Artigo vendido no site do Comitê Olímpico Internacional homenageia evento usado como propaganda pelo regime de Adolf Hitler.Uma camisa oficial comemorativa das Olimpíadas de 1936, realizadas em Berlim sob o regime nazista de Adolf Hitler, causou controvérsia na imprensa alemã nesta quarta-feira (11/02).

O artigo está esgotado, mas era vendido por 39 euros no site oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI). A camisa mescla, na estampa frontal, um homem com uma coroa de louros e uma carruagem puxada por quatro cavalos no topo do Portão de Brandemburgo, em Berlim. Sobre a imagem há um texto indicando data e o local do evento.

Mesmo sendo parte de uma coleção de camisas que homenageiam as Olimpíadas da era moderna, o item faz referência à edição que se tornou muito provavelmente a mais cheia de polêmica políticas. No entanto, não há referências ao governo de Hitler, seus símbolos ou iconografias.

Primeiro revezamento da tocha

Berlim já havia sido escolhida como sede dos Jogos Olímpicos de 1936 antes de os nazistas chegarem ao poder. Porém, o evento proporcionou um palco para o regime de Adolf Hitler se exibir internacionalmente.

Avanços tecnológicos como a televisão e o rádio permitiram que o regime, que tinha a propaganda política como grande arma, redobrasse os esforços, com Joseph Goebbels prestando atenção especial ao evento.

As Olimpíadas de 1936 tiveram o primeiro revezamento da tocha olímpica da era moderna – fato que, inclusive, foi comemorado online pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2020, o que causou reações negativas pela utilização de imagens de propaganda nazista na homenagem.

Repressão se intensificava

Os nazistas tentaram dar uma imagem respeitável para o evento, removendo slogans e pichações antissemitas das ruas e vitrines de Berlim, retirando pessoas consideradas “indesejáveis” da capital e suavizando a retórica no seu jornal racista Der Stürmer.

No entanto, os primeiros sinais do Holocausto que se aproximava e das ambições de Hitler em travar guerras para conquistar os países vizinhos começavam a ficar claras aos olhos daqueles que acompanhavam a Alemanha de perto.

Na preparação para as Olimpíadas de Berlim em 1936, a Alemanha nazista remilitarizou a região da Renânia, na fronteira ocidental, que suas forças haviam sido obrigadas a abandonar após a derrota na Primeira Guerra Mundial. O país também implementou o “plano quadrienal”, destinado a preparar a economia e as forças armadas para a guerra.

Em março, um mês após as Olimpíadas de Inverno em Garmisch-Partenkirchen, também realizadas na Alemanha, o governo nazista retirou os direitos eleitorais de ciganos e judeus. Semanas antes dos Jogos Olímpicos de Verão, estes em Berlim, o líder da SS, Heinrich Himmler, foi nomeado chefe da polícia alemã.

Internacionalmente, o governo de Hitler assinou seus primeiros tratados com os futuros aliados do Eixo, Japão e Itália, em 1936, e prestou apoio aos nacionalistas liderados pelo general Franco na Guerra Civil Espanhola.

Sucesso parcial para Hitler

O evento não foi totalmente satisfatório para Hitler. Embora a Alemanha tenha liderado o quadro geral de medalhas, os Estados Unidos dominaram algumas das provas de atletismo de maior destaque no Estádio Olímpico de Berlim.

Hitler queria estar presente e entregar as medalhas de ouro a todos os vencedores alemães, mas apenas aos compatriotas. O ditador nazista foi repreendido pelo COI quando saiu do estádio para evitar apertar a mão o atleta Cornelius Johnson, que conquistou a primeira medalha de ouro dos Estados Unidos no salto em altura.

O presidente do COI à época disse a Hitler que ele poderia parabenizar todos os medalhistas de ouro ou nenhum, então o ditador optou por não homenagear nenhum durante o restante dos Jogos.

Com isso, Hitler nunca apertou a mão do atleta mais bem-sucedido daquelas olimpíadas: o atleta negro americano Jesse Owens, de 22 anos, que conquistou o ouro nos 100 metros, 200 metros, no revezamento 4×100 e no salto em distância.