11/02/2026 - 11:05
E-mails e documentos mostram que Epstein pagou por sequenciamento genético, falava sobre design de bebês e fantasiava ter filhos com várias mulheres por meio de inseminação artificial.O financista e criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein se submeteu a testes genéticos numa aparente tentativa de usar seu próprio material biológico em pesquisas relacionadas à medicina regenerativa e à longevidade, segundo milhares de e-mails recentemente publicados e analisados por diversos veículos de comunicação.
De acordo com uma investigação da emissora americana CNN, os documentos mostram que, anos após sua condenação por crimes de tráfico sexual, em 2008, Epstein pagou por testes genômicos e se interessou por projetos relacionados à criação e modificação de células-tronco, essenciais para a regeneração de tecidos e com propriedades importantes para a cura.
Seu interesse, no entanto, ia além da saúde pessoal, abrangendo ideias mais amplas sobre a modificação genética humana.
Sequenciamento de DNA e células-tronco
O médico pesquisador Joseph Thakuria, que então trabalhava num hospital afiliado à Faculdade de Medicina de Harvard, confirmou que Epstein participou do Projeto Genoma Pessoal de Harvard, um banco de dados genético voluntário criado para facilitar a pesquisa científica sobre a relação entre genes e doenças.
Em 2014, Thakuria enviou a Epstein uma proposta para financiar uma série de projetos ao custo total de 193.400 dólares, incluindo uma fatura inicial de 2.000 dólares para sequenciar parte do genoma do financista. A fatura indicava que Epstein havia fornecido uma amostra de saliva.
Esse investimento inicial incluía 1.000 dólares para sequenciar uma parte de seu genoma conhecida como exoma e outros 1.000 dólares para sequenciar fibroblastos, células encontradas no tecido conjuntivo, como pele e músculos, que têm sido usadas num campo de pesquisa relativamente novo com o objetivo de reverter o envelhecimento. Epstein pagou os 2.000 dólares, segundo a CNN.
O projeto incluía ainda a possibilidade de modificar células-tronco de Epstein usando a então inovadora técnica de edição genética Crispr para introduzir mutações associadas ao aumento da longevidade. A CNN não encontrou nenhum registro de que Epstein tenha pagado por esse serviço, mas os e-mails entre Thakuria, Epstein e seus assistentes continuaram até pelo menos 2015. Os e-mails também revelam tensões entre Epstein e o médico devido a atrasos nos resultados.
Conexões com cientistas e acadêmicos
Outros documentos recentemente divulgados pelo Departamento de Justiça e analisados pela imprensa dos Estados Unidos revelam que o interesse de Epstein em genética não se limitava à sua própria saúde.
De acordo com reportagens publicadas por diversos veículos de comunicação, Epstein manteve conversas durante anos com cientistas e acadêmicos renomados sobre a possibilidade de “aprimorar” o DNA humano por meio da engenharia genética e de novas tecnologias.
Durante anos, Epstein manteve laços com pesquisadores e centros acadêmicos, em parte graças a contribuições financeiras e à sua presença em conferências e encontros científicos, onde se reunia com especialistas de diversas disciplinas.
Entre esses encontros destaca-se uma conferência realizada em 2006 na ilha de St. Thomas, nas Ilhas Virgens Britânicas, perto de uma de suas propriedades, que reuniu cientistas como os físicos Stephen Hawking e Kip Thorne. Embora o programa oficial se concentrasse em questões de física teórica, alguns participantes lembraram posteriormente que Epstein demonstrou maior interesse em discutir possíveis aplicações futuras da genética humana, conforme relatado pelo jornal The New York Times.
Diversos depoimentos indicam que, independentemente do tema oficial dessas reuniões, o empresário frequentemente direcionava as conversas para a possibilidade de manipulação genética de características humanas.
Ideias eugênicas e modificação genética
Os documentos também mostram que Epstein defendia ideias amplamente questionadas pela comunidade científica e consideradas próximas aos princípios eugênicos. Segundo o jornal britânico The Telegraph, num e-mail de 2016 para o cientista cognitivo alemão e então professor do MIT Joscha Bach, Epstein expressou interesse na possibilidade de modificar geneticamente pessoas negras para torná-las “mais inteligentes”.
Naquele mesmo ano, de acordo com o jornal britânico, numa troca de e-mails com o intelectual Noam Chomsky, Epstein afirmou que a diferença nas notas em testes acadêmicos entre populações afro-americanas era “bem documentada” e sustentou que os genes poderiam eventualmente ser identificados e modificados.
Design de bebês
Epstein também demonstrou interesse em pesquisas focadas na seleção ou modificação genética de embriões (popularmente conhecida como design de bebês) e discutiu possíveis investimentos nesse tipo de pesquisa com empreendedores da área de tecnologia e cientistas.
Em diversas ocasiões, a partir do início dos anos 2000, Epstein falou a cientistas e empresários sobre sua ideia de usar seu rancho no Novo México como local onde várias mulheres dariam à luz após serem inseminadas com o esperma dele, informou o New York Times.
Os documentos recentes divulgados pelo Departamento de Justiça mostraram mais uma vez a extensão da rede acadêmica e empresarial que Epstein manteve por anos. Epstein morreu em 2019 numa prisão de Nova York enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual.