12/02/2026 - 6:59
Seleção de filmes brasileiros no Festival de Berlim mostra potência do cinema brasileiro contemporâneo produzido fora do eixo Rio-São Paulo, impulsionado por políticas de descentralização.No ano em que a “perna cabeluda” vai ao Oscar, borrando a ideia de um cinema “regional” brasileiro, filmes independentes de fora do eixo Rio-São Paulo despontam na programação do 76º Festival de Berlim, a Berlinale, que acontece de 12 a 22 de fevereiro.
Dos dez filmes brasileiros selecionados para esta Berlinale (veja lista completa abaixo), dois são do Ceará – sem falar em Rosebush Pruning, nova produção internacional dirigida pelo cearense radicado em Berlim Karim Aïnouz, competindo na mostra principal. Dois filmes são de Minas Gerais, outro foi filmado no sertão do Piauí.
Além do aspecto territorial, a seleção do festival mostra um recorte muito diverso da produção brasileira. Metade dos filmes são dirigidos por mulheres, mais que a média desta edição (44% de diretoras e co-diretoras). Há muitos talentos negros, LGBTQIA+, muita experimentação nos temas e formatos.
O protagonismo desse tipo de cinema faz parte do DNA da Berlinale. Fundada em 1951, em plena Guerra Fria, como uma “vitrine do mundo livre”, é um dos festivais europeus mais engajados politicamente. A diretora, Tricia Tuttle, foi ao ponto, durante coletiva de imprensa: o forte desta Berlinale é a diversidade. Como exemplo disso, sua escolha para abrir o festival neste ano foi No Good Man, terceiro longa da jovem diretora afegã nascida no Irã Shahrbanoo Sadat.
A relevante presença do Brasil no festival, consagrada com a conquista do Urso de Prata no ano passado por O Último Azul, do pernambucano Daniel Mascaro, reflete não só um perfil de curadoria, mas o resultado de políticas adotadas nos últimos anos que descentralizaram os recursos para a indústria audiovisual, afirmam diretores presentes nesta edição.
Allan Deberton, de Feito Pipa, explica que seu filme, de médio orçamento, levou alguns anos para conseguir todo o financiamento necessário. “Sem os editais regionais e a política de descentralização ou não conseguiríamos tornar o filme viável ou ele seria bastante diferente do que é”, conta o diretor. O longa, gravado em Quixadá, no Ceará, é estrelado por Lázaro Ramos e estreará na mostra Generation, dedicada a temáticas infantojuvenis.
Criação de novos mercados
Há 15 anos, era missão quase impossível acessar financiamento para obras audiovisuais estando fora do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Mesmo com a retomada de investimentos no setor e a criação, em 2006, do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a distribuição de recursos era muito concentrada. Dos 175 projetos que receberam fomento do FSA entre 2008 e 2010, 84% eram de produtoras sediadas nas duas capitais, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
A partir de 2011, o FSA passou a ter mecanismos regionais de distribuição de recursos. Em 2014, esses repasses se tornaram mais contínuos, por meio de uma linha de fomento para filmes de fora dos dois grandes centros financeiros, o que fortaleceu mercados até então marginais e promoveu novos agentes.
Essa trajetória de incentivos teve um corte brusco no governo Jair Bolsonaro, influenciada também pela pandemia de covid-19. Após retomada, atingiu seu maior nível em 2025: R$ 1,41 bilhão em recursos efetivamente desembolsados, valor 29% maior que em 2024, segundo dados da Ancine. O planejamento feito no ano passado prevê R$ 542 milhões apenas para a linha de arranjos regionais, incluindo recursos federais, estaduais e municipais.
Em 2025, foram exibidos 367 filmes brasileiros, para mais de 11 milhões de espectadores, gerando R$ 214,99 milhões em renda, além do valor cultural, aponta a Ancine.
O Agente Secreto, filme brasileiro mais indicado ao Oscar – concorre em quatro categorias, incluindo de melhor ator, com Wagner Ramos – é o exemplo mais vistoso do resultado a longo prazo dessa política. O diretor, o pernambucano Kleber Mendonça Filho, lançou seu primeiro longa, o também premiadíssimo O Som ao Redor, em 2012, justamento após a criação de cotas regionais para produções de baixo orçamento.
É também o caso da Filmes de Plástico, criada em 2009 em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, focada numa produção autoral e periférica que ri na cara do baixo orçamento, como o próprio nome brinca. Hoje ela é uma das principais produtoras de cinema do Brasil, mais um ano presente na programação da Berlinale com o longa Se Eu Fosse Vivo… Vivia, com a participação luxuosa da escritora Conceição Evaristo em seu primeiro trabalho como atriz.
“Tanto a descentralização geográfica quanto a busca por maior diversidade de raça e gênero faz com que os filmes tenham mais diversidade em suas histórias e no jeito de contar. Acho que uma dessas características faz também com que os filmes sejam, por exemplo, narrados na periferia, sendo feitos por pessoas da própria periferia, coisa que não era muito comum décadas atrás no cinema brasileiro”, afirma André Novais, diretor do longa e um dos fundadores da Filmes de Plástico.
Para Novais, no entanto, ainda há muito a ser feito por uma produção de fato representativa. “Os números da diversidade no cinema nacional não são ainda ideais, mas eles têm crescido. Algumas políticas públicas fizeram surgir editais atentos a isso, que ajudam nessa crescente, mas ainda é muito pouco olhando para o cinema nacional de hoje.”
“Um país sem imagem é um país que não existe”
Para a diretora brasiliense criada no Ceará Janaína Marques, esse retrato diverso do cinema brasileiro na Berlinale é resultado direto de políticas públicas que ampliam as chances de pessoas negras, indígenas, mulheres, LGBTQIAPN+ e profissionais do interior do país ocuparem posições de liderança nas equipes de cinema e ganharem visibilidade.
“Isso é muito potente num país do tamanho do Brasil. Pessoas de diferentes regiões, raças, sotaques e experiências passam a ter autoria, passam a ter voz. E isso muda tudo. Novas narrativas aparecem, novas paisagens entram em cena, outros corpos e outros temas ganham protagonismo. E eu penso que esse cinema autoral, diverso, plural e corajoso é justamente o que interessa a muitos festivais, como a Berlinale. Mais do que isso, o Brasil é uma prova que o cinema, além de ser uma potência econômica, altamente rentável, também engrandece sua gente, porque transforma diversidade em potência artística”, afirma a diretora.
O primeiro longa da cineasta, Fiz Um Foguete Imaginando que Você Vinha, foi selecionado para a seção Forum do festival, historicamente associada à liberdade estética e à experimentação formal.
“Tem uma frase do cineasta cubano Santiago Álvarez que eu gosto muito: ‘um país sem imagem é um país que não existe’. É fundamental que um país se veja e se reconheça na tela. E, de certa forma, é isso que a gente está celebrando agora, esse momento em que somos abraçados por essa força mágica que o cinema tem”, celebra.
Para Allan Deberton, é importante que as políticas públicas sejam mantidas e que sirvam para projetos diversos, mais artísticos ou de perfil comercial, de pequenas ou grandes produtoras.
“Acredito que o fomento ao audiovisual brasileiro deve refletir as suas complexidades, desafios, atender a sua pluralidade e que o projeto nacional de cinema só funciona se houver previsibilidade e continuidade. Já demonstramos o quão valioso é o cinema brasileiro, o quanto de emprego e renda gera. É cultura, é identidade, é a nova paixão nacional isso é muito bom!”
“O audiovisual brasileiro vive um momento histórico: o cinema reencontra a sociedade brasileira, que torce, vibra e celebra suas conquistas, ao mesmo tempo em que amplia sua presença no cenário global”, afirma Alex Braga, diretor-presidente da Ancine.
“É uma conquista que fortalece a experiência do público nas salas de cinema, consolida o Brasil como protagonista nos mercados e festivais internacionais e abre oportunidades concretas de expansão comercial e artística.”
Lista de filmes brasileiros na Berlinale 2026:
A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai
Feito Pipa, de Allan Deberton
Floresta do Fim do Mundo, curta de Felipe M. Bragança e Denilson Baniwa
Construí um Foguete Pensando que Você Vinha, de Janaína Marques
Isabel, de Gabe Klinger
Narciso, de Marcelo Martinessi
Nosso Segredo, de Grace Passô
Papaya, animação de Priscila Kellen
Quatro Meninas, de Karen Suzane
Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira
Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz (diretor brasileiro, produção internacional)
Josephine, de Beth de Araújo (diretora sino-americana-brasileira, produção americana)
