se ela se tornasse chefe de Estado, as chances de Markus Söder, líder da CSU e premiê da Baviera, chegar algum dia ao cargo de chanceler federal cairiam a zero, avaliam analistas. Para muitos, seria inaceitável que o pequeno partido irmão da CDU ocupasse dois dos cargos mais altos do país.

Uma candidata com raízes judaicas?

A ministra federal da Educação, Karin Prien (CDU), também é frequentemente mencionada como possível candidata. Ela seria a primeira pessoa com raízes judaicas a ocupar o cargo. Seus avós sobreviveram ao Holocausto.

Sua candidatura enviaria um sinal forte em um momento de crescente antissemitismo na Alemanha. No entanto, Prien pertence à ala progressista da CDU e, por isso, dificilmente conquistaria maioria dentro do partido sob a liderança conservadora de Merz.

Já o secretário‑geral da CDU, Carsten Linnemann, sugeriu buscar uma candidata fora da política profissional. O nome de Juli Zeh voltou a circular. A escritora e doutora em direito internacional nasceu em Bonn, no oeste do país, e mudou-se para o estado de Brandemburgo, no leste, há vinte anos. Ela tem experiência administrativa como juíza constitucional honorária em seu estado e é filiada ao SPD. Seu romance Unterleuten (“Entre Pessoas”, em tradução livre) retrata uma vila no leste alemão dividida por planos de construção de turbinas eólicas.

“Consigo imaginar isso em algum momento no futuro. Mas não agora, porque não conseguiria conciliar a dupla carga de trabalho e família”, disse Juli Zeh ao jornal Die Zeit. “Precisamos de alguém que não esteja claramente associado a um dos lados dessa chamada polarização. Pelo perfil de personalidade, eu até me encaixaria bem.”