29/01/2026 - 18:21
Responsável por zelar pela solidez das instituições financeiras, o Banco Central enfrenta questionamentos sobre sua capacidade de detectar riscos de calote. Autarquia abriu sindicância interna para avaliar atuação.O escândalo disparado pela liquidação do Banco Master colocou o Banco Central no centro de uma crise que vinha sendo sinalizada há mais de um ano, quando os primeiros sinais de problemas de liquidez do conglomerado foram identificados.
Por um lado, técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU) consideraram acertada a decisão da autarquia de fechar a instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro, entendendo que a medida ajudaria a resguardar o Sistema Financeiro Nacional (SFN). Por outro, críticos questionam se a intervenção não ocorreu tarde demais ou se mecanismos preventivos anteriores poderiam ter evitado danos maiores.
No final de 2025, a corregedoria do BC abriu uma sindicância para avaliar a conduta da própria autarquia no caso Master. O objetivo é identificar se os protocolos foram seguidos ou se houve omissão da autoridade monetária, que também será fiscalizada pelo TCU. Apesar de o impacto da liquidação não ser considerado sistêmico, os indícios de fraude e de supervalorização de ativos de um banco que atuava há anos sob supervisão prudencial do Banco Central levaram a uma crise de imagem do sistema financeiro.
O que está em jogo é se o Banco Central falhou ao não identificar uma possível crise de solvência diante da extraordinária valorização do conglomerado bancário, cujos ativos passaram de R$ 3,7 bilhões, em 2019, para R$ 82 bilhões, em 2024. Uma semana após o fechamento extrajudicial do Master, o então diretor de Fiscalização da autarquia, Paulo Souza, foi afastado da chefia. Mais tarde, deixou também a posição comissionada que ainda ocupava.
Segundo reportagem do Estadão, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto sabia dos problemas de liquidez do Master e chegou a dar um “ultimato” a seus diretores ainda em março de 2025. Agora, a pressão recai sobre o atual chefe da autarquia, Gabriel Galípolo, que foi o responsável por determinar o encerramento dos ativos do conglomerado de Vorcaro.
Foco do BC é solidez das instituições
O BC não é responsável pela fiscalização do mercado de capitais brasileiro. Segundo a Polícia Federal, foi nesse ambiente que o conglomerado bancário teria concentrado o esquema financeiro, inflando ativos e concedendo créditos com retornos considerados insustentáveis. O poder de supervisionar fundos, debêntures e letras de crédito, além de punir manipulação de preços e fraudes é da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM.
Contudo, o Banco Central é o responsável máximo por assegurar a estabilidade de preços e pela solidez do conjunto das instituições financeiras. Em outras palavras, protege o sistema financeiro e evita riscos que possam contaminar a economia. Isso é feito por meio de instrumentos que garantam a liquidez dos agentes.
“Faz parte da missão do BC assegurar que o sistema financeiro seja sólido (tenha capital suficiente para arcar com seus compromissos) e eficiente”, diz em seu site.
Ou seja, enquanto a CVM cuida da negociação de títulos, o BC fiscaliza instituições que podem emiti-los. Apesar de não agir sobre fraudes em carteiras de crédito, por exemplo, o Banco Central deve identificar quando um banco não consegue honrar seus credores, algo que se tornou central no caso Master. Segundo as investigações, o conglomerado inflava títulos sem valor para simular liquidez e não conseguia honrar nem mesmo 15% de seus compromissos semanais.
Entre as funções do BC, portanto, está justamente a de garantir a solvência dessas instituições, além de estabelecer limites de alavancagem, normas de governança e controles internos.
Foi para proteger o sistema financeiro que o Banco Central liquidou o Banco Master, seu braço digital Will Bank e a administradora de fundos Reag Investimentos. “A decretação dos regimes de resolução nas instituições foi motivada pela grave crise de liquidez do Conglomerado Master e pelo comprometimento significativo da sua situação econômico-financeira, bem como por graves violações às normas que regem a atividade das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional”, disse o BC em nota.
BC também atua como autoridade monetária
O BC foi criado nos anos 1960, quando se organizou o atual sistema bancário no Brasil. É uma autarquia federal que hoje possui autonomia técnica, operacional, administrativa e financeira. Segundo especialistas da área, o modelo de supervisão de risco brasileiro é moderno e alinhado com padrões internacionais.
Além de zelar pelo SFN, também age como autoridade monetária, suavizando flutuações do nível de atividade econômica. Manter a inflação sob controle, garantindo a estabilidade do poder de compra do real, é objetivo fundamental do BC, diz a autarquia.
Ainda atua como depositário de contas governamentais, de reservas internacionais, de ativos de outros bancos e gerencia a emissão de dinheiro em espécie.
Para que todas estas funções aconteçam em sintonia, o BC tem poderes de regulação e fiscalização, podendo punir instituições financeiras que violem o SFN. Estão sob sua tutela bancos comerciais, bancos múltiplos, caixas econômicas e cooperativas de créditos.
Caso expõe limites do sistema regulatório
No atual arranjo, o BC pode atuar sobre os balanços e averiguar riscos das instituições. Se identifica problemas, pode exigir provisionamentos, ajustes contábeis ou mesmo mudanças na diretoria.
No caso do banco Master, três diretorias foram diretamente acionadas para lidar com a crise, além da presidência de Galípolo.
A diretoria de Fiscalização supervisiona a liquidez, solvência e viabilidade de cada uma das instituições do sistema financeiro. Ela também monitora a solvência do próprio sistema. O gabinete de Organização autoriza o funcionamento dos conglomerados, aprova nomes para cargos em órgãos societários, analisa processos administrativos sancionadores e determina a liquidação extrajudicial. E a diretoria de Regulação trata das regras operacionais e da regulação prudencial das instituições.
Como a DW mostrou, um dos desafios que o caso Master expõe é regulatório. Devido ao seu tamanho e escopo reduzidos, o conglomerado está sujeito a menor exigência regulatória, proporcional ao risco que suas operações oferecem ao sistema financeiro. O modelo tem razão de existir, já que diminui o custo para a empresa alcançar nichos ignorados pelos grandes bancos. Por outro lado, dá maior liberdade de atuação a seus agentes.
Master abre discussão sobre novo modelo de supervisão
A conexão entre BC e CVM não é automática. Após a repercussão do caso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, passou a defender que o Banco Central atue também no mercado de capitais.
“Apresentei uma proposta, que está sendo discutida no âmbito do Executivo, para ampliar o perímetro regulatório do BC. Tem coisa que deveria estar no BC, e que está na CVM. O Banco Central tem de passar a fiscalizar os fundos, há intersecção grande hoje entre fundos, finanças. Isso tem impacto sobre a contabilidade pública, a conta remunerada, as compromissadas”, disse ele em entrevista ao UOL.
A separação entre o órgão regulador do mercado de capitais e o regulador bancário não é exclusiva do Brasil. Mas no modelo brasileiro essa divisão é setorial. Ou seja, cada órgão regula exclusivamente um setor.
Já em um arranjo transversal, chamado no modelo britânico de twin peaks (dois picos), duas autoridades independentes seriam autorizadas a supervisionar tanto o mercado de capitais quanto o sistema bancário. A divisão passaria a ser funcional. O BC realizaria a regulação prudencial (risco sistêmico) de todos os agentes relevantes, enquantou outra autarquia regularia a sua conduta.
No entanto, nesta quinta-feira (29/01), a área técnica da CVM publicou um estudo em que enumera diversos desafios para a implementação do modelo twin peaks no Brasil.
“Não observamos na experiência internacional exemplo em que o modelo Twin Peaks tenha sido implantado sem um amplo debate com o mercado e a sociedade. Em todos os exemplos é reconhecido o papel anteriormente exercido pelos Bancos Centrais e CVMs, privilegiando a vocação natural de cada um e fortalecendo ambos”, disse Bruno Luna, chefe da Assessoria de Análise Econômica, Gestão de Riscos e Integridade da CVM.
“Trata-se de uma mudança profunda no arcabouço regulatório de um país, e os riscos não são desprezíveis”, afirmou.
