Os últimos pandas estão deixando o Japão. A China usa o animal símbolo da amizade como meio de enfraquecer o apoio à premiê Takaichi na campanha para as próximas eleições. Ela, porém, continua popular.No domingo (25/01), milhares de fãs se despediram de Xiao Xiao e Lei Lei no Zoológico de Ueno, em Tóquio. Os dois últimos pandas chineses estão deixando o Japão esta semana. Devido à alta demanda, o zoológico teve que sortear os 4,8 mil ingressos diários para os dois recintos dos pandas-gigantes de quatro anos de idade durante seus últimos onze dias de funcionamento.

Cada visitante teve um minuto para um último olhar nostálgico para os adoráveis animais pretos e brancos enquanto eles mastigavam galhos de bambu, cochilavam e passeavam. “Um buraco em forma de panda agora se abre no coração da nação”, lamentou o jornal Toyo Keizai.

Símbolos da amizade sino-japonesa

Após sua partida nesta terça-feira, pela primeira vez em 54 anos não haverá mais pandas-gigantes no Japão. Quando os antigos adversários da guerra normalizaram as relações diplomáticas, em 1972, Pequim enviou o casal de pandas Kang Kang e Lan Lan como símbolo da nova amizade. Isso ocorreu após uma confirmação por escrito do primeiro-ministro japonês Kakuei Tanaka de que o Japão compreendia e respeitava “plenamente” a reivindicação da China sobre Taiwan como uma “parte inalienável” de seu território.

Agora, a China acusa o Japão de abandonar a aceitação à sua política de “uma só China” depois que a primeira-ministra populista de direita Sanae Takaichi declarou no Parlamento, em novembro, que um bloqueio chinês a Taiwan seria uma “ameaça existencial” ao Japão. Sua declaração implica que as forças japonesas poderiam defender Taiwan ao lado dos Estados Unidos contra a China.

Desde então, a China exigiu que Takaichi se retratasse e impôs diversas sanções, mas a premiê se recusou a acatar as exigências. Ela se limitou a prometer se abster de “fazer comentários específicos sobre cenários particulares” no futuro e, por fim, recorreu à banalidade ao afirmar que, em caso de uma crise em Taiwan, o governo japonês “tomará uma decisão após ponderar todas as informações disponíveis”.

Boicote aos pandas como meio de pressão

Os métodos chineses para pressionar o Japão também incluem um boicote aos pandas. Nas últimas cinco décadas, as autoridades de Pequim emprestaram mais de 30 pandas a zoológicos japoneses. Os japoneses os acolheram, e muitos desses animais se tornaram celebridades nacionais. A maioria dos pandas retornou à China ainda jovem, sempre sendo substituídos por outros.

A partida dos gêmeos Xiao Xiao e Lei Lei já estava planejada há muito tempo. Mas, ao contrário da prática habitual, desta vez a China sinalizou que não emprestaria mais pandas ao Japão – claramente para pressionar Takaichi.

“O possível primeiro período ‘sem pandas’ no Japão em 50 anos pode estar relacionado a palavras e ações equivocadas por parte dos japoneses”, escreveu o jornal Global Times, de Pequim.

O Ministério do Exterior da China confirmou isso indiretamente. “Sei que os pandas gigantes são amados no Japão, e receberemos de braços abertos os amigos japoneses para visitá-los na China”, respondeu evasivamente o porta-voz da pasta Guo Jiakun quando questionado se a China enviaria novos pandas ao Japão.

Apoio japonês a Takaichi

O cálculo da China de que a tristeza dos fãs japoneses dos pandas se transformaria em raiva contra Takaichi se mostrou equivocado. Uma pesquisa da agência de notícias Kyodo News em novembro revelou que 49% dos entrevistados concordavam com a declaração de Takaichi de que o Japão deveria fornecer apoio militar a Taiwan, enquanto 44% discordavam. Apesar disso, os índices de aprovação da premiê ainda eram de 63%, segundo a pesquisa mais recente da agência.

Sua recusa em ceder à China não serviu de munição contra ela. Sua alta popularidade a levou a dissolver o Parlamento em 23 de janeiro e convocar novas eleições para 8 de fevereiro, que se tornaram, essencialmente, um referendo sobre sua própria liderança.

Ela pretende fortalecer sua legenda, o Partido Liberal Democrático (PLD), assolado por escândalos, e, juntamente com seu parceiro, o Partido da Renovação do Japão, formar um governo mais estável.

Ineficácia dos boicotes chineses

As sanções econômicas da China também não conseguiram intimidar Takaichi. Os boicotes de Pequim causaram poucos danos. A China suspendeu as importações de frutos do mar japoneses, mas essa proibição já estava em vigor desde agosto de 2023 devido ao despejo de águas residuais da usina nuclear de Fukushima, destruída pelo tsunami de 2011, e só havia sido suspensa recentemente.

A China também reduziu o turismo no Japão em 40%. Mesmo assim, o total de turistas estrangeiros que visitaram o Japão cresceu quase 4% em dezembro. O boicote impactou negativamente lojas de departamento, hotéis e operadoras de turismo japonesas especializadas em turistas chineses. No entanto, muitos japoneses, que reclamam do excesso de turismo, provavelmente ficaram satisfeitos com a queda.

A China restringiu as exportações para o Japão de 800 produtos de uso militar e civil. Há relatos de que Pequim também suspendeu as exportações de certos elementos de terras raras . Contudo, o impacto econômico permaneceu limitado.

Analistas, portanto, não esperam que os boicotes afetem negativamente os resultados das eleições. Caso Takaichi vença de forma decisiva, a China provavelmente terá que reconsiderar sua política de intimidação. Só então os pandas chineses poderiam retornar ao Japão e simbolizar, novamente, melhores relações entre os dois países.