10/03/2026 - 8:10
Será que abusar de colegas ainda pega bem na escola? É isso que faz com que os garotos se sintam populares? Onde a sociedade falhou?No último domingo (08/03), Dia Internacional da Mulher, fui a uma das marchas das mulheres em Berlim. Ali, vi muitas meninas novas carregando cartazes onde a palavra Wut (raiva) estava escrita. Mulheres de todas as idades do mundo todo estão com raiva. Mas, surpresa, na marcha havia muitos homens também, de idades variadas, um sinal ainda tímido, mas positivo. Será que alguns deles estão percebendo a gravidade do que estamos vivendo? Parece que sim.
No Brasil, estamos com mais raiva ainda e vivemos em clima de guerra, com as mulheres como alvo. Quase toda semana sabemos de uma tragédia. A mais recente foi a notícia do estupro coletivo de uma menina de 17 anos, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O caso aconteceu em janeiro mas só agora foi divulgado.
No domingo também, o Fantástico mostrou um vídeo que torna tudo ainda mais chocante (se é que isso é possível): uma câmera no elevador do prédio onde a garota foi estuprada mostra os acusados rindo logo após o crime. Um deles diz “a mãe de alguém teve que chorar hoje”. Tudo para eles parece ser uma grande “diversão”.
Ao se entregar, um dos acusados, Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, usava uma camiseta com os dizeres “regret nothing” (não se arrependa de nada, em inglês). A frase também é uma expressão usada por Andrew Tate, influenciador masculinista americano-britânico, declaradamente misógino, réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores.
Todos esses atos e símbolos juntos fazem a gente pensar que, para eles, violentar uma menina foi algo “cool”, do qual eles praticamente se orgulham. Será que abusar de colegas ainda pega bem na escola? É isso que faz com que os meninos se sintam populares? Onde a sociedade falhou? O que acontece com eles?
Quando eu estava na escola, lá nos idos dos anos 1980, os meninos se orgulhavam em grupos de coisas que faziam com as garotas que “davam” (essa era a expressão da época). E era assim que meninas com vida sexual ativa eram “categorizadas”. Fazer parte desse grupo era a pior coisa do mundo, e logo você seria chamada de “piranha”.
Hoje (acredito e espero), as meninas se revoltariam com esse machismo todo e dariam uns bons gritos com os meninos. Afinal, “meu corpo, minhas regras”.
Essa é uma das boas coisas do nosso tempo: as meninas estão cada dia mais conscientes dos seus direitos e exigem sua liberdade no grito. O problema é que, enquanto isso, muitos meninos parecem ser tão machistas e antiquados como meus colegas de escola nos anos 1980. Talvez hoje esteja até pior, já que existem “red pills” dando conselhos na internet, coachs de masculinidade enriquecendo com as inseguranças dos meninos e líderes misóginos como Donald Trump ocupando o cargo mais poderoso do mundo, o de presidente dos Estados Unidos.
O que fazer?
Como tirar os meninos desse círculo de horror para que eles não se tornem agressores e não cresçam achando que agredir mulher é “legal”?
A resposta não é nada fácil. Mas, obviamente, passa por educação nas escolas, muita conversa, e também exemplos em casa. Um menino que cresce ouvindo o pai repetir falas misóginas e gritar com a mãe tem grandes chances de reproduzir esse comportamento na vida.
Os homens que se dizem indignados diante de tanta violência (em 2024, nove mulheres foram estupradas por hora no Brasil) também precisam se organizar. Essa não pode ser mais uma tarefa que sobra para as mulheres. É claro que é preciso haver mais diálogo na família sobre gênero, respeito e sexualidade. Mas, sempre que penso nisso, tenho medo de que essa seja mais uma tarefa que vai sobrar para as mães.
Sim, é difícil demais educar meninos para um mundo igualitário quando a maior parte da responsabilidade pela educação ainda é das mulheres, o que é mais uma prova de desigualdade de gênero.
Pais presentes que educam os filhos, dão bons exemplos e conversam com eles e seus amigos abertamente pode ser um começo, não?
A obrigação de quebrar esse ciclo de violência pela raiz é de toda sociedade. Mas, repito, essa não pode ser mais uma tarefa apenas das mulheres, já tão sobrecarregadas e preocupadas em continuar vivas.
Mulheres feministas vivem fazendo debates, rodas de conversa, clube de leituras feministas e por aí vai. Por que os homens não fazem o mesmo?
Já existem homens que de fato trabalham para educar garotos e em iniciativas para uma masculinidade menos tóxica e mais positiva. Muito bacana. Mas os tristes fatos mostram que ainda não é o suficiente. Precisamos de mais gente nessa frente. Vamos?
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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo “02 Neurônio”. Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.
