Mais de 23 mil crianças teriam sido irregularmente entregues a famílias estrangeiras, sobretudo na ditadura de Pinochet. Organização roda a Europa para promover reencontros.Héctor nasceu em 1973 em Temuco, no sul do Chile, e não conheceu a mãe biológica até alguns meses atrás. Ele viveu os primeiros dois anos de vida em um abrigo de menores, aonde foi levado sem o consentimento dela, que era muito jovem e tinha poucos recursos.

Foi adotado por um casal alemão que vivia no Chile, então sob a ditadura do general Augusto Pinochet(1973–1990). O pai adotivo trabalhava em um dos consulados alemães e, em 1979, recebeu uma nova designação. A família passou pela Arábia Saudita e, mais tarde, pelo México. Héctor chegou à Alemanha quando tinha 12 anos.

Cresceu como alemão, consciente da origem chilena. “Desde o início eu sabia que era adotado e que minha mãe era muito jovem quando me teve, entre 14 e 16 anos”, relatou Héctor em entrevista à DW.

Embora o tema sempre estivesse presente, por muito tempo ele não se dedicou a uma busca intensiva pelas origens. Mas, em 2025, ele acabou motivado a finalmente embarcar na empreitada, motivado pelas perguntas próprias e de outras pessoas sobre a sua história.

“Pensei na idade que minha mãe teria agora e que precisava fazer algo. A janela de tempo estava ficando cada vez menor.”

Ele então descobriu a organização chilena Filhos e Mães do Silêncio (HMS, na sigla em espanhol). Escreveu para a entidade e, depois de alguns meses, recebeu uma resposta. A busca pela sua mãe havia sido iniciada e, para sua surpresa, durou apenas quatro dias.

“Nunca pensei que seria tão rápido. Duas semanas depois, viajei ao Chile para me encontrar com minha mãe. Agora tenho também quatro irmãs e mais um irmão, além de muitos primos e primas. É uma felicidade imensa e um feito incrível.”

A mãe carregava o sofrimento de ter perdido o filho. Incentivada pela família, havia apresentado uma queixa por meio de uma organização de direitos humanos, o que permitiu à HMS reunir a família. Este foi um dentre 400 reencontros promovidos ao longo de 12 anos pela organização, que apoia as vítimas de adoções forçadas e subtração de menores no Chile.

Rede de captação de menores

Como Héctor, mais de 23 mil meninas e meninos chilenos teriam sido entregues a cerca de vinte países desde 1950, segundo dados judiciais. A maioria teria chegado à Europa e aos Estados Unidos, especialmente durante o regime militar chileno.

Os casos mostram padrões e estratégias semelhantes. Sob pressão, mulheres muito jovens, vulneráveis, pobres ou analfabetas eram frequentemente convencidas a entregar seus filhos, sob o argumento de que elas não tinham condições de cuidar deles.

Em outros casos, elas eram levadas a falsamente acreditar que as crianças haviam morrido. Ou, então, viam seus bebês simplesmente serem tirados dos seus braços. Enfrentando uma rede poderosa, elas se viam sem meios para recorrer à Justiça.

Os mecanismos de captação e entrega de menores envolviam funcionários de hospitais públicos, médicos, enfermeiras, assistentes sociais, padres e freiras, bem como funcionários dos consulados de ambos os países e juízes que assinavam adoções expressas. Saindo do país com uma medida provisória, as crianças continuavam sendo formalmente chilenas.

Viagem à Alemanha

Representantes da HMS estiveram em fevereiro pela primeira vez na Alemanha. A viagem incluiu ainda Países Baixos, Bélgica e França, onde se reuniram com chilenos adotados e estabeleceram redes de cooperação com entidades locais. Em anos anteriores, a organização já estivera em Suécia, Suíça, Itália e França.

Um encontro em Berlim reuniu famílias afetadas, incluindo pais adotivos. “Não viemos julgar os pais adotivos, que também foram enganados, mas apresentar os antecedentes para que possam verificar se sua adoção foi ou não legal”, explica Sol Rodríguez, porta-voz e fundadora da HMS.

Para ela, essas reuniões com os chilenos adotados são muito significativas: “Eles são chilenos, mas em poucos dias ou meses se tornaram alemães. Têm a cultura, a criação, mas muitas vezes sentem que não pertencem totalmente. Esse encontro é para lhes devolver essa sensação de pertencimento, reconhecer-se como chilenos talvez em gestos, no tom da pele, e poder compartilhar e levar um pouquinho do Chile”.

Novas pistas para as buscas

As representantes da HMS revisam a documentação dos adotados para ajudá-los na busca por suas origens. Os encontros geram pistas importantes.

“Esses dados nos ajudam a entender qual foi o vínculo com a Alemanha, como se deu a adoção e oferecer apoio. Independentemente de ter sido legal ou ilegal, eles querem conhecer suas origens”, diz Rodríguez.

A nova linha de trabalho se soma a casos já conhecidos, relacionados a uma comunidade de freiras alemãs no sul do Chile que captava menores. Também haveria casos ligados à Colonia Dignidad, colônia que abrigou uma seita alemã no país sul-americano a partir de 1961.

A Itália é um dos países para onde mais crianças foram levadas, segundo Rodríguez. “Só para a ilha da Sardenha foram 500. Há muitos mais, hoje adultos, espalhados por toda a Itália, mas não temos um número exato.” Na Alemanha, não há dados oficiais.

“Sabemos que na Suécia há mais de 2,2 mil, pelas estatísticas de um centro de adoção. Pelo governo francês sabemos que, de 1983 em diante, entraram 1.716 crianças dessa forma, mas desconhecemos quantas foram antes. Na Dinamarca, o governo indica que são 200. Na Suíça, cerca de 500”, ela prossegue.

Em fevereiro, a Mesa Interinstitucional de Adoções Forçadas ou Irregulares, formada por vários ministérios e órgãos do Estado chileno, apresentou seu relatório, que confirma o diagnóstico. Entre outras medidas, o texto recomenda criar uma unidade de busca de origens e avançar na implementação do banco de impressões genéticas.