15/01/2026 - 18:00
Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA passa por rápida expansão desde a volta do republicano à Casa Branca. Mas quem são seus funcionários e onde o governo americano os contrata?Outrora um ramo relativamente obscuro das agências de segurança americanas, os agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) se tornaram rapidamente o ponto central da iniciativa de deportação em massa do presidente Donald Trump.
Desde que Trump assumiu o cargo, há um ano, o número de agentes do ICE saltou de 10 mil para 22 mil graças, em grande parte, a uma campanha de recrutamento do Departamento de Segurança Interna (DHS) para alistar o que eles chamam de “americanos patriotas qualificados de todo o país”.
O governo Trump afirmou ter deportado 605 mil pessoas entre 20 de janeiro e 10 de dezembro de 2025, e que 1,9 milhão de imigrantes se “autodeportaram” voluntariamente. Uma expansão tão significativa de uma agência da lei é incomum e sem precedentes na história do ICE, que foi criado em 2002. O esforço de recrutamento levanta questões sobre a seleção e a adequação dos candidatos. Segundo o DHS , somente no ano passado foram 220.000 submissões.
Mais agentes, menos treinamento
Recentemente, o tempo de treinamento para o ICE foi reduzido de 16 para oito semanas. A exigência de aprender um pouco de espanhol, o idioma da maioria dos imigrantes sem documentos do país, foi eliminada. O ICE não respondeu a uma série de perguntas da DW sobre seu modelo de recrutamento.
As preocupações com o treinamento dos agentes e a percepção de uma politização no ICE aumentaram após a morte de Renee Nicole Good, que desencadeou protestos em todo o país e levou à renúncia de uma dúzia de procuradores federais no estado de Minnesota nesta quarta-feira (14/01).
“O ICE busca candidatos que atendam a requisitos específicos de elegibilidade e adequação, incluindo cidadania, padrões de aptidão física, investigações de antecedentes e, para algumas funções, treinamento ou experiência em aplicação da lei”, disse Melissa Hamilton, advogada americana e ex-policial e agente penitenciária, à DW.
“Ao mesmo tempo, iniciativas federais recentes de recrutamento têm enfatizado tanto o volume quanto a qualidade, com financiamento significativo destinado a preencher dezenas de milhares de vagas e oferecendo incentivos para atrair rapidamente um grande número de candidatos”, explicou.
“Tio Sam” na campanha de recrutamento
Hamilton, que atualmente é professora de direito e justiça criminal na Universidade de Surrey, na Inglaterra, disse que elementos da estratégia de recrutamento do ICE, como ir a feiras de emprego ou publicar anúncios em sites de emprego federais, são práticas normais das agências de aplicação da lei. A entidade, contudo, também vem empregando alguns métodos incomuns.
“Onde a abordagem recente do ICE difere é na escala e intensidade da campanha na mídia, com campanhas publicitárias de orçamento excepcionalmente alto e ampla divulgação pública com o objetivo de obter um grande número de candidatos”, disse a especialista.
Essa campanha na mídia, especialmente nas redes sociais, que utiliza ferramentas de recrutamento fortemente baseadas em mensagens-chave de Trump, tem se mostrado controversa. Isso inclui a exibição do Tio Sam – um símbolo personificado do governo americano notoriamente usado para recrutar soldados durante a Primeira Guerra Mundial – na página de carreiras do ICE, e a exibição da pintura Progresso americano, frequentemente criticada por mostrar colonos brancos caminhando em direção ao seu destino enquanto os nativos americanos desaparecem de vista, nos perfis oficiais em redes sociais.
O orçamento para publicidade do que o DHS descreveu como uma campanha de “recrutamento em tempos de guerra” em 2026 é de 100 milhões de dólares (R$ 583 milhões), de acordo com um documento de 30 páginas visto pelo jornal The Washington Post. Essa tendência deve continuar, pelo menos, visto que a Big Beautiful Bill de Trump (“Grande e belo projeto de lei” – a lei orçamentária aprovada pelo Congresso que aumenta o orçamento federal) concedeu ao ICE um orçamento de 170 bilhões de dólares para os próximos quatro anos para a fiscalização de fronteiras e do interior do país.
Anúncios visam base de apoiadores de Trump
Mas, mais do que cartazes ou slogans, parece que são os “esforços de divulgação orientados por dados”, como o Departamento de Segurança Interna (DHS) os chama, que causam o maior impacto.
Muitos observadores acreditam que o ICE está usando métodos modernos para atingir grupos que compartilham a ideologia de Trump. Hamilton aponta para a prática de geolocalização. Nesse caso, isso significa que os navegadores da web e os feeds de mídia social de qualquer pessoa próxima, por exemplo, a bases militares, eventos esportivos específicos ou feiras de armas e comércio, podem ser identificados e receber anúncios de recrutamento.
O documento afirma que o ICE também busca “inundar o mercado” com anúncios em redes sociais e usar influenciadores em sites como o Rumble, uma plataforma de compartilhamento de vídeos popular entre os simpatizantes do movimento trumpista Make America Great Again (Maga).
“As mensagens de recrutamento do ICE, especialmente as campanhas recentes, parecem projetadas para ressoar com pessoas que são receptivas a temas patrióticos e de segurança nacional. Também parecem ter sido criadas para atrair a base Maga e a mensagem implícita de ‘América em primeiro lugar’ dentro dela”, disse Hamilton, enfatizando que os materiais de recrutamento do ICE não especificam diretamente nenhum critério político para os candidatos.
Bônus de inscrição de até 50 mil dólares e “opções de reembolso e perdão de dívidas estudantis” também estão disponíveis para novos recrutas.
“A campanha tem como alvo os subempregados e aqueles de origem operária”, disse Hamilton. “Provavelmente não atrai quem se interessa por justiça social.”
Campanha de recrutamento é um sucesso?
Embora o ICE pareça visar um determinado grupo demográfico político e econômico, a agência também aboliu seus limites de idade desde o início do ano, o que lhe dá um leque maior de candidatos em potencial para recrutar. O limite inferior de idade era anteriormente de 21 anos, e o superior, de 37 a 40 anos, dependendo da função.
O DHS insiste que seus processos de recrutamento garantem “padrões rigorosos de treinamento e prontidão”. Hamilton avalia que, embora não esteja isenta de críticas, a campanha de recrutamento funcionou, pelo menos em alguns níveis.
“O sucesso depende dos critérios utilizados: se o objetivo era expandir significativamente o quadro de funcionários de maneira rápida, o recrutamento parece ter sido bem-sucedido. Se o objetivo é atrair policiais altamente experientes, as evidências são mistas, com alguns relatando preocupações sobre os níveis de experiência dos novos recrutas em relação às demandas do complexo trabalho de fiscalização da imigração.”
Tais distinções não são necessárias para o DHS. “Com esses novos patriotas na equipe, seremos capazes de realizar o que muitos dizem ser impossível e cumprir a promessa do presidente Trump de tornar a América segura novamente”, afirmou o Departamento no início do mês.
