Quem não consome álcool é constantemente cobrado. Nunca vi alguém falar para um não fumante: “por que você não fuma?”. Mas, se você não beber, se prepare: todo tipo de inquisição é socialmente permitida.”Ah, não acredito que você não vai beber!”, “Para de ser chata e bebe só um pouquinho”. Quase todas as vezes em que saio, escuto esse tipo de frase. E isso faz tempo.

Parei de beber álcool ainda na adolescência e, desde então, sou alvo de pressão, todo tipo de perguntas e suposições. Quando percebo, já estou me justificando e compartilhando em festas que “tenho casos de alcoolismo na família”, só para ver se me deixam em paz. Essa é uma informação privada, que eu não deveria me sentir obrigada a dividir no meio de uma comemoração. Na verdade, eu nem devia ter que justificar nada. Eu não bebo, isso é assunto meu e não há nada de errado nisso (muito pelo contrário).

Isso não acontece só comigo. Quem não bebe álcool é constantemente cobrado. Nunca vi alguém falar para uma pessoa não fumante: “por que você não fuma?”. Mas, se você não beber, se prepare: todo tipo de inquisição é socialmente permitida.

O álcool, e desculpa falar essa verdade óbvia logo no início do ano, é uma droga altamente viciante e que pode matar. É claro que não há nada de errado em beber socialmente e é óbvio que precisamos de escapes, seja uma cerveja gelada, um cigarro, um café, um chocolate. Longe de mim ser moralista e patrulha do que outros adultos fazem. Mas que tal respeitar a escolha de quem não bebe?

Esse mês, que marca o início do ano, é o “janeiro seco”, um movimento em que várias pessoas do mundo decidem fazer um detox e ficar um mês sem beber. A ideia surgiu no Reino Unido, como uma sugestão para dar um tempo do consumo de álcool após os excessos das festas de fim de ano. A tendência, com ajuda das redes sociais, se espalhou no mundo todo e agora chegou com força ao Brasil.

A ideia parece boa e é aprovada por especialistas, apesar de alguns deles acharem que um mês não é o suficiente e sugerirem que participar do “janeiro seco” pode ser um incentivo para parar de beber definitivamente.

Repito, não estou aqui para ser chata e falar que “todos devem parar com o álcool”. Longe de mim. Mas é fato que ser abstêmio é uma tendência que cresce no mundo todo. No Brasil, os números mostram uma expressiva diminuição no consumo de bebidas alcoólicas.

Uma pesquisa do instituto Ipsos-Ipec, realizada a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), mostrou que, em 2025, 64% dos brasileiros afirmavam não beber. Isso mostra um aumento expressivo no número de abstêmios em relação a 2023, quando 55% dos brasileiros diziam não beber.

O consumo de álcool caiu ainda mais acentuadamente entre os jovens. Em 2023, de acordo com a pesquisa, 46% das pessoas entre 18 e 24 anos não bebiam. Em 2025, esse número subiu para 64%. Na faixa entre 25 e 34 anos, o número de abstêmios subiu de 47% para 61%.

Beber é cringe

Quando eu era adolescente, bebíamos não só para escapar do mundo, que não é mesmo fácil, mas também porque era “cool”. A geração Z pensa diferente. Para muitos deles, beber é cringe, cafona. Essa é a geração que menos bebe e essa mudança de hábitos tem impactado até a indústria de bebidas alcoólicas.

Na Alemanha, por exemplo, de acordo com dados do Departamento Federal de Estatísticas (Destatis), houve uma queda de 1,4% na venda de cerveja em 2024 em relação ao ano anterior.

Pesquisadores afirmam que a geração Z é um dos fatores responsáveis pela queda na venda de álcool no mundo. Mas eu vejo também pessoas na casa dos 50 que decidem parar de beber simplesmente porque beberam muito a vida toda e percebem que, se não pararem, terão problemas de saúde sérios, além de todos os problemas sociais e psicológicos que o álcool pode trazer. Depois de uma certa idade, a gente não pode dar muito mole. Isso é fato.

Um grande amigo meu, um boêmio conhecido, tomou essa decisão corajosa e, além de parar de beber, virou vegetariano. “As pessoas me dizem que eu estou exagerando, que assim já é demais”, ele me contou. Como se exagerar não fosse, por exemplo, beber todo dia.

Que em 2026 a gente aprenda, de uma vez por todas, que cada um tem o direito de fazer ou não fazer o que quiser, desde que isso não prejudique os outros. Parar de beber, seja por um mês ou para sempre, é uma decisão que não faz mal para ninguém. Pelo contrário: só faz bem. Respeitem.

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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo “02 Neurônio”. Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.