24/05/2026 - 17:22
Pequim lançou neste domingo (24/05) a missão Shenzhou-23, marcando a primeira vez que um astronauta chinês permanecerá um ano inteiro em órbita. Este é um passo crucial para o plano da China de enviar humanos à Lua até 2030. O país asiático intensifica sua corrida espacial com os Estados Unidos, que também almejam o retorno ao satélite natural com o programa Artemis.
O que aconteceu
- Pela primeira vez, um astronauta chinês passará um ano completo em órbita, como parte da missão Shenzhou-23.
- A iniciativa é um movimento estratégico de Pequim para cumprir o objetivo de enviar humanos à Lua até 2030.
- A missão aprofunda a disputa na corrida espacial global, que também envolve os Estados Unidos e seu programa Artemis.
O foguete Longa Marcha 2-F decolou pontualmente às 12h08 (horário de Brasília) do centro de lançamento de Jiuquan, no deserto de Gobi, no noroeste da China. A partida, acompanhada por uma nuvem de chamas e fumaça, foi transmitida pela emissora estatal CCTV.
A espaçonave se separou do foguete aproximadamente dez minutos após o lançamento e entrou em órbita, conforme comunicado pela agência espacial chinesa CMSA nas redes sociais. A CMSA acrescentou que “os astronautas estão em boas condições, e o lançamento foi um sucesso completo”.
Tripulação da missão Shenzhou-23
A bordo da Shenzhou-23, a tripulação inclui a astronauta Li Jiaying, de 43 anos, ex-policial de Hong Kong, em seu primeiro voo espacial. Os outros membros são o engenheiro espacial Zhu Yangzhu, de 39 anos, e Zhang Zhiyuan, também de 39 anos, um ex-piloto da força aérea, que realiza sua viagem inaugural ao espaço.
Na estação espacial Tiangong, os tripulantes deverão executar diversos projetos científicos em áreas como ciências da vida, ciência dos materiais, física de fluidos e medicina. O país também projeta receber, até o final do ano, seu primeiro astronauta estrangeiro na estação, proveniente do Paquistão.
Quais os desafios de uma longa estadia no espaço?
Um experimento fundamental da Shenzhou-23 será a permanência de um ano inteiro em órbita por um dos tripulantes. O objetivo é estudar os efeitos de uma longa estadia em microgravidade, crucial para os preparativos chineses de futuras missões lunares e a Marte.
A CMSA ainda não revelou qual astronauta cumprirá a missão de um ano, anunciando que a definição dependerá do progresso da missão Shenzhou-23. Outro experimento em andamento, inédito, envolve um “embrião artificial” humano no espaço, com o envio de amostras de células-tronco humanas à tripulação da Shenzhou-22, conforme reportado pela mídia estatal. O experimento visa aprofundar os estudos sobre a sobrevivência e reprodução de seres humanos no ambiente espacial.
De acordo com o astrofísico Richard de Grijs, professor da Universidade Macquarie, na Austrália, os principais desafios de uma longa permanência no espaço residem nos efeitos a longo prazo sobre o corpo humano. Isso inclui perda de densidade óssea, desgaste muscular, exposição à radiação, distúrbios do sono e fadiga comportamental e psicológica.
Grijs também enfatizou a relevância de sistemas confiáveis para a reciclagem de água e ar, além da capacidade de gerenciar possíveis emergências médicas longe da Terra. Segundo o astrofísico, a China está construindo “de forma constante” experiência operacional para a “ocupação sustentada” de sua estação espacial Tiangong. Missões de um ano representam um passo significativo em direção a futuras ambições lunares e talvez até mais distantes.
“Um ano em órbita leva tanto os equipamentos quanto os humanos a um regime operacional diferente em comparação com as missões Shenzhou mais curtas das fases iniciais do programa”, afirmou Grijs à agência de notícias AFP. Até o momento, as tripulações a bordo da Tiangong permaneceram, em sua maioria, por seis meses antes de serem substituídas.
China consolida seu espaço na corrida espacial
A China testa os equipamentos essenciais para uma viagem à Lua, com um voo de teste orbital de sua nova nave Mengzhou previsto para 2026. Este novo modelo substituirá a envelhecida linha Shenzhou. O país também planeja construir a primeira fase de uma base científica tripulada até 2035: a Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS), em parceria com a Rússia.
O gigante asiático expandiu significativamente seus programas espaciais nas últimas três décadas, investindo bilhões de dólares no setor para equiparar-se a Estados Unidos, Rússia e Europa. Em 2019, a China pousou a sonda Chang”e-4 no lado oculto da Lua, um feito inédito. Em 2021, um pequeno robô chinês pousou em Marte. Já em 2024, a China tornou-se o primeiro país a coletar amostras lunares da face oculta da Lua, utilizando robôs.
A China foi formalmente excluída da Estação Espacial Internacional (ISS) em 2011, após os Estados Unidos proibirem a Nasa de colaborar com Pequim. Essa decisão levou o país asiático a desenvolver seu próprio projeto de estação espacial. Embora a China já tenha enviado astronautas à sua estação espacial diversas outras vezes, este lançamento ocorre em meio a uma corrida cada vez mais acelerada à Lua com os Estados Unidos. O governo americano, por sua vez, alertou sobre o que alega serem planos de Pequim de colonizar e explorar territórios e recursos lunares.
A Nasa tem como meta enviar uma missão tripulada à Lua em 2028. O objetivo é estabelecer uma presença de longo prazo no astro, com vistas a uma eventual exploração humana de Marte.
Da IstoÉ com AFP, Reuters
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