04/08/2026 - 10:42
O calor extremo, a seca prolongada e os incêndios florestais causam graves danos às lavouras de oliveiras em países do sul da Europa, como Espanha, Grécia, Itália e Portugal, neste verão. Produtores alertam para a redução da produtividade, o comprometimento da qualidade dos frutos e a elevação dos custos de produção, impactando os preços de alimentos como o azeite de oliva e ameaçando o mercado global.
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O que aconteceu
- A produção de azeite na Europa é severamente afetada por calor extremo, seca e incêndios, especialmente na Espanha e Grécia, com risco de aumentos de preço.
- Os fenômenos climáticos impactam diretamente a produtividade, a qualidade dos frutos e elevam os custos de produção para os agricultores.
- Cientistas afirmam que o aquecimento global torna eventos como a onda de calor de 2026 “praticamente impossíveis” sem a crise climática.
A pressão sobre a agricultura europeia tem aumentado significativamente devido às condições climáticas adversas, com os olivais do sul do continente sendo os mais atingidos. A combinação desses fatores reduz a produtividade das lavouras, compromete a qualidade dos frutos e eleva os custos de produção, o que pode resultar em novos aumentos nos preços de alimentos essenciais, como o azeite de oliva.
Estudos climáticos indicam que o número de dias de verão com condições extremas, favoráveis à propagação de incêndios, dobrou desde 1981. Essa combinação de calor, seca e vento reforça a vulnerabilidade estrutural dos olivais e de outras culturas mediterrâneas, exigindo atenção urgente das autoridades.
A preocupação com os impactos climáticos é compartilhada por diversas instituições e entidades do setor agrícola. No início de julho, a Comissão Europeia havia apontado uma redução dos preços do azeite de oliva desde abril, motivada por um excesso na produção italiana.
Contudo, a previsão para a produção de azeite do bloco foi revisada, e agora se espera um recuo de 5% no ciclo 2025/26. Essa queda é puxada principalmente pela Grécia, onde a produção deve encolher 18%. O relatório alertava que as perspectivas para a próxima safra dependiam crucialmente da ausência de novos eventos climáticos extremos, dada a fragilidade atual dos olivais.
Poucas semanas após o alerta, o cenário de risco começou a se materializar. Conforme o jornal britânico The Guardian, a associação agrícola espanhola ASAJA relata que incêndios florestais se intensificaram no país a partir de meados de julho. Esses focos atingiram pomares, vinhedos, áreas agrícolas, estufas e olivais, afetando produtos como frutas cítricas, abacates, amêndoas, hortaliças e, claro, azeitonas. Milhares de hectares foram devastados pelo fogo.
Espanha e Grécia são as mais afetadas
Para a ASAJA, a principal preocupação não é apenas a redução das exportações, mas o aumento acentuado dos custos de produção. Esse custo tende a ser repassado diretamente aos consumidores. A Espanha, além dos incêndios, continua a enfrentar severas restrições hídricas, que diminuem a umidade do solo e elevam o risco de queda prematura das azeitonas.
Antes mesmo dos incêndios de julho, a colheita de cereais no país já havia sido drasticamente revista para baixo, passando de 24 milhões para cerca de 18,5 milhões de toneladas. Este cenário agrava a pressão sobre os preços agrícolas em um país que é o maior produtor mundial de azeite, possuindo um papel central na formação dos preços globais.
O portal Data España sublinha que a estabilidade do mercado permanece frágil após a recente queda dos custos do azeite, que sucedeu um período de valores recordes. No início do ano, chuvas intensas provocaram alagamentos em áreas produtoras e reduziram as previsões de colheita. Agora, a seca extrema e os incêndios voltam a ameaçar seriamente a produção.
O impacto sobre o azeite é particularmente relevante na Grécia, outro grande produtor. A produtora Anastasia Hatzoglou expressou à Reuters a sensação de impotência: “É uma sensação terrível quando você constrói algo com tanto esforço, e quando dinheiro não é fácil de conseguir”. As chamas, que se espalharam rapidamente, destruíram florestas exuberantes e causaram grandes danos a oliveiras, poucos meses antes da colheita, um ritual anual muito aguardado em muitos lares gregos.
Hatzoglou relatou que sua casa sofreu danos extensos e que suas oliveiras foram queimadas. “Foi tanto esforço, e quando você dedica cuidado à sua propriedade, à sua terra, ao azeite que produz todos os anos, não é nada bom”, desabafou. Segundo o portal grego Neakriti, o déficit hídrico, agravado pelas ondas de calor e pelos incêndios, tem reduzido a produtividade dos olivais no país.
Além dos danos diretos causados pelo fogo, produtores gregos relatam prejuízos pela fumaça, pela piora da qualidade do ar e pela maior incidência de pragas e doenças, favorecidas pelas temperaturas elevadas. O resultado esperado é a redução do tamanho dos frutos e da qualidade do azeite produzido. O portal italiano Dissapore descreve um cenário semelhante em outros países mediterrâneos, onde o calor prolongado facilita também o avanço de pragas.
Os impactos climáticos não se limitam às oliveiras. Conforme o jornal The Guardian, a associação francesa Légumes de France estima perdas de milhares de toneladas de hortaliças, incluindo alface, cenoura, alho, cebola e alho-poró. Em algumas regiões, a produção pode cair até 50% devido à falta de chuva e à escassez de água disponível.
O clima extremo ainda afeta vinhedos de regiões tradicionais como Champagne, Bordeaux e Borgonha, onde o amadurecimento acelerado das uvas ameaça reduzir os rendimentos da safra e, consequentemente, a produção de vinhos de alta qualidade. A Europa enfrentou em junho e julho de 2026 uma das ondas de calor mais severas já registradas, com temperaturas acima de 40 °C em países como Alemanha, França, Dinamarca e República Tcheca.
O calor extremo provocou mais de 1.300 mortes apenas na última semana de junho de 2026, além de interrupções em serviços públicos, derretimento de asfalto e cancelamento de eventos em várias cidades europeias. Cientistas afirmam que esse tipo de evento teria sido “praticamente impossível” sem o aquecimento global, e que a Europa já aquece duas vezes mais rápido que a média mundial, com temperaturas médias 2,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Esse conjunto de fatores consolidou 2026 como um dos verões mais extremos do continente, agravando a pressão sobre sistemas agrícolas vulneráveis.
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