Presidente americano se mostra indiferente à democracia na Venezuela e ignora a líder oposicionista, Machado, dando ao regime de esquerda uma nova chance de sobrevivência. Ações de Lula e dos Kirchner foram semelhantes.Quem ainda acreditava que o presidente dos EUA, Donald Trump , queria impor uma transição democrática na Venezuela sabe agora que essa esperança era infundada.

Depois de os EUA prenderem o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, numa operação militar e os levarem para os Estados Unidos, Trump deixou rapidamente claro o que pretende na Venezuela. Seu principal objetivo é obter acesso às reservas de petróleo do país. O petróleo precisa voltar a fluir. Os EUA querem lucrar muito.

Para isso, devem contar com a ajuda dos antigos detentores do poder no regime. A recém-empossada presidente interina, Delcy Rodríguez, estaria disposta a cooperar, afirmou Trump. Caso contrário, não hesitariam em substituí-la.

Parece que Trump quer fechar um acordo sujo com os sobreviventes do regime, agora subjugados. Ele oferece aos colaboradores impunidade ou até participação nos lucros em troca de acesso ilimitado e da exploração das reservas de petróleo e de matérias-primas do país.

Para a oposição venezuelana, não está previsto nenhum papel nesse acordo, ao menos inicialmente. Trump considera a líder da oposição María Corina Machado inadequada para ser a futura presidente do país. Ela não teria o apoio e o respeito da população, disse Trump sobre a principal esperança democrática da Venezuela.

Comentaristas estão chocados com a postura cínica do presidente americano. Mas uma retrospectiva mostra que os governos de esquerda na América Latina agiram de forma semelhante no passado. Eles não realizaram nenhuma ação militar contra a Venezuela, mas apoiaram o regime, o defenderam e lucraram com a corrupção. Foram, ao mesmo tempo, aliados e cúmplices.

Lula e os Kirchners fizeram bons negócios com a Venezuela enquanto os lucros do petróleo ainda jorravam. Quem viaja pelo país vê as inúmeras obras inacabadas deixadas pelas construtoras brasileiras, de Odebrecht a Andrade Gutierrez. Os beneficiados foram tanto os governantes corruptos venezuelanos quanto as empresas e políticos no Brasil. Os Kirchners também teriam sido apoiados por Chávez com verbas ilegais de campanha. No Brasil, não foi muito diferente: as empresas envolvidas admitiram que financiaram políticos e partidos brasileiros com recursos provenientes de projetos na Venezuela.

Lula, os Kirchners, mas também Gustavo Petro na Colômbia e outros, permaneceram em silêncio diante das crescentes violações de direitos humanos na Venezuela. No início de seu terceiro mandato, em maio de 2023, Lula recebeu Maduro com todas as honras em Brasília e o defendeu como democrata.

As únicas exceções entre os líderes de esquerda na região são Michelle Bachelet e Gabriel Boric, do Chile. A ex-presidente, como alta comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas, denunciou em 2019 as graves violações de direitos humanos na Venezuela, incluindo tortura e assassinato de prisioneiros pelo regime. Gabriel Boric foi o único presidente de esquerda a criticar publicamente o regime repetidas vezes – e foi duramente atacado por isso.

Mesmo quando María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz, há poucas semanas, a esquerda na Argentina, no Brasil e na Colômbia não conseguiu reconhecer a coragem da opositora.

Não é possível avaliar se Maduro, diante de críticas vindas da esquerda sul-americana, teria tornado seu regime autoritário menos repressivo ou dado algum espaço à oposição.

Mas, com seu silêncio e tolerância em relação ao regime venezuelano, a esquerda sul-americana ofereceu a Trump um argumento adicional para a operação militar.

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Há mais de 30 anos o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul. Ele trabalha para o Handelsblatt e o jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.