Dois meses após o sequestro de Maduro, a maioria dos venezuelanos mostra gratidão a Trump. O país espera que os EUA finalmente o tirem do isolamento. Agora, o Brasil precisa de um novo canal de comunicação com Caracas.Dois meses atrás, militares americanos sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa em Caracas, no âmbito de uma operação militar. Desde então, nada mais é como antes na Venezuela.

A maioria dos venezuelanos parece aliviada. É como se um pesadelo tivesse acabado. As ruas voltaram ao normal. Estão cheias de gente. Os restaurantes estão lotados. Há poucas semanas, as ruas ficavam desertas ao pôr do sol. Há gasolina novamente. As filas diante dos postos de gasolina, que durante anos fizeram parte da paisagem urbana, desapareceram. A ajuda humanitária dos EUA à Venezuela, suspensa por Trump, também foi retomada. Há medicamentos e alimentos vindos dos EUA.

E quase todos afirmam: “A ação violenta de Trump foi correta”, sem ressalvas. Não se percebe nada do antiamericanismo tão difundido na América Latina. “A ação de Trump foi ruim para a humanidade, mas boa para a Venezuela”, diz um diplomata europeu.

O apoio à ação dos EUA na Venezuela atinge todas as camadas sociais: líderes estudantis, deputados, sindicalistas e empresários. Mas também estão felizes os moradores dos barrios, as favelas de Caracas, com a prisão de Maduro e com o fim da repressão e da tutela intermináveis.

Os colectivos, milícias armadas de motociclistas em prol do regime, desapareceram. Nos dias que se seguiram ao sequestro de Maduro, eles ainda dominavam as ruas de forma ameaçadora.

Além disso, a capital está mais segura do que nunca há muitos anos – mais segura do que a maioria das capitais no resto da América do Sul. Assaltos, assassinatos e sequestros quase não são mais um problema. Há alguns anos, Caracas era a cidade com o maior índice de violência da América do Sul.

País sob tutela

Os EUA deixam claro que vieram para ficar. Semanalmente, representantes de alto escalão americano chegam ao país – não como visitantes ou convidados oficiais. “Eles agem como governadores visitando uma província”, diz o diplomata.

Quase todos na Venezuela dizem que o país está sob a tutela dos EUA – mas isso não parece incomodar ninguém. Pelo contrário. Isso traz consigo a esperança de que o regime não continue a oprimir o povo como tem feito até agora – e que o país finalmente saia do isolamento econômico e político em que se encontra há mais de uma década.

Para a política externa do Brasil, a Venezuela representa agora um grande desafio. Desde 2003, os governos em Brasília e Caracas mantinham estreitos laços ideológicos. Juntos, cantavam canções revolucionárias, celebravam a integração latino-americana – mas, acima de tudo, faziam negócios ilícitos, nos quais bilhões eram desviados para a corrupção.

A suposta solidariedade revelou-se vazia: quando Maduro insistiu na sua fraude eleitoral em 2024, ignorou o Brasil como potencial mediador. Em contrapartida, o Brasil assegurou que a Venezuela não fosse admitida nos Brics.

Agora, os canais de comunicação com Caracas foram cortados – os EUA assumiram o comando. O Brasil, mas também quase todos os outros atores geopolíticos – como a União Europeia, a China e a Rússia – são espectadores da transição da Venezuela, que pela primeira vez nada têm a dizer.

No entanto, a Venezuela ainda precisará de anos para construir sua democracia. O Brasil, mas também países como a Argentina e o Chile, acumularam experiência na transição da ditadura para a democracia. Esse acervo de experiências pode agora se tornar importante para a Venezuela.

Seria importante que o Brasil reabrisse um novo canal de comunicação com a Venezuela. Pois, como dizem muitos membros da oposição: “O Brasil poderia ter se empenhado mais pela democracia”.

Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.