Enquanto os EUA reforçam sua presença militar no Oriente Médio, o regime do Irã já se prepara para um eventual conflito e avalia cenários de retaliação.O Irã chamou nesta quarta-feira (25/02) de “grandes mentiras” as afirmações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre seu programa nuclear e seus mísseis balísticos.

Em seu discurso sobre o Estado da União perante o Congresso, na terça-feira, Trump afirmou que “nunca permitirá que o maior patrocinador do terrorismo no mundo” obtenha uma arma nuclear.

“O regime [iraniano] e seus representantes assassinos não espalharam nada além de terrorismo, morte e ódio”, disse Trump cerca de uma hora e meia após o início de seu discurso anual perante uma sessão conjunta do Senado e da Câmara dos Representantes.

Ele acusou o Irã de reiniciar seu programa nuclear, de trabalhar na construção de mísseis que em breve seriam capazes de atingir os Estados Unidos e de ser responsável por atentados com bombas que mataram militares e civis americanos.

O Irã diz que seu programa nuclear tem fins pacíficos e que não quer desenvolver uma arma nuclear, o que foi repetido nesta terça-feira pelo ministro do Exterior, Abbas Araghchi.

Os EUA e o Irã concluíram duas rodadas de negociações mediadas por Omã, com o objetivo de chegar a um acordo sobre o programa nuclear, e a terceira rodada está marcada para iniciar esta quinta-feira em Genebra, na Suíça.

Trump declarou ao Congresso que sua preferência é resolver a questão por meio da diplomacia, mas não descartou uma operação militar.

Araghchi disse que o Irã também prefere negociar, mas que está preparado para a guerra. Já o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, declarou que “mesmo o exército mais forte do mundo pode, às vezes, receber um golpe tão duro que não consiga mais ficar de pé de novo”.

Quais as opções do Irã?

A opção militar mais temível do Irã são os seus mísseis balísticos, que o país poderia usar para atingir bases dos Estados Unidos no Oriente Médio.

A mídia estatal iraniana afirmou que o regime em Teerã está desenvolvendo um míssil capaz de atingir a América do Norte.

Numa entrevista à emissora catari Al Jazeera neste mês, Araghchi disse que o Irã não tinha capacidade para atingir os EUA, mas atacaria bases americanas no Oriente Médio caso Washington lançasse um ataque.

Diante desse risco, os EUA recentemente posicionaram armamentos de defesa aérea na região.

Outro alvo dos mísseis iranianos poderia ser Israel, um aliado próximo dos Estados Unidos, por exemplo com o lançamento simultâneo de um grande número de mísseis para sobrecarregar o sistema de defesa israelense Domo de Ferro.

Tanto Israel como a Síria e bases americanas no Oriente Médio, onde estão dezenas de milhares de soldados, estariam ao alcance de mísseis iranianos lançados a partir de bases de lançamento na fronteira do Irã com o Iraque.

“A Guarda Revolucionária iraniana não deixou um único trecho da fronteira com o Iraque sem mobilizar unidades pesadas, plataformas de lançamento de mísseis balísticos e sistemas de radar em preparação para a guerra”, noticiou o site de notícias americano Alhurra, voltado para o público árabe, citando um líder militar do grupo separatista Partido da Liberdade do Curdistão.

Segundo o mesmo líder militar, em declarações ao Alhurra, “a Guarda Revolucionária reposicionou-se nos últimos oito meses ao longo da fronteira iraquiana, reabilitando e expandindo suas bases, estabelecendo diversas novas, instalando centros de vigilância e inteligência e aumentando tanto o efetivo quanto o equipamento em preparação para a guerra”.

As milícias patrocinadas pelo Irã na região são outra maneira pela qual o país poderia atacar os EUA ou Israel. Mas há um problema: tanto o Hezbollah, no Líbano, como o Hamas, na Faixa de Gaza, foram dizimados por ataques israelenses e pela guerra em Gaza, e não representam a mesma ameaça de alguns anos atrás.

Já os rebeldes houthis no Iêmen ainda têm capacidade de atacar navios no Mar Vermelho. Há também a possibilidade de células terroristas realizarem ataques no exterior.

Por fim, há os ciberataques. A avançada rede de hackers do Irã poderia atacar infraestruturas, como redes elétricas, hospitais e instalações de petróleo e gás, nos EUA, em Israel ou na Europa. Também poderia derrubar sites populares numa tentativa de causar pânico na população.

Preparativos do Irã para a guerra

A Guarda Revolucionária do Irã está realizando exercícios militares no litoral sul do país, no Golfo Pérsico, comunicou a emissora estatal iraniana nesta terça-feira.

Apesar de os exercícios estarem concentrados no litoral sul, manobras semelhantes estão ocorrendo em outras partes do Irã, noticiou a emissora, e incluem drones, embarcações, veículos anfíbios, mísseis terra-mar e foguetes, além de artilharia.

Segundo o comandante das forças terrestres da Guarda Revolucionária, Mohammad Karami, os exercícios estavam sendo conduzidos “com base nas ameaças existentes”.

O Irã realizou exercícios militares anuais com a Rússia no Golfo de Omã, uma rota marítima vital para o transporte global de energia, e no Oceano Índico na quinta-feira passada, com o objetivo de “aprimorar a coordenação operacional, bem como a troca de experiências militares”, comunicou a agência de notícias estatal iraniana Irna.

As imagens divulgadas mostram membros das forças especiais navais da Guarda Revolucionária embarcando num navio durante o exercício. Essas mesmas forças já teriam sido usadas para apreender embarcações em importantes vias navegáveis internacionais.

Na segunda-feira passada, o Irã iniciou um exercício militar com teste de mísseis no Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã, rotas marítimas fundamentais para o transporte de petróleo e produtos refinados. Um dia depois, comunicou que fecharia parcialmente o Estreito de Ormuz por algumas horas por motivos de “segurança” devido aos disparos de mísseis durante os exercícios militares.

Possíveis cenários

Trump disse na quinta-feira passada que decidirá em 10 ou 15 dias se vai ordenar ataques ao Irã caso nenhum acordo nuclear seja alcançado. Trump teria recebido uma série de opções militares, incluindo até um ataque direto ao líder supremo do Irã, Ali Khamenei, segundo relatos na imprensa dos EUA.

A teocracia iraniana está mais vulnerável do que nunca após os 12 dias de ataques israelenses e americanos a suas instalações nucleares e militares em 2025, bem como os protestos em massa de janeiro, que foram violentamente reprimidos.

Caso venha a se sentir existencialmente ameaçado, o regime dos aiatolás poderia optar por um cenário extremo, envolvendo ataques a Israel e outros aliados dos EUA na região, incluindo a Arábia Saudita.

Esse cenário poderia incluir também o bloqueio do Estreito de Ormuz, a estreita rota marítima entre o Irã e Omã por onde passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto e produtos refinados por dia, ou quase um quinto do consumo global.

Uma passagem crucial para o transporte global de petróleo e gás natural liquefeito, o Estreito de Ormuz já foi palco de diversos incidentes no passado e voltou aos holofotes com a nova troca de ameaças entre os EUA e o Irã. Autoridades iranianas ameaçam repetidamente bloquear o Estreito de Ormuz, principalmente durante períodos de tensão com os Estados Unidos.

O anúncio do fechamento do Estreito de Ormuz, na semana passada, foi um claro sinal à comunidade internacional dos impactos que a medida teria para a economia global.

Trump afirmou diversas vezes que prefere uma solução diplomática que leve a um acordo que aborde não apenas o programa nuclear iraniano, mas também sua capacidade de produzir mísseis balísticos e seu apoio a grupos militantes como o Hezbollah e o Hamas. O Irã se recusou a fazer tais concessões.

Trump está surpreso com o fato de o Irã não ter capitulado, considerando o enorme aumento da presença militar dos EUA, afirmou seu enviado, Steve Witkoff.

Analistas consideram que Trump mais provavelmente almeja um conflito limitado que altere o equilíbrio de poder no Irã e dizime a infraestrutura nuclear e de mísseis do país, sem deixar os Estados Unidos presos no atoleiro de uma nova “guerra eterna”.