17/03/2026 - 14:13
A comunidade científica discute há décadas se o campo magnético da Lua, nos primórdios da sua história, há cerca de 4 bilhões de anos, foi forte ou fraco. Mas, agora, um novo estudo publicado na Nature Geoscience demonstrou que os dois lados podem estar certos.
Ao estudar amostras das missões Apollo, realizadas na virada entre os anos 1960 e 1970, os cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, descobriram que, em alguns momentos, a Lua chegou a ter um campo magnético extremamente forte, até mais intenso do que o da Terra.
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Os autores do estudo explicam que, durante anos, o debate persistiu porque as missões Apollo pousaram em locais com alta concentração de rochas. Por acaso, foram ali registrados estes raros eventos de magnetismo intenso, o que levou a uma interpretação equivocada da história lunar.
As amostras ofereceram uma visão distorcida de eventos “extremamente raros”, que duraram alguns milhares de anos, mas foram interpretados como se fossem representativos de 500 milhões de anos de história lunar, explica a autora principal, Claire Nichols.
Apesar do forte magnetismo das amostras lunares da Apollo, muitos cientistas continuavam acreditando que a Lua só poderia ter um campo magnético fraco ou inexistente. A explicação residia no fato de que o tamanho relativamente pequeno do núcleo lunar, o que impediria a geração de um campo forte.
Titânio, chave do magnetismo lunar
Mas o novo estudo propõe um mecanismo capaz de gerar e preservar temporariamente um campo forte.
Os cientistas descobriram que todas as amostras que registraram um campo magnético intenso continham grandes quantidades de titânio, enquanto aquelas com menos de 6% em peso de titânio estavam associadas a um campo magnético fraco.
Os autores sugerem que a fusão de material rico em titânio nas profundezas da Lua atuou como “combustível”, gerando temporariamente um campo magnético muito forte, porém breve.
“Agora acreditamos que, durante a maior parte da história da Lua, seu campo magnético foi fraco, mas que, durante períodos muito curtos — possivelmente de algumas décadas —, a fusão de rochas ricas em titânio no limite entre o núcleo e o manto lunar favoreceu a geração de um campo muito forte.”
Viés de amostragem
Como as missões Apollo pousaram em zonas planas, ricas em basaltos marinhos, os astronautas coletaram rochas ricas em titânio. Elas contêm evidências de um campo magnético forte, mas não são representativas da realidade de toda a superfície lunar.
“Se fôssemos alienígenas explorando a Terra e tivéssemos pousado aqui apenas seis vezes, provavelmente teríamos um viés de amostragem semelhante, especialmente se escolhêssemos uma superfície plana para o pouso”, argumenta Jon Wade, coautor do estudo e professor associado do Departamento de Ciências da Terra de Oxford.
Mas, se as missões tivessem pousado em outro lugar, “provavelmente teríamos concluído que a Lua só teve um campo magnético fraco e teríamos ignorado completamente essa parte importante da história lunar primitiva”, afirma.
Para Simon Stephenson, coautor e colega de Wade em Oxford, as missões Artemis serão “uma oportunidade para testar essa hipótese e aprofundar a história do campo magnético lunar”. O segundo lançamento pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa), dos Estados Unidos, é esperado para este ano.
ht (ots)
