17/02/2026 - 7:25
Uma mãe ter os dois filhos mortos e ainda ser culpada pelo crime e xingada em público evidencia a profunda e gravíssima misoginia que adoece a sociedade brasileira.É difícil encarar tanta crueldade: um homem atira nos próprios filhos, matando-os, e em seguida tira a própria vida. A tragédia fica ainda pior quando se sabe que ele teria deixado uma carta culpando a esposa e mãe das crianças pelo crime e a acusando de traição.
O caso aconteceu em Itumbiara, Goiás, na semana passada, e chocou o Brasil. O choque é justificado. Nada no mundo é tão cruel quanto crimes contra crianças. E é mais chocante ainda quando isso é feito pelo próprio pai.
Os “detalhes” também são estarrecedores: Thales Machado, secretário da prefeitura do município, teria matado os dois filhos para “se vingar” da esposa. Essa é uma espécie de feminicídio indireto, chamado de “homicídio vicário”, quando a morte de outros (em geral filhos e enteados) é usada para atingir a mulher.
Por muito tempo no Brasil, crimes contra mulheres podiam ser justificados como “defesa da honra”. Basicamente, um homem teria o direito de matar por ter sido traído ou “desonrado”. Parece coisa da era das cavernas, mas a sociedade brasileira parece não ter avançado muito. Uma prova disso é o aumento no número de feminicídios registrados no país. Em 2025, 1.470 mulheres morreram vítimas do crime no Brasil, um recorde histórico.
Boa parte desses feminicídios são cometidos por “ciúme” e na fase final do relacionamento. A “não aceitação” do fim é um “gatilho” comum da violência contra a mulher. De acordo com um estudo da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, esse foi o caso de 33% desses crimes em 2020.
Esse parece ser o caso do crime de Itumbiara. Familiares e amigos afirmam que Machado e a esposa já estariam separados e que ele não aceitava isso.
O fim de uma relação é algo perigoso para uma mulher. E, como se vê agora, também para seus filhos.
O crime, pela forma como tem sido tratado pela polícia, seria um “filicídio” (assassinato de filhos pelos pais). Um crime praticado principalmente por homens. Um estudo divulgado na Austrália em 2024, por exemplo, mostrou que 68% dos casos no país foram praticados por pais, enquanto as mães foram responsáveis por 32% dos casos.
Ataques à vítima
A história, já horrível, piora ainda mais. Desde que a tragédia foi divulgada, a mãe da criança passou a ser atacada nas redes sociais e também em público. No dia do enterro de um dos seus filhos, ela teria sido vaiada e xingada no cemitério, de acordo com a mídia local.
Nas redes, muitos colocam a culpa nela e a xingam. Sim, nela, que perdeu os dois filhos de forma violenta e é vítima de uma tragédia. Mas, num país que às vezes parece uma “sociedade fundamentalista onde mulheres são punidas com pedras”, a vítima é “culpabilizada” por homens e mulheres.
“Não tem santo nessa história. Que os dois paguem.” “Ela é culpada, sim. Adultério é pecado. Ela destruiu a família.” “Ela traiu, aí o cara ficou de cabeça quente e aconteceu essa tragédia.” Esses são alguns dos comentários que tive o desprazer de ler no fim de semana (e olha que selecionei os mais leves).
É chato ter que repetir o óbvio, mas não existe nada no mundo que justifique o assassinato de crianças. Nada, mesmo.
Por isso, a discussão após o crime não deveria ser sobre o estado civil da vítima ou sobre sua vida afetiva. É muito mais importante discutir esse machismo que faz com que um pai mate os próprios filhos.
As especulações sobre a vida conjugal da vítima só provam o quanto o Brasil ainda é uma sociedade adoecida pelo machismo. Só o fanatismo explica alguém achar uma justificativa para o assassinato de duas crianças. Nada do que a mãe faça serve de justificativa para um pai matar os filhos.
Essa mãe deveria estar sendo acolhida pela sociedade. Não atacada e caluniada.
Uma mãe ter os dois filhos mortos e ainda ser culpada por isso e xingada em público mostra que a sociedade brasileira ainda sofre de uma profunda e gravíssima misoginia.
Muitos dos que atacam a mulher se dizem defensores dos valores da família. Não, não é possível defender a família e ao mesmo tempo justificar o assassinato de crianças.
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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo “02 Neurônio”. Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.