Protestos de agricultores na França e na Grécia contra acordo de livre comércio entre os dois blocos ocorrem na véspera de votação sobre o tema na UE e aumentam tensão política em Paris e Atenas.Dezenas de agricultores saíram às ruas nesta quinta-feira (08/01) na França e na Grécia, interrompendo o tráfego e fechando rotas estratégicas com tratores, em protesto contra o possível avanço do acordo de livre comércio da UE com o Mercosul .

A votação do tema pela União Europeia está prevista para esta sexta‑feira, após ter sido adiada em dezembro. Na ocasião, agricultores conseguiram novas salvaguardas para proteger o agronegócio local, mas mesmo assim a assinatura do acordo, negociado há quase três décadas, foi postergada.

Os produtores europeus veem o tratado como uma ameaça, por abrir o mercado do bloco para importações mais baratas originárias de Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai .

Na França, cerca de 100 tratores chegaram a Paris e se concentraram diante da Assembleia Nacional, sob intensa vigilância policial. Bloqueios tomaram ainda rodovias de acesso à capital, provocando congestionamentos que chegaram a 150 quilômetros. Parte dos manifestantes conseguiu ultrapassar barreiras policiais e acessar pontos centrais, como o Arco do Triunfo e a região da Torre Eiffel.

O protesto, organizado pelo sindicato Coordination Rurale, buscou ampliar a pressão sobre o governo francês, acusado de não tomar o partido dos agricultores europeus nas negociações.

Crítica a abate de rebanhos devido a doença

Representantes do sindicato defendem decisões rápidas e eficazes para o que classificam como ameaças crescentes ao setor. Entre os pontos criticados, estão medidas sanitárias internas adotadas contra uma doença bovina altamente contagiosa, incluindo o abate obrigatório de rebanhos, considerado exagerado pelos produtores.

No tumulto, lideranças políticas foram hostilizadas. A presidente da Assembleia Nacional, Yael Braun‑Pivet, foi vaiada e empurrada ao tentar dialogar com manifestantes. A mobilização ganhou força ao longo do dia, com a chegada de outros representantes sindicais.

Arnaud Rousseau, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA), afirmou que o acordo pode abrir as portas para produtos agrícolas que não seguem os padrões europeus, reforçando a necessidade de manter a pressão sobre o governo.

Clima político delicado

Os protestos ocorrem às vésperas da votação do acordo com o Mercosul na União Europeia. O governo francês, que não possui maioria no Parlamento, enfrenta o risco de mais desgaste político caso o episódio evolua. Setores da oposição citam a possibilidade de moverem um voto de desconfiança – por meio do mecanismo parlamentar, a Assembleia Nacional pode, em última instância, derrubar o governo.

A ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, reafirmou posição contrária ao acordo, argumentando que ele representa uma ameaça direta para diversos setores, incluindo carne bovina, frango, açúcar, etanol e mel. O governo francês afirma que, mesmo se o tratado for aprovado pelos demais membros da UE, continuará lutando contra sua implementação no Parlamento Europeu.

Apesar da oposição francesa, Alemanha, Espanha e, mais recentemente, Itália se posicionaram a favor do acordo. Segundo autoridades europeias, a soma desses apoios pode ser suficiente para aprovar o tratado mesmo sem o voto francês.

Grécia endurece bloqueios e alerta para crise no campo

Na Grécia , os protestos assumiram caráter ainda mais intenso. Agricultores iniciaram um bloqueio de 48 horas nas principais rodovias, entroncamentos e pedágios do país. A via que liga Atenas à cidade de Tessalônica foi fechada em vários trechos, permitindo a passagem apenas de veículos de emergência.

A polícia direcionou o tráfego para rotas secundárias e evitou confrontos. Ainda assim, o governo conservador advertiu que bloqueios mais prolongados não serão tolerados. O clima entre os agricultores, porém, é de desespero. Muitos relatam ter chegado ao limite após meses de crise provocados por custos de produção em alta, escândalos que atrasaram subsídios e surtos de varíola ovina e caprina.

Buscando conter a tensão, o governo grego anunciou medidas de emergência, como redução nas tarifas de energia elétrica e reembolsos de imposto sobre combustíveis.

sf/md (AP, Reuters)