07/01/2026 - 12:04
Pressão de Washington na América Latina deveria acelerar a reorientação brasileira rumo à China, aos Brics e a novas parcerias.As reações do governo brasileiro à captura do mandatário venezuelano Nicolás Maduro por militares dos Estados Unidos foram previsíveis – e, em certo sentido, anacrônicas. O apelo ao direito internacional e à preservação da paz na América Latina soou como um eco de uma era pré-Trump, quando ainda se fingia que essas categorias tinham certo peso na política externa de Washington.
Ainda assim, o governo Lula acertou ao afirmar que uma “linha inaceitável” havia sido cruzada e que o mundo deu mais um passo rumo à violência, ao caos e à instabilidade. Também foi correto lembrar os períodos mais sombrios da ingerência dos EUA no continente.
Isso não foi – como a direita apressadamente alegou – uma defesa de Maduro. É possível, e necessário, sustentar duas ideias ao mesmo tempo: Maduro é um ditador corrupto e violador de direitos humanos; e uma intervenção militar dos EUA é inaceitável. Essa ambivalência não é fraqueza moral, é lucidez política.
Mais uma vez, Washington decidiu sobre a América Latina sem consultar os latino-americanos. Democracia, direitos humanos ou autodeterminação nunca estiveram em jogo. O objetivo foi outro: garantir acesso ao petróleo venezuelano. Os motores da ação foram, como quase sempre, dinheiro, poder e influência.
O Brasil ocupa uma posição singular na região: pela força econômica, pela abundância de recursos agrícolas e minerais, pelo tamanho territorial e populacional. Isso lhe oferece uma proteção relativa contra o novo imperialismo americano.
Porque não há dúvida: a Doutrina Monroe de 1823 está sendo reeditada por Donald Trump. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos deixa isso explícito. O documento proclama abertamente o direito de Washington de intervir na América Latina – sua “zona natural de influência” – e de expulsar atores externos como China, Rússia ou Irã. Quem não se submeter deve esperar sanções, tarifas punitivas, intervenções diretas ou indiretas e ingerência nos assuntos internos, inclusive por meio do apoio a candidatos alinhados ao trumpismo.
Pequim joga outro jogo
Os Estados Unidos já tentaram esse roteiro no Brasil – e tiveram de recuar. Não por respeito, mas porque o país tem poder de barganha. O Brasil não é uma potência militar, mas controla recursos estratégicos de que o mundo depende. E, sobretudo, tem alternativas. A principal delas é a China, com quem aprofunda relações de forma constante.
Pequim joga outro jogo. Menos estridente, mais paciente. Há poucas semanas, a China publicou seu Livro Branco sobre a América Latina. Nele deixa claro que já não se vê apenas como parceira econômica, mas como ator geoestratégico. Pequim quer liderar o Sul Global. Planeja a longo prazo, atua de forma cooperativa e integra economia, tecnologia, segurança, diplomacia e soft power em uma estratégia coerente – exatamente o oposto do improviso unilateral de Trump e seu entorno.
Nesse desenho, a América Latina ocupa um papel-chave em novas coalizões fora das instituições dominadas pelo Ocidente. Brics e G20 ganham centralidade em detrimento do G7. A Celac surge como alternativa à OEA, amplamente controlada pelos Estados Unidos e que mantém Cuba excluída.
A pressão agressiva de Washington empurra países como o Brasil quase automaticamente para os braços da China. A oferta chinesa é mais atraente. Enquanto os EUA ameaçam, Pequim investe. Financia infraestrutura, constrói portos, estradas e ferrovias, concede créditos de longo prazo que criam dependências duradouras. E o faz sem impor condições políticas – com uma única exigência: o reconhecimento do princípio de Uma Só China.
Ao mesmo tempo, o Brasil deveria elevar a pressão sobre a União Europeia para finalmente concluir o acordo UE–Mercosul. Um acordo desse tipo seria mais do que econômico: seria um sinal político de autonomia e o embrião de uma aliança fora da órbita das três superpotências.
Direita moderada brasileira deveria despertar
Resta também esperar que Lula reconheça o erro grave cometido no início da invasão russa da Ucrânia, quando atribuiu à própria Ucrânia parte da responsabilidade pela guerra e quando a esquerda brasileira ecoou as justificativas falsas do Kremlin. Faltou, então, uma condenação clara da agressão.
Quem relativiza a violação do direito internacional na Ucrânia perde autoridade moral para se indignar quando os Estados Unidos fazem o mesmo, amparados em pretextos igualmente frágeis, como tráfico de drogas e segurança nacional.
Por fim, seria desejável que a direita moderada brasileira despertasse para o risco que os Estados Unidos representam à soberania do Brasil e voltasse a defender interesses nacionais concretos, em vez de tratar Trump como um ídolo político.
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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha, Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
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