Artistas se manifestam contra a agência de imigração do governo Trump na principal premiação da música internacional.Na cerimônia de entrega do Grammy, a maior premiação da música internacional realizada neste domingo (01/02) em Los Angeles, vários artistas manifestaram sua oposição à atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) do presidente dos EUA, Donald Trump.

Muitos usaram broches contra o ICE, enquanto outros se pronunciaram durante seus discursos na cerimônia.

“Antes de agradecer a Deus, vou dizer: fora ICE”, disse Bad Bunny, que se tornou o primeiro artista de língua espanhola a ganhar o prêmio de álbum do ano.

“Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas, somos humanos e somos americanos […] A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor, então, por favor, precisamos ser diferentes. Se lutarmos, temos que lutar com amor. Não os odiamos, amamos nosso povo, amamos nossas famílias e é assim que se faz, amando.”

Bad Bunny, que fez grande parte de seu discurso em espanhol, dedicou o prêmio a “todas as pessoas que tiveram que deixar sua terra natal, seu país, para seguir seus sonhos”. O artista, que se apresentará no Super Bowl no próximo fim de semana, ganhou três prêmios: álbum do ano por Debí Tirar Mas Fotos, melhor álbum de música urbana e performance musical global.

“Ninguém é ilegal em terras roubadas”, disse a cantora Billie Eilish ao receber o prêmio de música do ano por Wildflower. “É muito difícil saber o que dizer ou o que fazer agora […] precisamos continuar lutando, nos manifestando e protestando.”

Olivia Dean, vencedora do prêmio de artista revelação, também falou sobre a questão. “Estou aqui como neta de um imigrante”, afirmou, sob aplausos. “Sou fruto da coragem e acho que essas pessoas merecem ser celebradas.”

Entre a raiva e a consternação

Kendrick Lamar quebrou o recorde de Jay-Z e se tornou o rapper mais premiado da história do Grammy, vencendo cinco prêmios, incluindo gravação do ano por Luther com a cantora SZA, música de rap e álbum de rap. Lamar soma agora 27 Grammys, tendo conquistado cinco no ano passado. “Não sou bom em falar sobre mim, mas expresso isso através da música”, afirmou durante a premiação.

“Por favor, não se desesperem”, disse SZA. “Podemos seguir em frente, precisamos uns dos outros […] não somos governados pelo governo, somos governados por Deus.”

Kehlani, que ganhou dois prêmios de R&B por sua música Folded, afirmou durante entrevista no tapete vermelho: “Eu queria mandar o ICE se foder. Acho que todos nós – somos um grupo poderoso demais para estarmos todos juntos em uma sala ao mesmo tempo e não fazermos algum tipo de declaração em nosso país.”

Após vencer na categoria de melhor álbum tropical latino, a cantora Gloria Estefan também se manifestou. “O que está acontecendo não são criminosos sendo presos. São pessoas que têm famílias que contribuíram para este país por décadas. Crianças pequenas – há centenas de crianças em centros de detenção […] Espero que nosso governo ouça nosso apelo por humanidade, que é o principal que precisamos.”

A cantora Lady Gaga falou sobre o papel das mulheres no meio musical. “Eu só quero dizer para as mulheres na música: eu sei que às vezes, quando você está no estúdio com um monte de homens, pode ser difícil, mas eu peço que vocês sempre ouçam a si mesmas”, afirmou. Ela recebeu os prêmios de melhor álbum vocal pop por Mayhem, melhor gravação dance-pop e melhor gravação remixada por Abracadabra e seu remix de Gesaffelstein.

As cantoras Joni Mitchell e Kehlani, e Justin Vernon, do Bon Iver, também estavam entre os artistas que usaram broches com a frase “Fora ICE” na cerimônia anual.

Agentes do ICE foram enviados para cidades dos EUA como parte da campanha de deportação em massa de Trump. Em Minneapolis, cerca de 2 mil agentes federais foram mobilizados. Os agentes têm sido alvo de fortes críticas por sua abordagem agressiva, que já resultou na morte de duas pessoas nas ruas de Minneapolis: Reneé Good, em 7 de janeiro, e Alex Pretti, em 24 de janeiro.

Trump ameaça processar apresentador

Após parabenizar Billie Eilish por ganhar o Grammy de canção do ano , o apresentador Trevor Noah mencionou Trump e Epstein. “Esse é um Grammy que todo artista quer, quase tanto quanto Trump quer a Groenlândia”, brincou, se referindo às ameaças do presidente de tomar o território da Dinamarca.

“O que faz sentido, porque, já que Epstein se foi, ele precisa de uma nova ilha para passar um tempo com Bill Clinton”, acrescentou.

Noah, que anunciou que este será seu último ano apresentando o Grammy após seis anos seguidos, havia evitado comentários políticos nas edições anteriores.

Seus comentários irritaram o presidente, que usou sua plataforma Truth Social para dizer primeiro que o “Grammy Awards é o pior e praticamente impossível de assistir”, antes de criticar Noah. “Não posso falar por Bill, mas nunca estive na Ilha Epstein, nem perto dela, e, até a declaração falsa e difamatória desta noite, nunca fui acusado de estar lá, nem mesmo pela mídia de notícias falsas”, afirmou.

rc/as (AFP, DPA, ots)