27/01/2026 - 9:58
Alex Pretti e Renee Good eram daqueles que não fecham os olhos diante da violência cometida contra outras pessoas.O que você faria se os seus vizinhos começassem a ser presos, inclusive as famílias com crianças? Vamos supor que você saiba que eles não são criminosos perigosos, mas meros trabalhadores imigrantes. Você deixaria que eles fossem levados contra a vontade por agentes da imigração armados até os dentes? Ou tentaria ajudá-los a se esconder ou impedir que eles fossem agredidos?
Nos últimos meses, e mais fortemente desde a semana passada, estamos vendo esse horror se repetir pelas nossas telas. O que acontece nos Estados Unidos, onde o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) prende crianças e famílias inteiras e também atira e mata, é uma barbárie que não pensávamos ver se repetir. O que fazer?
No mundo, existem aqueles que resolvem não fechar os olhos e aqueles que vão seguindo a vida, fingindo que nada está acontecendo, dentro de suas bolhas com cores em tons pastéis e música suave. E claro, também há aqueles que acham que “tudo bem” uma criança de 5 anos ser presa voltando da escola, como aconteceu com Liam, um garoto que foi levado pelo ICE junto com o pai em Minnesota. Sim, essas pessoas também existem.
O enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, morto a tiros por agentes do ICE no sábado passado (24/01) em Minneapolis, e a poeta Renee Nicole Good, de 37 anos, morta com tiros na mesma cidade, no dia 7 de janeiro, faziam parte do primeiro grupo, aquele que abriga uma parcela da população que não fecha os olhos diante dos abusos cometidos contra outras pessoas.
Eles morreram fazendo o mesmo que muitos imigrantes e cidadãos americanos fazem nestes tempos de horror: apitando quando o ICE estava vindo para avisar a vizinhança, oferecendo-se para ir ao supermercado (tem quem não vá por medo de ser preso), ajudando com as crianças, ou vigiando e filmando os agentes do ICE para registrar os absurdos que eles fazem. Alex tinha uma câmera na mão quando foi morto. Renné discutia com um agente, e sua esposa filmava.
O fato de eles serem mortos por agentes mostra até onde chegou a barbárie. Já a violência com que os imigrantes são tratados no governo Trump não é exatamente uma novidade. De acordo com pesquisa do jornal The Guardian publicada no início de janeiro, 32 pessoas morreram sob custódia do Serviço de Imigração e Alfândega em 2025. Segundo levantamento da ONG americana The Trace, agentes do ICE já abriram fogo pelo menos 19 vezes desde o início do governo Trump. Além de Renné e Alex, pelo menos outras três pessoas teriam sido mortas.
Agora, a violência dos agentes do ICE, dirigida principalmente contra imigrantes, chegou até os brancos americanos que, corajosamente, usam sua posição social privilegiada para proteger os que são mais visados.
No fim de semana, depois que as cenas do assassinato de Alex Pretti rodaram o mundo e vimos que ele foi morto com tiros dados pelas costas, a sangue frio, depois de ter sido imobilizado, os Estados Unidos entraram em ebulição.
Protestos violentos eclodiram em Minneapolis. Nas redes sociais, muitos repetiam: “Mas ele era cidadão!”. É revoltante, mesmo. Mas o fato de ele ser um cidadão não deveria fazer tanta diferença: o enfermeiro não poderia ter sido executado por agentes do governo fosse quem fosse. Mesmo assim é importante lembrar que, se ele fosse imigrante, também não poderia ter sido assassinado. A polícia e os agentes do Estado não podem sair matando, seja a pessoa preta, seja latina, seja branca.
O assassinato de Pretti tem sido considerado por muitos analistas um ponto de virada nos Estados Unidos. Talvez essa seja a gota amarga que faltava para que a população e os políticos finalmente digam “chega” e tentem, democraticamente, barrar os absurdos que estão sendo cometidos pelo país. Tomara, mesmo.
Na Alemanha, onde sou imigrante, membros do partido de ultradireita AfD na Baviera defenderam a criação de uma força policial de deportação “semelhante ao ICE”. Espero que eles nunca ganhem, e que a população do país perceba o perigo que isso significaria. Mas, como imigrante, não deixei de pensar que eu, com ou sem cidadania, poderia ser um alvo, assim como muitos dos meus vizinhos. Muitos deles seriam até mais visados do que eu.
Falo de mim e da minha vizinhança para lembrar que imigrantes não são números. São pessoas, como qualquer cidadão, não importa onde tenham nascido.
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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo “02 Neurônio”. Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.
