26/02/2026 - 12:40
“Se não uso na vida, para que estudar isso?”, se perguntam alguns. Mas matérias tradicionais ajudam a formar o senso crítico. Utilitarismo desvaloriza centros educacionais e transforma educação em mercadoria.”Não faz sentido eu estudar fórmula de Bhaskara e equação de segundo grau, porque o que isso vai me ajudar na minha vida? A longo prazo não te dá retorno financeiro. Como que eu vou ganhar dinheiro com isso?”
Embora a maioria dos professores já tenham sido confrontados com a pergunta canônica “se não vou usar na minha vida, para que vou estudar isso?”, a citação acima não foi retirada de uma sala de aula, mas de um corte de podcast que viralizou em 2024.
A fala, dita por um jovem de 14 anos, chama a atenção justamente por revelar a mentalidade utilitarista enraizada na nossa sociedade desde a adolescência. Esse discurso desvaloriza os centros educacionais e transforma a educação em mercadoria, uma vez que apenas aquilo que tem uma utilidade prática é legitimado e valorizado: uma lógica prejudicial para a formação intelectual dos cidadãos brasileiros.
Nosso modelo de educação está em ruínas?
O sistema educacional vigente no Brasil foi originado a partir da paideia, modelo de educação da Grécia Antiga. Ao ensinar sobre literatura, ginástica, retórica, matemática e ciências, os gregos focavam na formação integral do cidadão, ou seja, um processo contínuo que aprimorava as características físicas e intelectuais para a vida na pólis.
Foi partindo dessa ideia, com algumas adaptações a cada época, que a centralidade nas matérias tradicionais se perpetuou até os dias de hoje. Ou seja, lecionar português, matemática, geografia, ciências da natureza e história não é um método retrógrado, mas a base estruturante do conhecimento.
É importante reconhecer que atualizações na educação poderiam ser interessantes, como a proposta de flexibilização de escolhas sugerida pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Entretanto, a escola ainda precisa ser um espaço de formação cidadã e não apenas profissional.
Para quê? x por quê?: um conflito de valores
Alterar a base estruturante do conhecimento para uma visão focada apenas no mercado profissional é renunciar ao objetivo primário da educação: a potencialização de seres humanos. Quando digo isso, me refiro aos valores que estarão sendo cultivados na nossa sociedade.
É provável que, em um dia comum, você nunca tenha usado a fórmula de Bhaskara ou a equação de segundo grau. Porém, é através desse e outros conhecimentos fornecidos pelas matérias tradicionais que pensamento crítico, raciocínio lógico, capacidade de abstração e análise do mundo são estruturados no intelecto humano.
Ao invés de manter a visão utilitarista de “para quê?”, é necessário fomentar uma mentalidade curiosa, investigativa e crítica do porquê cada coisa acontece no mundo. Isso propiciaria não só uma sociedade com valores mais humanos e menos automatizados, mas também aumentaria a autonomia intelectual e a capacidade de resolução de problemas nos indivíduos.
Custo da visão utilitarista
Essa mentalidade utilitarista na educação, além de ser uma negligência com a formação humana, é também reduzir o processo de aprendizagem a uma linha de produção. Ao priorizar a utilidade do conhecimento em detrimento dos valores anteriormente citados, um ciclo de alienação e esgotamento mental se perpetua. O resultado: síndrome de burnout. Os jovens, ao perseguirem apenas o status e o retorno imediato, veem-se despersonalizados e presos em carreiras vazias de propósito, produzindo uma sociedade em que, não só a educação, mas a própria vida se torna uma mercadoria.
Romper com esse ciclo, através da mudança de mentalidade, é construir uma sociedade com valores mais humanos.
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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.
Este texto foi escrito por Lívia Vitória dos Santos, de 18 anos, estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP), e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.
