A guerra de nervos no Oriente Médio cruzou as fronteiras continentais e atingiu o coração do Oceano Índico. Nesta sexta-feira (20), oficiais americanos confirmaram que o Irã disparou dois mísseis balísticos contra a ilha de Diego Garcia, uma base militar ultraestratégica de propriedade britânica, mas operada pelos Estados Unidos. Embora os projéteis não tenham atingido o atol, o ataque marca um precedente perigoso: Teerã demonstrou capacidade e disposição para golpear um dos pontos mais remotos e vitais da infraestrutura de defesa ocidental.

Resumo

  • Localização: parte do Arquipélago de Chagos, no Oceano Índico, a 4.000 km do Irã e 500 km das Maldivas.

  • Status político: Território Ultramarino Britânico, mas com soberania reivindicada pela República de Maurício (antiga colônia britânica).

  • Função militar: base de apoio para bombardeiros B-1, B-2 e B-52, além de porto para submarinos de propulsão nuclear e navios de suprimentos.

  • Histórico social: Cerca de 2.000 nativos (chagossianos) foram retirados à força entre as décadas de 60 e 70 para a construção da base.

  • Controvérsia: Donald Trump criticou o acordo de devolução da ilha a Maurício, chamando-o de “estupidez”, o que travou a ratificação do pacto no Parlamento Britânico.

Localizada no Arquipélago de Chagos, a meio caminho entre a África e a Indonésia, Diego Garcia funciona como uma plataforma logística indispensável. Ali estão estacionados bombardeiros de longo alcance, destróieres e submarinos nucleares. Recentemente, a base foi utilizada para lançar ataques contra rebeldes Houthis no Iêmen e para coordenar operações de inteligência no Sul da Ásia.

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O ataque ocorre em um momento de extrema fragilidade política para a ilha. Em maio de 2025, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, assinou um acordo histórico para devolver a soberania de Chagos à República de Maurício, encerrando décadas de disputas judiciais e críticas da ONU sobre a “administração colonial” britânica. Pelo pacto, o Reino Unido pagaria R$ 716 milhões anuais para arrendar a base por 99 anos.

Contudo, a ratificação do acordo virou um campo de batalha transatlântico. O presidente americano Donald Trump classificou a devolução das ilhas como “estupidez”, alegando que a mudança de soberania abriria brechas para interferências da China e da Rússia. A irritação de Washington aumentou quando Londres tentou restringir o uso da base para ataques diretos ao Irã. O impasse travou a votação no Parlamento britânico, deixando o status jurídico da ilha em um limbo perigoso.

Expulsão histórica e segurança nacional

A base de Diego Garcia carrega uma cicatriz histórica: entre as décadas de 60 e 70, cerca de 2 mil nativos chagossianos foram deslocados à força para a construção da instalação militar. Hoje, os descendentes desses deslocados veem o novo acordo com ceticismo, alegando que não foram consultados sobre o futuro de sua terra natal.

Para Keir Starmer, garantir o arrendamento é uma questão de “segurança nacional”. O premiê argumenta que, sem o acordo, o Reino Unido poderia perder a base em tribunais internacionais sem qualquer compensação. Por outro lado, a oposição britânica e a Casa Branca temem que a fragilidade da soberania atual encoraje agressões como a desta sexta-feira.

A resposta do Irã

A retórica de Teerã subiu de tom imediatamente. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, alertou que Londres está “colocando vidas britânicas em perigo” ao permitir que solo sob sua bandeira seja usado para agressões. Com os EUA descrevendo Diego Garcia como uma “plataforma praticamente indispensável” para a segurança no Oriente Médio e Leste da África, o fracasso dos mísseis iranianos pode ter sido apenas um ensaio para uma nova e mais ampla fase do conflito global.