03/02/2026 - 10:28
Poucas coisas provocam mais asco do que a violência contra animais. Só um sadismo doentio explica que alguém ache isso divertido.O que leva adolescentes a torturarem um animal até a morte? Essa pergunta roda o Brasil desde que o caso do cão Orelha veio à tona.
O cão, que se tornou um ícone da luta contra os maus tratos aos animais, foi torturado e abandonado agonizando em Praia Brava, bairro de elite de Florianópolis, em Santa Catarina. Ele ainda foi levado a um veterinário por moradores, mas não foi mais possível salvá-lo.
A Polícia Civil investiga um grupo de adolescentes de classe alta. Desde então, a indignação se espalhou. No último domingo, manifestações pedindo “justiça por Orelha” foram realizadas em todo o país.
Entendo a revolta e me junto ao coro dos indignados. Poucas coisas provocam mais asco do que violência contra animais. Ver que alguém é capaz de maltratar um bicho como forma de diversão é chocante.
Só um sadismo doentio explica que alguém ache divertido torturar um cão como o Orelha e ver seu sofrimento como se fosse um filme de ação.
Será que as pessoas que torturaram o cachorro achavam que jogavam videogame, e que a dor do cão não era real? Ou será que elas simplesmente têm prazer com o sofrimento alheio ou, ainda pior, em causar sofrimento?
Ao vivo na internet
Talvez tudo se misture. Tortura de animais não começou ontem. Essa é uma espécie de ritual macabro, tipo um teste de masculinidade, que alguns meninos praticavam desde quando eu era criança, lá nos anos 80.
A repercussão do caso Orelha mostrou que esse horror não só não acabou, como aumentou. De acordo com delegados e juízes, diariamente adolescentes torturam ao vivo animais na internet, principalmente no Discord, um aplicativo popular entre gamers e suspeito de abrigar canais que fazem apologia ao nazismo, exibem pedofilia e outros conteúdos criminosos.
No ano passado, um adolescente de 15 anos, que utilizava a plataforma para maltratar animais, foi preso em São Paulo. De acordo com a polícia, ele torturava e matava gatos ao vivo. Adolescentes não só assistiam, como sugeriam, via chat, o que ele devia fazer para machucar os animais. Delegados e juízes explicam que existem também “desafios online”, nos quais ganha quem torturar os bichos.
Não acho que a internet tenha inventado esse tipo de coisa, mas ela turbina, aumenta e normaliza comportamentos doentios. E, claro, há plataformas que lucram com esse show de dor.
Certeza da impunidade
O crime contra Orelha tem muitas camadas. E é impossível ignorar a questão de classe. De acordo com depoimento do porteiro do prédio onde os adolescentes acusados moram, os jovens costumavam xingar o trabalhador como se ele fosse um serviçal inferior.
Não estou dizendo que apenas meninos ricos maltratam animais, claro. O que os bem nascidos têm é a certeza da impunidade. E eles nem têm culpa de pensarem assim. A Polícia Civil comunicou que pais e um tio de um dos adolescentes são investigados por tentativa de coação de uma das testemunhas do crime.
Violência contra animais não pode ser tratada como uma travessura feita por moleques. Tomara que a indignação pela morte de Orelha sirva para que outros adolescentes, e seus pais, finalmente entendam isso.
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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo “02 Neurônio”. Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.
