Os EUA são alvo de duras críticas por sua crescente interferência na América Latina. No entanto, a região se mostra incapaz de resolver seus próprios problemas.Donald Trump agiu. Em uma operação noturna em Caracas, forças especiais americanas capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e o levaram para os Estados Unidos, onde agora enfrenta julgamento. Em vez de chamá-lo de presidente, talvez seja mais apropriado usar ditador — alguém que fraudou várias eleições, reprimiu brutalmente a oposição, arruinou a economia do país que já foi o mais rico da América Latina e expulsou cerca de 8 milhões de venezuelanos para fora de suas fronteiras.

A tragédia que o povo venezuelano vem enfrentando desde o início do chavismo, em 1999, e especialmente desde que Maduro assumiu o poder, em 2013, vai muito além do que normalmente chamamos de crise ou declínio. Não foram apenas os migrantes venezuelanos que se espalharam por toda a América Latina por causa do regime de Maduro. O crime organizado, com grupos como o Tren de Aragua, também se expandiu como uma verdadeira praga.

Conversando com representantes da oposição venezuelana, é impossível não perceber a frustração com governos de esquerda e progressistas, como os do Brasil e do México. Maduro foi cortejado e apoiado por esses países, em vez de ser pressionado a moderar seu regime. Na prática, a defesa de regimes de esquerda como o da Venezuela – e também de Cuba e Nicarágua – por governos que recorrem com frequência ao vocabulário dos direitos humanos e da humanidade tornou-se rotina.

Relação amistosa com Caracas

Com razão, a esquerda latino-americana sempre denunciou ditaduras brutais como a de Augusto Pinochet no Chile. E, com razão, o ex-presidente brasileiro Jair Messias Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe. Mas, do mesmo campo político que comemora a condenação de Bolsonaro, vem agora a crítica à punição que Maduro pode sofrer. No caso dele, não foi apenas uma tentativa de golpe, como executado por Bolsonaro, mas várias, de forma brutal e implacável.

A crítica se concentra no fato de que foram os EUA que intervieram na Venezuela. No entanto, por décadas, os governos da região falharam em ajudar o povo venezuelano e conter a tragédia do chavismo. O Brasil, que sob Lula manteve relações estreitas e amistosas com Caracas, não usou essa proximidade para apoiar a oposição ou defender a democracia. Preferiu fechar os olhos para os abusos do regime.

A estreiteza ideológica, alimentada pelo antiamericanismo generalizado, levou à defesa de ditadores, em vez de impor limites às suas ações. Os resultados são desanimadores: a juventude cubana já abandonou a ilha diante da repressão política e do colapso econômico, a maioria rumo aos EUA. O mesmo aconteceu com a Venezuela. E, recentemente, cerca de 100 mil pessoas têm fugido todos os anos da brutal ditadura de Daniel Ortega, na Nicarágua.

Curiosamente, a migração em massa para os EUA acaba sendo vantajosa para muitos desses regimes. As vozes críticas deixam o país, e depois enviam grandes quantias à sua terra natal. Em várias nações da América Central e do Caribe, essas remessas representam até um quarto do PIB. Assim, os governos podem se dar ao luxo de não oferecer políticas sociais, já que o dinheiro vindo dos odiados EUA sustentam milhões de famílias.

Como garantir a ordem na região?

Falta à América Latina mecanismos internos para conter os “maus elementos” da região. A Corte Interamericana de Direitos Humanos, na Costa Rica, é tão ineficaz quanto a ONU em Nova York com suas inúmeras instituições. “Só Donald Trump ajudou os venezuelanos” disse-me ontem uma ativista da oposição venezuelana.

É claro que os EUA só agem quando isso atende aos seus próprios interesses. Mas China e Rússia também agem movidos por interesses próprios. Se os EUA não assumirem o papel de “polícia do mundo”, quem deveria fazer isso? A Europa parece estar a caminho de resolver os problemas do seu próprio continente no futuro. E a América Latina?

Aqui, estamos mais distantes disso do que nunca. O Brasil, que por sua força econômica seria o candidato natural a assumir um papel de mantenedor da ordem na região, recusa-se a fazer isso e se esconde atrás de uma “neutralidade pragmática”. Quer manter diálogo com todos, evitando posicionamentos claros. Só depois da fraude eleitoral descarada de Maduro em 2024 o Brasil se manifestou, timidamente, com críticas ao regime.

Mas isso foi muito hesitante e tardio. Agora, Donald Trump intervém — à sua maneira. Se isso vai levar a uma mudança de regime em Caracas, ainda é incerto. Por enquanto, os aliados de Maduro continuam no poder. Em vez de propostas construtivas sobre como restaurar a democracia, o que se ouve da esquerda são apenas críticas à ação de Trump. Parece não haver ideias próprias.

Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há mais de 25 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, desde então, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há doze anos.

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