20/01/2026 - 13:31
Especialistas explicam a importância do artista para a cultura brasileira; tema de exposição no Rio, ele ganhará, em breve, antologia poética e nova biografia. A conversa estava boa, mas Sérgio Porto precisava ir. Despediu-se de Vinicius de Moraes, com quem tomava umas e outras no Bar Calypso, em Ipanema, pegou o carro e subiu a serra. Na extinta Confeitaria Copacabana, em Petrópolis, resolveu beber mais uma. Quando entrou no restaurante, avistou um sujeito que o saudava lá de dentro: “Foi nessa tarde que eu descobri que Vinicius era, pelo menos, dois. Se fosse um só, seria Vinicio de Moral”.
A pluralidade de Vinicius (“Reparem que seu nome já é no plural para enganar os trouxas”, brinca Porto) foi confirmada por Eucanaã Ferraz, um dos maiores especialistas em sua obra, no ciclo de conferências “Escritores, Lado B”, da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2023. Se Vinicius fosse um LP, comparou Ferraz, teria muitas faixas. No lado A, o poeta e o cancionista. No B, o cronista, o crítico de cinema, o dramaturgo e o diplomata.
“O principal ofício do Vinicius é a poesia. Mas, se tivesse que apresentá-lo às novas gerações, começaria pela música. A canção tem mais chance de seduzir o ouvinte do que a poesia de conquistar o leitor”, afirma o curador da exposição Por Toda a Minha Vida, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR) até o dia 3 de fevereiro, e um dos organizadores de Poesia Completa (Cia das Letras), ainda sem data de publicação, em parceria com Daniel Gil.
“Vinicius é, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto , um dos criadores da bossa nova . Isso não significava fazer uma música sofisticada, quase erudita. Era uma música jovem. Em tempos de tango, bolero e samba-canção, foi uma revolução que, não por acaso, arrebatou jovens como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil . Vinicius saiu do conforto da poesia e começou a fazer canção popular. Foi um gesto de muita coragem dele”, afirma Ferraz.
Além de uma antologia, Vinicius de Moraes vai ganhar também uma biografia. O responsável pela proeza será o jornalista e escritor Marcelo Bortoloti, que começou a pesquisar a vida e a obra de seu biografado há uns três anos. Até o momento, já conseguiu reunir mais de 10 mil páginas de documentos, e percorrer lugares onde Vinicius viveu e trabalhou, tanto no Brasil quanto no exterior, como Nova York, Paris, Roma, Buenos Aires e Montevidéu.
“Não é preciso ir até Vinicius para conhecê-lo. Ele está entre nós. Está presente em nossa cultura, música e memória. Difuso, mas presente”, garante Bortoloti, biógrafo de Belchior, Guignard e Di Cavalcanti. “Embora seja uma figura conhecida, Vinicius não tem sua história completamente contada. Sempre se fala dele de uma maneira parcial. O desafio é contar sua história, extensa e profunda, de maneira completa e não repetitiva”, ambiciona.
O poeta
Vinicius de Moraes estava prestes a publicar seu primeiro livro de poesia, O Caminho para a Distância (1933), quando decidiu reunir alguns de seus versos e mostrar para um colega da faculdade de direito, Américo Jacobina Lacombe. “Tente outra coisa”, foi o conselho que ouviu. “Você é inteligente, mas não tem jeito algum para poeta.” Felizmente, Vinicius não lhe deu ouvidos.
Um dos gigantes de sua geração, ao lado de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Mário de Andrade, Vinicius mereceu elogios de Carlos Drummond de Andrade. “Ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos e o cinismo dos modernos”, declarou o mineiro. Em outras palavras, Vinicius de Moraes era múltiplo até na hora de escrever poesia.
Dos incontáveis versos que imortalizou, o mais famoso talvez seja o Soneto da Fidelidade (1939). Escrito em Portugal, é dedicado a Tati de Moraes, apelido de sua primeira mulher, Beatriz. Segundo José Castello, autor da biografia Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão (1994), “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure” é “uma das mais belas definições do amor já produzidas pela língua portuguesa”.
O cancionista
Parceiros, Vinicius teve muitos: Ary Barroso, Adoniran Barbosa, Chico Buarque… Com Edu Lobo, chegou a ganhar o 1º Festival da Música Popular Brasileira (1965), da TV Excelsior: Arrastão, na voz de Elis Regina. Mas, de todos, seus favoritos eram Tom Jobim, Carlos Lyra e Baden Powell, a quem chamava de “o Pai, o Filho e o Espírito Santo”. Quando começou a compor com Toquinho, em 1970, acrescentou: “É o Amém!”.
Se o Soneto da Fidelidade é o poema mais famoso, Garota de Ipanema (1962) é a música mais cantada. Mas, ao contrário do que dizem, não foi composta em uma mesa de bar. “Era proibido tocar violão no Veloso”, desmitifica Ruy Castro em uma crônica. A inspiração surgiu ali, sim, mas a música foi aprimorada ao piano no apartamento de Tom, em Ipanema, e a letra retocada por Vinicius, no de Lucinha Proença, sua quarta mulher, em Laranjeiras.
Outra letra que Vinicius demorou a escrever foi Chega de Saudade (1958). A música foi composta por Tom no sítio em Poço Fundo, no Rio. Ao ouvir a melodia, Vinicius comentou: “Tão brasileira quanto choro de Pixinguinha ou samba de Cartola”. Terminada a letra, soltou um grito de alívio: “Nunca levei uma surra assim”. Na mesma hora, mostrou para Lila, sua terceira mulher. “Rimar peixinhos com beijinhos? Que coisa mais boba!”, desdenhou ela.
O cronista
No Itamaraty, a mesa de Vinicius ficava ao lado da de Affonso Arinos. Um dia, o office-boy do jornal Última Hora entregou uma caixa abarrotada de cartas. “Vinicius, essas cartas são para você?”, perguntou Arinos, curioso. “Não, Afonsinho, são para a Helenice”, confessou Vinicius, encabulado. Helenice era o pseudônimo de uma misteriosa colunista do jornal carioca. A coluna Abra o Seu Coração durou de 12 de abril a 1º de novembro de 1953.
Vinicius não escreveu crônicas só para o jornal Última Hora, fundado por Samuel Wainer em 1951. Emprestou seu talento de cronista para outros veículos, como o jornal A Manhã, a revista Fatos & Fotos e o semanário O Pasquim. Muitas dessas crônicas foram publicadas em duas antologias do gênero: Para Viver Um Grande Amor (1962) e Para Uma Menina Com Uma Flor (1966).
Vinicius até tentou escrever um romance, mas não levou a experiência adiante. Batizado de Antônia, o calhamaço chegou a ter mais de 300 páginas. Quando o namoro com a personagem-título chegou ao fim, guardou o original por quase uma década. Nos anos 1940, reencontrou o esboço de livro no fundo de uma gaveta. Não gostou do que leu. Segundo Castello, Vinicius “vai ao banheiro, espalha as páginas pela pia e acende um fósforo”.
O crítico de cinema
“Durante um bom tempo, Vinicius quis ser cineasta.” A afirmação é do crítico Carlos Augusto Calil, organizador de O Cinema de Meus Olhos (2015). Diz mais: “Sua grande frustração foi a de não ter dirigido Orfeu”. Embora o filme de Marcel Camus, Orfeu Negro (1959), tenha conquistado a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Internacional, entre outros prêmios, Vinicius não gostou da adaptação. “Macumba para turista”, criticou.
Em Los Angeles, onde serviu como diplomata, Vinicius reencontrou Orson Welles, que conheceu no Rio de Janeiro, em 1942. E pediu a ele que lhe indicasse um curso de cinema. Em vez disso, o diretor convidou Vinicius para acompanhar as filmagens de A Dama de Shanghai (1947), estrelado por sua mulher, a atriz Rita Hayworth. “Foi o melhor curso intensivo que Vinicius poderia ter feito”, diverte-se o pesquisador Ricardo Cravo Albin.
Cineasta frustrado, Vinicius deixou inúmeros roteiros prontos. Um deles é a cinebiografia do escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, escrito a pedido do cineasta Alberto Cavalcanti. “Não teve êxito”, lamenta Calil. Em compensação, a música Garota de Ipanema foi adaptada para as telas por Leon Hirszman em 1967, e o musical Pobre Menina Rica, rebatizado de Para Viver Um Grande Amor, por Miguel Faria Jr. em 1984.
O dramaturgo
Foi Lúcio Rangel quem apresentou Vinicius a Tom. O encontro se deu no Bar Villarino, no Centro do Rio. “Você aceitaria musicar uma peça minha?”, pergunta o poeta. “Tem um dinheirinho nisso?”, responde o compositor. Nisso, o jornalista teria dito: “Tom, é o Vinicius! Como você ousa falar em dinheirinho?”. “É que eu preciso pagar o aluguel”, explica Tom. E foi assim que começou a nascer, em maio de 1956, a peça Orfeu da Conceição.
Vinicius mostrou os originais para João Cabral de Melo Neto. No dia seguinte, o pernambucano deu o seu veredicto: “Os dois primeiros atos estão ótimos. O terceiro, péssimo!”. Diante da perplexidade do colega, ordenou: “O que está esperando? Reescreva!”. Uma curiosidade: foi João Cabral quem sugeriu a Vinicius que batizasse a adaptação do mito grego de Orfeu da Conceição. Até então, a peça não tinha título.
Como dramaturgo, Vinicius escreveu mais três peças: Procura-se Uma Rosa (1962), Chacina em Barros Filho (1964) e Cordélia e o Peregrino (1965). E deixou 12 inacabadas. Dessas, a mais curiosa é Ópera do Nordeste, uma versão musical de Dom Quixote, com letra de Vinicius e música de Baden. Em sua imaginação, João Gilberto interpretaria Dom Quixote e Grande Otelo, Sancho Pança. E o diretor seria Glauber Rocha. Nunca saiu do papel.
O diplomata
A ideia de entrar no Itamaraty partiu do chanceler Oswaldo Aranha. Formado em Direito, Vinicius prestou o concurso, pela primeira vez, em 1942. Apesar de levar as apostilas para a praia e de estudar até tarde, não passou. No ano seguinte, tentou de novo. Chegou a ter aulas de português com o filólogo Antônio Houaiss. Foi aprovado. “Optou pela diplomacia menos por vocação, e mais para tentar organizar suas finanças”, afirma José Castello.
Em 1946, Vinicius assumiu o posto de vice-cônsul em Los Angeles, onde permaneceu por cinco anos. Na capital do cinema, fez amizade com Walt Disney, assistiu ao show de Louis Armstrong e tornou-se vizinho de Carmen Miranda. Ele e a família passaram a frequentar a casa da “Pequena Notável” em Beverly Hills, na Califórnia. Suzana, sua primogênita de 6 anos, gostava de brincar em seu closet, e Pedro, de 4, aprendeu a nadar em sua piscina.
Sua carreira diplomática chegou ao fim em 29 de abril de 1969 quando foi aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-5) . “Fazia questão de esclarecer que tinha sido afastado por causa da alegação de que bebia muito”, afirma o diplomata e escritor João Almino, autor do livro Diplomatas, Escritores, Imortais (2025). Em 16 de agosto de 2010, 30 anos depois de sua morte, Vinicius de Moraes foi promovido a embaixador.
