16/02/2026 - 17:49
Criminoso sexual, encontrado morto na cadeia em 2019, acumulou fortuna por meio de golpes, fraudes e roubos, segundo pessoas que o conheceram.Como Jeffrey Epstein, um homem oriundo de uma família da classe trabalhadora de Coney Island, em Nova York, que não concluiu os estudos universitários e dava aulas de matemática e física, conseguiu acumular uma fortuna tão grande?
Pelo menos no início, ele teve a sorte ao seu lado.
Por meio de contatos, ele conseguiu um emprego no banco de investimentos Bear Stearns, o que lhe deu conhecimento sobre os meandros do mundo das altas finanças. Em 1980, tornou-se sócio minoritário.
Após cinco anos, Epstein deixou o banco, mas passou a usar sua experiência e seus contatos para angariar credibilidade.
Já fora do Bear Stearns, o nome de Epstein ressurgiu nos círculos financeiros, mas era difícil dizer o que ele de fato fazia. “Ele era um enigma”, disse Charles Gasparino, correspondente sênior da Fox Business Network, no documentário da Netflix de 2020 Jeffrey Epstein: Filthy Rich.
Normalmente, as pessoas em Wall Street deixam rastros, mas pouco se sabia sobre Epstein. “Ele era esse cara de quem as pessoas falavam muito, mas que não tinha deixado muitos rastros no mundo dos investimentos”, afirmou Gasparino.
Esquema de pirâmide
Steven Hoffenberg, ex-CEO da empresa financeira Towers Financial Corporation, disse conhecer parte da história. No final da década de 1980, ele contratou Epstein, que se tornou seu “parceiro no crime”, de acordo com uma entrevista de Hoffenberg ao mesmo documentário.
O ex-CEO comandava o que mais tarde acabou se revelando um esquema fraudulento do tipo Ponzi (operação fraudulenta de investimento em esquema de pirâmide) no valor de 460 milhões de dólares.
Epstein “assumiu o controle da parte de títulos, a parte dos ativos falsos, ele manipulava o preço das ações e negociava ações ilegalmente”, disse Hoffenberg.
Em 1993, tudo desmoronou. Hoffenberg se declarou culpado e foi condenado a 20 anos de prisão. E embora ele tenha apontado Epstein como “arquiteto” da fraude, o próprio Epstein nunca foi acusado por nenhum crime no caso, então é difícil saber qual foi de fato sua participação e o quanto ele ganhou financeiramente.
Disputa com o magnata do varejo Les Wexner
Em meados da década de 1980, Epstein conheceu Les Wexner, o magnata do varejo por trás da Victoria’s Secret e da The Limited. Epstein se promoveu como consultor financeiro e obteve acesso às finanças do bilionário em 1991.
Epstein assumiu o controle dos negócios financeiros pessoais de Wexner, pagou a si mesmo generosamente e adquiriu um portfólio de imóveis e um jato particular.
Ele e Wexner encerraram a parceria em 2007, em meio a um escândalo que envolvia o financista. Só então Wexner descobriu que Epstein havia “se apropriado indevidamente de vastas somas de dinheiro meu e da minha família”, como escreveu mais tarde.
Epstein teria roubado ou se apropriado indevidamente de várias centenas de milhões de dólares pertencentes a Wexner, de acordo com um relatório de promotores americanos divulgado recentemente.
“Essa má conduta, juntamente com os honorários que Epstein pagou a si mesmo por seus serviços a Wexner, parece explicar praticamente toda a riqueza de Epstein”, segundo advogados citados no relatório.
Epstein vendeu para si mesmo um jato particular que pertencia a Wexner por uma fração do valor real. Ele fez o mesmo com uma casa em Nova York. Epstein também comprou propriedades em nome de Wexner e depois as revendeu para si mesmo a preços reduzidos, acrescenta o relatório.
Em 2008, Epstein devolveu 100 milhões de dólares a Wexner num acordo extrajudicial, em vez de enfrentar um processo judicial público. Wexner cortou todos os laços com Epstein, mas nunca apresentou uma queixa formal.
Epstein saiu da história com bens e uma enorme quantia em dinheiro. Como Wexner não tornou o caso público por mais de uma década, ninguém sabia o que havia acontecido.
Mas Epstein ganhou algo mais da sua convivência com Wexner. Se Wexner pudesse ser visto como alguém que confiava em Epstein, então outros poderiam também confiar nele e em seus conselhos financeiros.
Epstein usou essa credibilidade para se aproximar de um número crescente de pessoas influentes. Ele não tinha receios de mencionar sobrenomes como Clinton e Rockefeller. Parecia funcionar, e indivíduos proeminentes foram atraídos para sua rede pessoal, como o bilionário do setor de private equity Leon Black.
Ao longo dos anos foram surgindo comentários discretos sobre taxas excessivas ou exploração, mas Wexner foi o único a declarar publicamente ter sido descaradamente roubado.
O papel do JP Morgan e do Deutsche Bank
Mesmo depois de Epstein ter sido condenado por agressão sexual, em 2008, e ter cumprido pena de prisão, muitos ainda o procuravam em busca de conselhos financeiros, como mostram os documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça americano.
Muitos bancos também ficaram felizes em abrigar seus negócios e foram depois alvo de escrutínio especial.
Epstein usou o JPMorgan de 1998 até 2013, quando o banco encerrou as contas dele. Uma década depois, sem admitir qualquer irregularidade, o banco pagou 75 milhões de dólares para encerrar uma ação judicial das Ilhas Virgens Americanas e 290 milhões de dólares para encerrar um processo movido por um grupo de vítimas de Epstein.
Depois de ser expulso do JPMorgan, Epstein abriu uma conta corrente no Deutsche Bank, em 2013. Ele chegou a ter cerca de 40 contas até o banco encerrar a relação comercial, pouco antes da morte do financista.
O Deutsche Bank afirmou que sua ligação com Epstein foi um erro e concordou em pagar um acordo de 75 milhões de dólares a um grupo das vítimas dele, mas sem admitir irregularidades.
O que aconteceu com a fortuna de Epstein?
Epstein foi preso em 6 de julho de 2019 e acusado de tráfico sexual de menores. Ele foi encontrado morto em sua cela em 10 de agosto do mesmo ano.
Quando seu testamento foi apresentado ao tribunal de sucessões das Ilhas Virgens Americanas, onde ele residia, continha uma lista de bens totalizando 577 milhões de dólares, incluindo 56,5 milhões de dólares em dinheiro e quase 194 milhões de dólares em fundos de hedge e investimentos de private equity, além de 112 milhões de dólares em ações. O documento também listava as empresas proprietárias de seus imóveis nas Ilhas Virgens, Novo México, Nova York, Palm Beach e Paris.
Impostos, manutenção, honorários advocatícios e grandes acordos reduziram drasticamente esse patrimônio. Mesmo assim, a questão da sua origem permaneceu.
O New York Times concluiu uma investigação de meses em dezembro de 2025. Após analisar milhares de páginas de documentos, o jornal concluiu que Epstein construiu sua fortuna por meio de “golpes, roubo e mentiras”.
“Epstein era menos um gênio das finanças do que um manipulador e mentiroso prodigioso”, segundo o jornal. “Repetidamente, ele provou estar disposto a operar nos limites da criminalidade e a encerrar relações de forma definitiva em sua busca por riqueza e poder.”
