05/02/2026 - 8:32
Enquanto o Estado romantizar a inclusão escolar e terceirizar sua execução para professores sobrecarregados e estagiários despreparados, quem paga o preço é quem deveria estar sendo cuidado e acolhido.Recentemente assisti nas redes sociais o desabafo de um pai de uma criança de 9 anos que é autista grau 3 não verbal e a relação do seu filho com a escola. Segundo ele, para seu filho é um ambiente hostil e quase torturante.
Com muita dor, ele relata que precisa aceitar que seu filho nunca irá aprender a fórmula de Bhaskara, o contexto de expansão marítima ou o conceito físico de óptica. Seu verdadeiro sonho é que ele aprenda a escovar os próprios dentes ou a se vestir sozinho.
Sua transparência me chamou muito a atenção e me fez pensar sobre a realidade da inclusão de estudantes neurodivergentes (ND) na rede pública brasileira.
Para que haja uma verdadeira inclusão, é fundamental a existência de uma equipe multidisciplinar qualificada em todas as escolas da rede pública brasileira. Essa, infelizmente, não é a realidade atual.
Recebi inúmeros relatos de uma prática bem comum: a contratação de estagiários, como estudantes de licenciatura, para atuarem como acompanhantes dos alunos que requerem esse suporte. A razão é orçamentária, pois a contratação de estagiários é muito mais barata do que a de profissionais qualificados.
Sobrecarga
Qual o problema? Eles não têm a formação necessária para exercer tal função. Em muitas licenciaturas do Brasil, a disciplina de inclusão/educação especial nem é obrigatória. Também não podemos esperar que uma única disciplina capacite para tamanha responsabilidade.
Giovanna, estudante de Letras, foi procurar estágio em um colégio carioca. A vaga era para acompanhar crianças ND. Ao perguntar se teria suporte, a resposta foi: “Ah, não tem importância não, você está fazendo licenciatura e pode ficar aqui cuidando da criança”.
Já Kawwany, também estudante de Letras, passou por algo parecido em Sergipe. “Na sala que me colocaram, tinham cinco crianças ND com diagnóstico e, como era impossível uma única estagiária trabalhar com todas, eu fui orientada a escolher uma criança e focar nela. Esse foi o máximo da orientação que recebi.”
Outra faceta desta problemática é a sobrecarga docente. Se o professor disser não que é possível adaptar e personalizar a aula para todos os estudantes ou simplesmente não conseguir, claramente faltou boa vontade, empatia e profissionalismo. É um peso gigante para depositar nas costas de um dos profissionais mais desvalorizados do país.
Mas, como personalizar e adaptar em um contexto de, pelo menos, 30 alunos por sala em média e, sobretudo, sem a capacitação e a formação continuada necessária? Por favor, sejamos honestos: beira o impossível.
Integração, será?
Podemos pensar na política de inclusão sob dois vieses: a aprendizagem e a integração. Como feita hoje, ela não garante a aprendizagem. Há quem ainda assim a defenda sob a ótica da integração, pois é importante que crianças não ND convivam com as que são e vice-versa, mas a realidade atual também mina esse fim.
Maria Luiza é mãe de um jovem autista grau 1. “Lembro que um dia que cheguei para buscá-lo e ele estava completamente nu, largado num canto e afastado dos outros coleguinhas. Aquilo foi dilacerante para mim. Estava com semblante apavorado e por não ser verbal não sei o que aconteceu ao certo. Ao questionar, me deram desculpas esfarrapadas como sempre ouvia, ele é muito agitado, ou ele escorregou, caiu. Então, eu decidi tirá-lo da escola.”
A realidade, infelizmente, é que a inclusão de estudantes neurodivergentes nos colégios regulares, em muitos casos, acaba mais os excluindo do que integrando.
Incluir não é apenas matricular. Não basta colocar a criança neurodivergente dentro da sala de aula e chamar isso de política pública. Sem profissionais qualificados, sem infraestrutura e sem suporte real a chamada inclusão vira abandono institucionalizado.
Enquanto o Estado romantizar a inclusão escolar e terceirizar sua execução para professores sobrecarregados e estagiários despreparados, quem paga o preço é quem deveria estar sendo cuidado e acolhido.
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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.
Este texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.
