As mentes responsáveis pelo maior destruidor de átomos do mundo revelaram nesta segunda-feira, 31, o projeto para um equipamento sucessor muito maior que poderia melhorar a pesquisa sobre os enigmas da física restantes. Os planos do FCC (Futuro Colisor Circular), um circuito de 91 quilômetros localizado ao longo da fronteira entre a França e a Suíça, estão sendo elaborados há uma década e foram divulgados pela Cern (Organização Europeia para Investigação Nucelar — em tradução).

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A expectativa dos cientistas é de que o FCC realizaria experimentos de alta precisão na década de 2040 para estudar detalhadamente a “física conhecida”. Posteriormente, 30 anos depois, o equipamento conduziria colisões de alta energia de prótons e íons pesados, algo que “abriria a porta para o desconhecido”, segundo Giorgio Chiarelli, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Física Nuclear da Itália.

Ao longo de quase uma década, os principais pesquisadores da Cern elaboraram planos para um sucessor do LHC (Grande Colisor de Hádrons), uma rede de ímãs que acelera partículas através de um túnel subterrâneo de 27 quilômetros e as colide em velocidades próximas à da luz.

O novo projeto divulgado pela Cern inclui o caminho que o FCC irá traçar, o impacto ambiental, as ambições científicas e o custo do projeto. Especialistas independentes darão uma olhada no plano antes que os países membros da organização decidam se seguirão com a proposta em 2028, começando na década de 2040 a um custo estimado em 16 bilhões de dólares.

Cientistas, engenheiros e parceiros da Cern por trás dos planos consideraram pelo menos 100 cenários para o novo colisor antes de chegarem ao circuito proposto de 91 quilômetros a uma profundidade média de 200 metros. O túnel do equipamento teria cerca de cinco metros de diâmetro.

“A história da física conta que, quando há mais dados, a engenhosidade humana é capaz de extrair mais informações do que o esperado originalmente”, disse Chiarelli, que não estava envolvido nos planos, em um e-mail.

Os cientistas da Cern prometem que as descobertas do equipamento poderiam inovar áreas que beneficiariam a humanidade, como a criogenia, ímãs supercondutores e tecnologias de vácuo. Enquanto isso, especialistas externos apontam que o FCC contribuiria com os conhecimentos sobre o bóson de Higgs, que ajudou a explicar como a matéria se formou após o Big Bang.

A existência do bóson de Higgs foi comprovada justamente com o uso do LHC, em 2013, estabelecendo explicações para algumas das forças fundamentais do universo.

Para Fabiola Gianotti, diretora-geral da Cern, o FCC “poderá se tornar o instrumento mais extraordinário já construído pela humanidade”. A pesquisadora contempla que o equipamento melhoraria o estudo do bóson de Higgs e abriria caminho para “explorar a fronteira energética”, além de buscar novos conceitos que expliquem a estrutura e a evolução do universo.

Apesar do projeto já estar elaborado, paira a dúvida se o governo de Donald Trump, que está cortando ajuda externa e gastos acadêmicos, continuará apoiando a Cern. A gestão de Joe Biden prometeu no ano passado que o FCC receberia auxílio dos EUA na construção e colaboração, caso fosse aprovado.

Dois mil usuários da Cern estão abrigados nos EUA, torando o país detentor do maior contingente nacional de pessoas que trabalham na organização, pontuou Fabiola. Embora seja um estado observador e não um membro, os EUA não pagam para o orçamento regular da entidade, mas contribuíram com projetos específicos.

Conforme Costas Fountas, presidente do Conselho da Cern, profissionais do Departamento de Energia e da Fundação Nacional de Ciências dos EUA relataram estar “no radar” dos cortes de gastos de Trump.