30/08/2025 - 11:08
Escritores, humoristas e personalidades exaltam a obra e o legado deixado pelo cronista. Presidente Lula lembra que Veríssimo “usou a ironia para denunciar a ditadura e defender a democracia.”A morte do escritor e cronista Luis Fernando Veríssimo neste sábado (30/08) teve grande repercussão no meio cultural e político. Muitas personalidades destacaram o humor de seus textos e charges e os personagens que ele imortalizou, como o Analista de Bagé, a Velhinha de Taubaté e Ed Mort.
Veríssimo morreu nesta madrugada aos 88 anos. Ele estava internado desde o dia 17 na UTI do hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. A morte foi confirmada por sua esposa, Lucia, e familiares. O cronista parou de escrever em 2021, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Nos últimos anos, enfrentava uma série de problemas de saúde, como a doença de Parkinson e um câncer ósseo na mandíbula.
Artistas, políticos e personalidades lamentaram a morte e prestaram suas homenagens ao escritor.
O escritor Antonio Prata destacou que humor era de Veríssimo era o traço mais marcante de sua obra que suas crônicas são uma “porta de entrada à leitura”.
“Ele foi um grande cronista, um grande humorista e um grande comentador da realidade nacional”, disse Prata à rádio CBN. “Ele era um cara que escrevia sobre política também, sempre pelo viés do humor. Ele é um grande humorista, mas que comentava a realidade brasileira de uma maneira muito árdua, muito precisa”.
O jornalista e escritor Ruy Castro, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, comparou o estilo dos textos do cronista gaúcho com os do cineasta Woody Allen, publicados pela revista americana New Yorker. “Assim como Woody, Verissimo se punha na posição do observador que via o ridículo ou o absurdo com grande naturalidade. Também como Woody, ele não buscava a gargalhada, mas o riso silencioso. E seus personagens, assim como os de Woody, eram homens e mulheres nascidos não para, mas um contra o outro.”
“Ele conseguiu a proeza de fazer o país rir com um personagem de forte sabor regional, o analista de Bagé. Outra de suas criações, a velhinha de Taubaté – a última pessoa no Brasil a continuar acreditando no regime militar – nos lavava semanalmente a alma. Minha favorita, no entanto, era uma que ele explorava pouco, a ravissante Dorinha Doravante, a socialite socialista, que escrevia ao cronista cartas deliciosamente cínicas”, escreveu Castro.
“Escritor, cartunista e herói”
O humorista Antônio Tabet, apresentador e fundador do grupo Porta dos Fundos, também, lamentou a morte do cronista.
“Morreu um dos maiores de todos os tempos: Luis Fernando Verissimo. Escritor, cartunista e herói. Meu herói. Verissimo foi, desde quando seus livros encheram meu peito com um entusiasmo inédito, o norte da minha bússola profissional. Pensava, ainda nos devaneios da adolescência, que um dia seria como ele. Nunca fui. Nunca serei. Ninguém será. Completo, magnífico e unanimidade, Verissimo foi além dos livros. Foi um verdadeiro Robin Hood da endorfina.”
“Sem ele, a vida de um país que não valoriza artistas como ele seria mais sem graça e as comédias da vida privada continuariam privadas. Verissimo, como o próprio nome diz, foi gênio de verdade. Literal. Tanto que até este “literal” é literal. É veríssimo. Verissimo. Descanse em paz. Todo meu afeto e gratidão para a família. Te amo, ídolo!”
A escritora, jornalista e amiga de Verissimo Cíntia Moscovich destacou o papel de Veríssimo em se tornar um elemento aglutinador no meio literário. “Ele fazia questão de estar muito próximo de todos nós, que vivíamos a literatura”, disse à emissora GloboNews.
“Verissimo estreitava e formava um núcleo agregador em Porto Alegre e no Brasil, que fazia com que a gente se comunicasse com os vários ‘Brasis’ que existem, em termos literários e afetivos”, disse, acrescentando que ele “estava sempre presente, e não era muito de falar, mas de olhar.”
O cartunista Angeli publicou uma charge na qual Veríssimo aparece tocando saxofone – uma das paixões do cronista – ao lado de sua personagem Rê Bordosa e prestou solidariedade à família do escritor. “Todo amor para Lúcia, Fernanda, Mariana, Pedro e família. Imensurável é ‘o pai'”, escreveu.
“Ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que Veríssimo usava a ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo e defender a democracia. “Dono de múltiplos talentos, cultivou inúmeros leitores em todo o Brasil com suas crônicas, contos, quadrinhos e romances. Criou personagens inesquecíveis, a exemplo do Analista de Bagé, As Cobras e Ed Mort.”
“Sua descrição bem-humorada da sociedade ganhou espaço nas livrarias e na TV, com a Comédia da Vida Privada. E, como poucos, soube usar a ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo; e defender a democracia. Eu e Janja deixamos o nosso carinho e solidariedade à viúva Lúcia Veríssimo – e a todos os seus familiares.”
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, expressou “enorme pesar” pela morte do escritor e decretou três dias de luto oficial no estado.
“O Rio Grande do Sul e o Brasil perdem um dos grandes nomes da literatura nacional, cuja obra marcou gerações de leitores com sacadas inteligentes e um humor peculiar para falar dos nossos desafios como brasileiros.
Autor de crônicas inesquecíveis e criador de personagens que se tornaram parte do imaginário brasileiro, Verissimo deixa um legado que permanecerá vivo em suas palavras, sempre atuais e cheias de sensibilidade e humor.”
“Em reconhecimento à sua trajetória e contribuição à cultura, decreto três dias de luto oficial no Estado. O Rio Grande do Sul se despede de um gênio da escrita, mas suas histórias seguirão entre nós, pois são imortais.
O Sport Club Internacional lamentou através das redes sociais a perda de um de seus torcedores mais ilustres.
“Hoje nos despedimos de um colorado que, com sua escrita, marcou o imaginário do povo brasileiro”, afirma a postagem do perfil oficial do clube. “Torcedor do Clube do Povo, ficou conhecido pelos seus textos em formato de crônicas, contos e poemas,”
“O Sport Club Internacional deseja força para todos os familiares, amigos e leitores de um dos maiores nomes da literatura nacional.”
rc (ots)