Não basta apenas exigir progresso e resultado da escola pública. É preciso oferecer condições para que ela exista com dignidade. Valorizar a educação vai além de um discurso; começa com investimento.É de senso comum que a educação pública no Brasil é um tema que merece alerta e debate. A pedagogia praticada em grande parte das escolas públicas não é a do planejamento, da continuidade ou da excelência. Pelo contrário, o cotidiano escolar é marcado pela urgência, pela improvisação constante e pela tentativa de manter algum sentido pedagógico em meio ao colapso cotidiano.

Isso se deve à falta de recursos nas escolas e ao desgaste físico e mental dos professores . Com isso, o contexto educacional é instaurado pelo caos.

Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2024, elaborado pelo Todos Pela Educação, apenas 38,7% das escolas públicas brasileiras possuem climatização nas salas de aula. Além disso, somente 48,2% dos colégios públicos no Brasil contam com esgoto. Os dados alertam não somente em relação à infraestrutura da escola, mas acerca das possibilidades pedagógicas também. Ainda segundo o estudo, apenas 47,2% das escolas públicas nos anos iniciais do ensino fundamental possuem acesso à biblioteca ou salas de leitura.

A falta de investimento em educação já é um tema recorrente e debatido. Mesmo assim, ao observar os dados, a situação se mostra ainda mais alarmante. A ausência de estrutura básica adequada afeta todos os cidadãos envolvidos na ambientação escolar. Se não há um ambiente acolhedor e que supre as necessidades do corpo docente e estudantil, como haverá um ensino de qualidade?

Professores adoecidos: O reflexo de um mau plantio

Os docentes podem ter as melhores intenções, mas se torna inviável lecionar ao redor da precariedade. Com isso, os professores passam a aprender a se adaptar. Adaptam o cronograma, as atividades e as aulas. Tudo isso pela falta de materiais e pela ausência de recursos.

Como mostrado acima, grande parte dos estudantes não possuem acesso à climatização, ocasionando em cansaço físico e dificuldade de concentração. Às vezes, sequer têm acesso a saneamento básico. Além disso, as salas de leitura raramente existem.

Assim, a “solução” se encontra em adaptar e “remendar” os planos. A consequência disso é um corpo docente extremamente fragilizado e adoecido.

De acordo com dados do INSS levantados pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), mais de 150 mil professores da rede pública do Brasil foram afastados em 2023 por motivos relacionados à saúde mental. Esse é um reflexo da desvalorização de seus serviços ofertados aos alunos. Grande parte dos professores estão sobrecarregados e sem apoio, e esses dados expõem tal fato.

O falso discurso sobre resiliência

O discurso sobre a resiliência se torna cada vez mais conhecido. Os professores são frequentemente taxados como fortes e resistentes. No entanto, é preciso considerar que exaltar a resiliência da escola pública é uma maneira elegante de normalizar o inaceitável. A expressão “professor resiliente” não passa de um eufemismo usado para maquiar a atual situação.

A questão é que se espera que a escola ajude a projetar o futuro, mas ela própria não consegue planejar nem a próxima semana. A educação tem um grande potencial de transformar vidas e abrir novas oportunidades. No entanto, para isso é necessário que olhem efetivamente para ela.

Não basta apenas exigir progresso e resultado da escola pública. É preciso oferecer condições para que ela exista com dignidade. Valorizar a educação vai além de um discurso; começa com investimento. Não há resiliência nem paixão que sustentem a falta de apoio e de infraestrutura básica.

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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito pela estudante de letras da Universidade de Brasília (UnB) Ana Clara Rodrigues de Assunção, de 20 anos, e reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.