É preciso descartar o antirracismo de fachada, propagado por uma parcela que frequenta bloco descontruído e que segue incapaz de interrogar o próprio olhar. Isso não é antirracismo. É racismo com filtro progressistaTodo carnaval tem seu fim. E infelizmente, alguns são mais tristes do que outros.

O de 2026 deixou, entre confetes e discursos apressados sobre diversidade, duas cenas que insistem em ficar: a primeira me foi contada por uma querida ex-aluna — uma das poucas estudantes negras na escola de elite onde lecionei anos atrás — que, ao circular por um desses blocos cariocas “desconstruídos”, foi abordada por foliões que presumiram que ela fosse ambulante, perguntando preços e pedindo bebidas.

É claro que não há nenhum demérito em ser uma ambulante – afinal são elas e eles que, com seu trabalho, sustentam boa parte das festas nas ruas, e como qualquer outra forma de trabalho, merecem respeito e dignidade. Mas venhamos e convenhamos: nada é mais a cara do racismo brasileiro que achar que uma pessoa negra, ou melhor, qualquer pessoa negra, esteja sujeita a executar tarefas que são pouco ou nada reconhecidas no Brasil.

A situação é ainda mais perversa, porque uma das pessoas que a abordou é sua conhecida, frequenta os mesmos lugares que ela, mas não titubeou nenhum minuto em achar que uma das poucas pessoas negras daquele bloco, só poderia estar lá como ambulante.

A segunda situação é bem mais (in)tensa, porque nos mostra a radicalidade que o racismo pode ter na vida de pessoas negras. Em Salvador – a cidade mais negra do Brasil –, pouco antes de falecer, um psicólogo baiano relatou ter sido barrado por suspeições racistas em um camarote durante o Carnaval de 2026, num caso que abalou a opinião pública.

Antirracismo

Então, em meio à festa mais negra do Brasil, uma pergunta que tem martelado a minha cabeça a algum tempo, ficou ainda mais gritante: qual é exatamente o mundo que o antirracismo quer construir?

Sem dúvida que uma série de ponderações devem ser feitas pra rascunhar possíveis respostas ou caminhos. Em primeiro lugar é preciso reconhecer, para depois descartar, o antirracismo de fachada. Aquele que virou trend nos últimos anos, e é propagado por uma parcela significativa do pessoal que frequenta bloco descontruído – os mesmos que se indignam nas redes ao saber de um episódio de racismo, publicam um stories indignado, mas seguem incapazes de interrogar o próprio olhar e seguem achando que a coleguinha negra não pode estar no mundo na mesma posição que eles. Isso não é antirracismo. É racismo com filtro progressista.

Mas existem ponderações mais profundas. Sobretudo aquelas que partem da premissa que o racismo é um ordenador da sociedade brasileira, e que, infelizmente, não anda sozinho. O que os dois casos narrados apontam é que a não adianta o negro subir na vida, ter sucesso, “chegar ao topo”… Na primeira oportunidade o racismo vai lá e, zas, nos dá uma rasteira e mostra que nesse mundo, com essa estrutura, seremos sempre a base.

Isso significa dizer que a questão a luta de classes importa menos no combate antirracista? Definitivamente não. Muito pelo contrário: não há antirracismo efetivo que possa prescindir de uma leitura crítica das estruturas de classe que organizam a sociedade. Racismo e desigualdade econômica/social e política não caminham em trilhos paralelos; entrelaçam-se, reforçam-se, retroalimentam-se. Não ser pobre pode garantir uma serie de melhorias materiais para as pessoas negras, mas nunca as livrou do racismo.

Barreira simbólica e social

E aí temos um grande nó: se sem consciência de classe a luta antirracista caminha quase nada, nem só de materialismo histórico pode viver o combate ao racismo. E aqui, lembro a importância de ler (e reler) a obra vigorosa do sociólogo estadunidense W.E.B Du Bois, um dos maiores intelectuais já existentes. Ao narrar uma das suas primeiras percepções do racismo em sua vida – ainda na infância, como quase todas as crianças negras –, W.E.B Du Bois nos fala do véu que envolve as pessoas negras. Esse véu poder ser entendido como uma metáfora que descreve a barreira simbólica e social que separa pessoas negras do restante da sociedade, fazendo com que elas se vejam e sejam vistas através de uma consciência marcada pela exclusão racial.

Para construir um outro mundo, em que a vida negra seja experimentada de forma mais inteira, menos violenta e, porque não, mais feliz e justa, é preciso que retiremos o véu que W.E. B. Du Bois tão bem descreve. E todos nós ganhamos quando isso acontece, haja vista a recente condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco – um crime político, mas também um crime misógino e racista.

E a retirada desse véu não precisa (e talvez nem possa) ser feita de uma única forma. É preciso ter a escuta afinada, os olhos atentos e a mente aberta, para que diferentes maneiras de pensar e entender o mundo possam emaranhar-se na busca de uma sociedade que, de fato e de direito, seja antirracista. Verdades absolutas, desrespeito a que veio antes, pensamento hierarquizantes parecem ajudar pouco…

Eu, particularmente, desejo que o antirracismo construa um mundo sem topo.

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020) e Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (Todavia, 2022), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.