O assassinato de Marielle Franco foi arquitetado como recado do sistema de poder fluminense apodrecido. Mas acabou se tornando um símbolo de resistência e ruptura.”Quem matou Marielle?” — a pergunta que ecoou após o assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018 transformou-se em palavra de ordem dos setores progressistas no Brasil. Com o julgamento histórico no Supremo Tribunal Federal (STF), há agora a esperança concreta de respostas.

A morte violenta de Marielle tornou-se símbolo de tudo o que apodreceu no Brasil — e, de modo particularmente agudo, no Rio de Janeiro. Mulher de esquerda, negra, bissexual, oriunda da favela, ela foi vítima de estruturas de poder corroídas pela corrupção, entranhadas há décadas na política, na polícia e em parcelas do sistema de Justiça fluminense e nacional.

Já em 2019, um ano após o crime, foram presos os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, executores do assassinato. Lessa foi o atirador que matou Marielle e seu motorista, Anderson Gomes; Queiroz dirigia o carro usado na emboscada.

Mas quem ordenou o crime? Quem eram os mandantes? Rapidamente ficou claro que a resposta deveria ser buscada no pântano político do Rio de Janeiro. Muitos setores da esquerda chegaram a suspeitar, de forma quase reflexa, da família Bolsonaro — hipótese que se revelou infundada.

Agora, graças às delações premiadas de Lessa e Queiroz, os supostos mandantes estão no banco dos réus. O processo lança luz sobre a mentalidade de parte das autoproclamadas elites da cidade e do país: homens brancos, ricos, bem conectados — e aparentemente convencidos de que eram intocáveis.

Reação

O erro decisivo deles foi subestimar a reação social que o assassinato provocaria. Agiram como se ainda vivessem em um Brasil onde a execução de uma mulher negra, de esquerda e lésbica, que ameaçava interesses econômicos estabelecidos, não despertaria grande comoção nem investigação rigorosa. É o cenário retratado no filme O Agente Secreto, no qual um industrial, com ligações estreitas com a ditadura, manda eliminar um professor universitário incômodo.

As primeiras reações da direita bolsonarista ao crime reforçaram essa leitura. Marielle foi associada, por sua origem na favela, ao crime organizado; insinuou-se que teria sido responsável pelo próprio destino.

Mas a sociedade brasileira mudou. Uma geração jovem, politizada e consciente ocupou as ruas e transformou indignação em mobilização. A imprensa compreendeu a dimensão do crime, que ganhou repercussão internacional. E a justiça atuou.

De acordo com as investigações, os supostos mandantes agiram sobretudo para proteger interesses econômicos ilícitos. Marielle denunciava reiteradamente os negócios ilegais das milícias na zona oeste do Rio: empreendimentos imobiliários irregulares, controle de serviços locais, a simbiose entre grupos armados e setores da política. Ela confrontava as pretensões territoriais e financeiras de redes criminosas.

O assassinato teve, portanto, dupla finalidade: silenciar uma crítica incômoda e enviar um recado inequívoco — quem desafiasse essas estruturas pagaria o mesmo preço.

Degradação, elucidação e inflexão

A lista dos acusados e de seus supostos cúmplices expõe a profundidade da degradação institucional: Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro; Chiquinho Brazão, ex-deputado federal; Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio; o major da Polícia Militar Ronald Alves de Paula; e o policial militar Robson Calixto. Todos negaram as acusações.

Nesta quarta-feira (25/02), o STF condenou por unanimidade os cinco réus.

A elucidação do caso foi dificultada por uma teia complexa que entrelaça políticos, membros do Judiciário, altos oficiais das forças de segurança e matadores de aluguel. O fato de que, apesar disso, os mandantes tenham sido identificados e julgados indica que o país atravessa um processo de transformação.

Que o julgamento tenha ocorrido no Supremo Tribunal Federal — a mesma corte que conduziu o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados por tentativa de golpe de Estado — evidencia essa inflexão histórica.

O caso Marielle mostra como o Brasil começa, lentamente, a se libertar dos fantasmas da ditadura. Ainda assim, é preciso lamentar quantos assassinatos e crimes neste país — cujas vítimas são pessoas menos conhecidas — jamais são esclarecidos e permanecem impunes.

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha, Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

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