28/01/2026 - 10:56
Sete anos após a tragédia, não há punição efetiva, enquanto o Congresso desmonta o licenciamento ambiental.Há poucos dias, apareceram no meu feed de notícias sugestões de investimento. Ações brasileiras eram promovidas como boas apostas – especialmente os papéis da gigante da mineração Vale , apresentados como promessa de alta rentabilidade. É uma ironia histórica que essa recomendação tenha surgido justamente nesta semana. Mais uma vez, ficou evidente a irrelevância da responsabilidade social e da proteção ambiental na precificação bursátil das grandes corporações.
Na manhã de 25 de janeiro de 2019, há exatamente sete anos, 270 pessoas saíram de casa para trabalhar na mina Córrego do Feijão, da Vale, próxima ao município de Brumadinho , em Minas Gerais. À tarde, estavam soterradas e mutiladas por uma avalanche de rejeitos. Naquele dia, por volta da hora do almoço, a barragem do reservatório B1, que continha rejeitos líquidos de mineração, se rompeu. A lama desceu a encosta, atravessou um vale, arrastou pessoas, árvores, casas e uma ponte ferroviária, até atingir o rio Paraopeba. Ficou claro depois que a Vale não havia assegurado a estabilidade da barragem, apesar de alertas prévios.
Já naquela época, a Vale rejeitou qualquer responsabilidade. A empresa afirmou que o rompimento ocorreu sem sinais de alerta. Relatórios internos da própria mineradora contradiziam essa versão, ao mencionar o risco de colapso da barragem em Brumadinho. Haviam sido identificados processos de erosão no interior do reservatório. Mas a diretoria ignorou os alertas. O volume de rejeitos não foi reduzido e nem os trabalhadores foram informados.
Muitos estavam no refeitório da empresa quando a barragem se rompeu – entre eles, duas mulheres grávidas. Não tiveram chance de escapar. As sirenes de emergência permaneceram inoperantes, porque não haviam recebido manutenção. Imagens de câmeras de segurança mostram veículos e pessoas sendo engolidos pela lama. Os corpos foram despedaçados; de muitas vítimas, encontraram-se apenas membros isolados.
Após o desastre, helicópteros sobrevoaram Brumadinho durante semanas, com sacos mortuários pendurados. Crianças da cidade passaram a desenhar essas cenas. Foi uma das maiores catástrofes da história do Brasil – para os familiares, trata-se de um crime.
Durante sete anos, bombeiros, com cães farejadores, vasculharam os rejeitos em busca dos restos mortais das vítimas. Justamente nesta semana, as buscas foram encerradas. Partes dos corpos de duas vítimas nunca foram localizadas. Para seus familiares, não haverá encerramento possível. Quando estive em Brumadinho, alguns anos atrás, ouvi repetidamente o quanto era importante poder sepultar os corpos, como condição mínima para encontrar paz.
Sarcasmo histórico
Há também uma ironia – ou melhor, um sarcasmo histórico – no fato de que, nesta mesma semana, a Vale tenha suspendido atividades em duas minas em Minas Gerais, após novos rompimentos de barragens, com rejeitos voltando a contaminar cursos d’água.
Até hoje, nenhum responsável foi condenado pelo crime de Brumadinho. Há, no entanto, dois processos em andamento. Um deles tramita em Munique , contra a TÜV Süd, empresa alemã de certificação técnica. Cerca de 1,2 mil vítimas, incluindo familiares dos mortos na tragédia, processam a companhia e depositam na Justiça alemã a expectativa de um julgamento mais justo do que no Brasil.
Em setembro de 2018, peritos da TÜV Süd atestaram a estabilidade da barragem em Brumadinho. Posteriormente, dois funcionários da empresa declararam que a Vale exercera pressão para obter um parecer positivo. Eles cederam à exigência criminosa da mineradora.
Ainda assim, a Vale insiste em classificar o rompimento como um acidente trágico, buscando evitar consequências penais. Mas indenizações elevadas ou multas não comprometeriam a empresa. A Vale é uma das cinco maiores mineradoras do mundo e teve um lucro líquido de 6,1 bilhões de dólares em 2024.
Um dos promotores que investigaram o caso comparou a Vale a uma organização mafiosa. Informações sensíveis, segundo ele, deixariam de ser registradas a partir de determinado nível hierárquico. Como numa máfia, torna-se impossível provar que os executivos tinham conhecimento direto das práticas adotadas em Brumadinho.
O presidente da Vale à época da catástrofe era Fabio Schvartsman. Pouco dias após o desastre, ele propôs um acordo extrajudicial à procuradora-geral da República. A Vale seria “uma joia brasileira”, afirmou, e não deveria ser condenada por um “acidente”, por maior que fosse.
A política brasileira, da esquerda à direita, mantém até hoje uma postura complacente em relação à empresa. A Vale é a maior produtora mundial de minério de ferro, fornecendo, entre outros, à China, insumo essencial para a produção de aço. Em Minas Gerais, é uma empregadora central.
Poucos políticos ousam exigir responsabilização efetiva. E em vez de aprendizado, repete-se o padrão brasileiro da negligência. O Congresso aprovou recentemente o projeto de lei que ficou conhecido como PL da Devastação , que praticamente elimina a fiscalização estatal e o licenciamento de projetos de mineração.
Um dos parlamentares que se opôs frontalmente à lei é Pedro Aihara. À época, ele atuava como bombeiro em Brumadinho. Na plataforma X, escreveu: “O desastre/crime de Brumadinho não começou no rompimento da barragem. Ele é o resultado de um sistema que falha em fiscalizar e que precifica a vida humana abaixo do lucro. (…) Brumadinho exige memória, responsabilidade e ação permanente.”
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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha, Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
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