19/01/2026 - 15:55
Ameaças em relação à Groenlândia fazem com que segundo ano da nova gestão do presidente americano comece com forte abalo da aliança histórica entre Berlim e Washington.A disputa entre os parceiros europeus da Otan e os EUA está se intensificando a cada dia. O presidente dos EUA, Donald Trump , acirrou o conflito sobre a Groenlândia ao anunciar tarifas especiais contra oito países europeus. A Alemanha e outras nações europeias haviam enviado soldados à Groenlândia como um sinal – em grande parte simbólico – de resistência à exigência de Trump de anexar a ilha semiautônoma dinamarquesa, se necessário pela força. Agora, a UE cogita lançar tarifas retaliatórias caso Trump leve adiante sua proposta.
Há poucos dias, durante uma visita a Washington, o ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, se mostrara otimista. “Nossa parceria é forte, somos capazes de agir e estamos determinados a expandir ainda mais essa parceria”, declarou. Os EUA, acrescentou, estão “total e completamente ao lado da Europa”, tanto política quanto militarmente.
Anexação mudaria tudo
Mas sobre a aliança dos EUA com os países europeus da Otan pairam dúvidas cada vez maiores. Dúvidas não apenas sobre se Washington realmente protegeria seus parceiros em caso de um ataque russo. Caso os EUA violem a soberania da Dinamarca , seu parceiro na Otan, a aliança estaria acabada, como afirmou a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen .
“Este é um momento de tensão dramática”, diz Rachel Tausendfreund, especialista americana do think tank Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), sediado em Berlim. “A Alemanha agora se pergunta se deve se preparar para um ataque de seu parceiro mais importante na Otan. Nesse sentido, a relação nunca esteve tão tensa. Por outro lado, pelo que ouvimos, Trump e o chanceler federal alemão Friedrich Merz têm uma relação de trabalho bastante boa.”
Mas essa boa relação não pode ser colocada indefinidamente à prova. O chanceler alemão ainda se mostrou cauteloso ao comentar o ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças especiais americanas, classificando a ação como “complicada” do ponto de vista jurídico, embora ela tenha sido claramente uma violação do direito internacional. Tal contenção agora dificilmente se sustenta.
Johannes Varwick, professor de relações internacionais da Universidade de Halle, na Alemanha, acredita que uma invasão da Groenlândia “seria, de fato, a gota d’água”.
“A relação de confiança com os EUA seria provavelmente destruída de forma irremediável. Seria necessário recomeçar do zero e avaliar em que bases a cooperação futura seria possível. Mas isso será muito, muito difícil, porque, ao mesmo tempo, dependemos dos EUA em muitas questões. E essa ruptura seria cara, arriscada, mas provavelmente inevitável”, avalia.
Diferenças de interesse
Ferrenho defensor da cooperação transatlântica, Merz está determinado a evitar essa ruptura. Trump, que assumiu um segundo mandato como presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2025, subverteu praticamente todos os princípios anteriores da outrora estreita parceria.
Merz ainda não era chanceler federal quando Trump humilhou o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski , perante o mundo em fevereiro. Na ocasião, Merz afirmou: “Desde as declarações de Trump, no mínimo, ficou claro que esse segmento da população americana se mostra amplamente indiferente ao destino da Europa”. Sua principal prioridade agora, disse ele, é ajudar a Europa a “conquistar, passo a passo, a independência dos EUA”.
Mas o problema não é tão simples, alerta Varwick. “A única coisa que poderia realmente causar algum impacto [em Trump], se é que causaria algum, é uma posição europeia verdadeiramente unificada. Friedrich Merz está trabalhando nisso, mas as diferenças de interesses entre os Estados europeus ainda são muito significativas”.
Merz em Washington
As relações continuaram a deteriorar-se ao longo do ano. As tarifas de importação americanas sobre produtos europeus estão afetando duramente a economia alemã, que é fortemente dependente das exportações. Na guerra da Ucrânia, Trump deixou cada vez mais claro que faria concessões significativas ao presidente russo Vladimir Putin para alcançar a paz.
No entanto, apesar de todos os conflitos – ou talvez por causa deles –, Merz foi a Washington no início de junho. O encontro correu melhor do que o esperado, provavelmente também porque Merz pôde afirmar que a Alemanha agora pretende gastar consideravelmente mais em defesa, como Trump havia exigido. Já por parte de Trump, não houve concessões.
Volta do imperialismo
Desde dezembro, os eventos têm se desenrolado rapidamente: na nova estratégia de segurança nacional, o governo americano alerta a Europa sobre a “aniquilação civilizacional” por meio da migração. O Hemisfério Ocidental é declarado esfera de influência dos EUA. Em seguida, após a intervenção na Venezuela, veio a ameaça da Groenlândia.
O governo alemão parece perplexo sobre como, por um lado, manter a parceria com Trump na busca pela paz na Ucrânia e como protetor da Europa e, por outro, permanecer fiel aos seus valores autoproclamados: a adesão ao direito internacional e a uma ordem internacional baseada em regras.
Rachel Tausendfreund não acredita que os EUA irão virar completamente as costas para a Europa. “Os Estados Unidos querem recalibrar seu relacionamento com a Europa; querem arcar com um fardo muito menor na segurança da Ucrânia, mas mesmo o governo Trump ainda vê a Europa como parceira, embora alguns membros do governo sejam muito anti-UE.”
O cientista político Johannes Varwick, no entanto, prevê tempos turbulentos para a Alemanha, pois o imperialismo e a “lei da selva”, segundo ele, retornaram com Trump. “Esta é, obviamente, uma notícia muito, muito ruim para a Alemanha, porque, como quase nenhum outro país, a Alemanha depende de um ambiente internacional estável, tanto em termos de política de segurança quanto de política econômica. O modelo de negócios alemão está à beira do colapso e não há nada melhor à vista.”
Baixa popularidade entre alemães
No final do ano passado, o gabinete do chanceler federal alemão anunciou que Trump havia aceitado o convite de Merz para visitar a Alemanha. O convite foi feito durante a visita a Washington em junho, ocasião em que Merz também presenteou Trump com uma certidão de nascimento de seu avô, que emigrou de Kallstadt, na região do Palatinado, Alemanha, para os EUA.
Tausendfreund acredita que Trump provavelmente se sentiu lisonjeado com o presente do país de seus ancestrais. No entanto, alerta para que não se tirem conclusões precipitadas. “Isso não significa que ele tenha qualquer sentimento forte ou duradouro de apego à Alemanha.”
Uma pesquisa divulgada no início de janeiro pela TV pública alemã ARD revelou o sentimento público que Trump encontraria no paí: apenas 15% dos entrevistados consideram os EUA um parceiro confiável, contra 76% que acham que o país já não é mais digno de confiança – uma inversão radical do sentimento que prevalecia sob o governo do presidente Joe Biden.
O convite à Alemanha foi feito quando as relações já estavam bastante tensas, mas muito antes da recente escalada de tensões na Groenlândia. Diante dessas circunstâncias, uma visita de Trump à Alemanha parece inconcebível a curto prazo.
