30/11/2025 - 17:02
A vida moderna promete liberdade e autonomia. Mas as relações sem compromisso às vezes vêm com um preço, como sugerem estudos sobre disforia pós-coito.Sexo casual, por si só, não necessariamente faz mal, mas quem o faz passando por cima de necessidades pessoais ou limites emocionais pode pagar com a saúde mental.
Apesar da promessa de liberdade e intimidade descomplicada, a paquera sem compromisso nem sempre é sentida como algo empoderador. Para algumas mulheres, ela pode levar a uma sensação inesperada de exaustão.
A DW conversou com diversas mulheres da América do Norte, da Europa e de partes da Ásia sobre relações que, no curto prazo, as fizeram se sentir mais confiantes. Em contrapartida, ficou mais difícil desenvolver conexões íntimas.
Disforia pós-coito
Heather, uma americana de 40 anos, diz que esses encontros a faziam se sentir “vazia, triste e temporariamente empoderada, mas sempre desejando mais”. Ao praticar sexo casual, ela regularmente tentava desligar as emoções, o que a fazia sentir que estava “cortando uma parte” de si mesma.
A descrição do lado negativo da cultura do “ficante” sem compromisso é consistente com uma condição pouco pesquisada, a disforia pós-coito. Neste caso, as pessoas experimentam emoções negativas após a relação sexual, como propensão ao choro, tristeza ou irritabilidade.
Em um estudo de 2020, mulheres relataram esses sintomas após atividade sexual consensual ou masturbação – algumas disseram que os sentimentos surgiam apenas após o orgasmo. Também descreveram sentir-se exaustas ou emocionalmente abaladas nas horas ou dias seguintes.
Homens também relatam disforia pós-coito, mas o estigma histórico em torno da autonomia sexual feminina e expectativas pessoais fizeram com que algumas pesquisas detectassem a condição numa proporção maior de mulheres: até três em cada quatro que têm encontros casuais.
Complexidade do desejo sexual
“Acho que não fui feita para a cultura do encontro casual”, afirma Ishta, uma franco-indiana na casa dos 30 anos. “Desejo conexão mais do que sexo. Muitas vezes esperei que um parceiro (sexual) desenvolvesse sentimentos por mim, ou que nós começássemos a namorar.”
O desejo sexual é um fenômeno complexo. Alguns estudos mostram que o desejo sexual feminino pode ser moldado pela necessidade de proximidade emocional e por sinais relacionais, o que pode tornar difícil o distanciamento durante o sexo.
Professora de comunicação sexual e relacional na Universidade Estadual da Califórnia, nos Estados Unidos, Tara Suwinyattichaiporn argumenta que isso se deve, muitas vezes, à forma como as mulheres são criadas.
“As mulheres foram socializadas desde cedo para serem cuidadoras, calorosas e acolhedoras – qualidades que são o oposto de serem distantes e sem emoção. É significativamente mais difícil para as mulheres agir com distanciamento”, afirma.
Importância da autoestima
Os sintomas da disforia pós-coito podem surgir quando o desejo de proximidade não é recompensado. A baixa autoestima também pode agravá-los. Embora não seja garantido, pessoas com autoestima mais alta que praticam sexo casual geralmente conseguem evitar efeitos emocionais negativos.
“Mas muitas pessoas, homens e mulheres, se envolvem nisso em busca de validação externa”, observa Suwinyattichaiporn.
Isso pode gerar angústia em relação a relacionamentos duradouros, especialmente se um vínculo significativo continuar sendo difícil de alcançar.
“Eu costumava ser extremamente romântica, e agora sinto que interpreto um papel diante dos homens com quem quero ficar”, diz Ishta. “Acho que não confio tanto nas pessoas como antes.”
Heather conta ter sentido uma erosão da sua autoestima e uma atitude negativa em relação a potenciais parceiros sexuais, uma “crença de que os homens eram egomaníacos movidos por sexo e pouco confiáveis”. “Por consequência, às vezes eu me sentia menos valorizada depois, como se tivesse sido usada”, afirma Heather.
Atenção às emoções
Estudos recentes conduzidos majoritariamente com casais americanos constataram que aqueles que estavam mais conscientes – ou seja, que prestavam atenção às sensações e emoções durante o sexo, sem julgá-las – diziam-se mais satisfeitos com a própria vida sexual.
Mas é essa consciência que, segundo Suwinyattichaiporn, falta em muitos encontros casuais. O sexo casual, por definição, muitas vezes ignora a conexão consciente que torna a experiência emocionalmente equilibrada. Em contraste, os “ficantes” podem ser “emocionalmente entorpecedores” tanto para mulheres quanto para homens, diz ela.
Sensação semelhante é relatada por Heather: “Explorei totalmente o poliamor e me levei ao limite, apenas para me sentir esgotada e desestabilizada. Meu sistema nervoso não conseguiu sustentar isso.”
Agora, a americana diz buscar no sexo intimidade consistente, e não satisfação passageira. Mas essa clareza só veio após uma reflexão honesta – um processo que pode ajudar mulheres a compreender experiências de sexo casual que, às vezes, contribuem para exaustão emocional ou queda na autoestima.
Práticas contra o esgotamento
Para quem anda se sentindo esgotado emocionalmente, Suwinyattichaiporn sugere uma série de práticas para restaurar a confiança, evitar desgaste e fazer escolhas mais claras no que diz respeito às próprias experiências sexuais.
A primeira é tirar um tempo longe do sexo casual, criando espaço para desacelerar e refletir sobre as próprias necessidades e sentimentos, sem pressão externa. “Ficar um pouco sozinha enquanto trabalha em si mesma”, resume ela.
Terapia ou coaching podem ajudar a entender padrões de apego – as formas como as pessoas se relacionam consigo mesmas e com os outros, moldadas por experiências iniciais, familiares e pelo senso de segurança ou insegurança desenvolvido na infância. Intervenções do tipo também podem ajudar a reconstruir um senso de autoestima afetado por experiências sexuais emocionalmente desgastantes.
A meditação também pode elevar a autoestima e a resiliência emocional. Suwinyattichaiporn explica que ela pode ajudar a reconstruir a confiança, e que práticas de atenção plena oferecem benefícios semelhantes, algo comprovado em estudos.
Manter um diário e um diálogo positivo consigo mesmo também ajudam. “O diálogo interno positivo é extremamente poderoso e pode mudar a maneira como você se vê e vê o mundo ao seu redor”, afirma Suwinyattichaiporn.