13/02/2026 - 15:43
Guano serviu como fertilizante para a cultura chincha por 800 anos, alavancando seu status no mundo pré-colombiano, revelam pesquisadores.O Reino de Chincha, uma cultura anterior aos Incas e à chegada dos colonizadores que floresceu na costa sul do Peru entre os anos 1000 e 1400, alcançou grande parte de sua riqueza e influência política graças a um recurso inesperado: a acumulação maciça de excrementos, ou guano, de aves marinhas.
Esse recurso natural, acumulado durante séculos nas Ilhas Chincha, teria ajudado a impulsionar a produção agrícola, o comércio e a posição estratégica da sociedade chincha dentro do Império Inca, detalha pesquisa publicada na revista PLOS One.
Os chinchas escolhiam o guano nas rochas dessas ilhas, situadas a cerca de 25 quilômetros da costa peruana. Atualmente, ali habitam grandes colônias de pelicanos, corvos-marinhos guanay, pinguins e gaivotas.
“Graças ao clima seco e quase sem chuva, o guano das aves marinhas não se desfaz, mas continua se acumulando até alcançar vários metros de altura”, dizem três dos autores em uma publicação no site The Conversation.
Poder político
Relatos do irmão do colonizador espanhol Francisco Pizarro revelam que o senhor ou líder dos chinchas era transportado por humanos em uma liteira e tinha um status excepcional dentro do Império Inca.
“O acesso privilegiado a um recurso crucial é um caminho para o poder, algo que neste caso o Reino de Chincha possuía, e o Império Inca não”, afirma o autor Jacob Bongers, da Universidade de Sydney, ao portal New Scientist. “A mudança social pode ter surgido de uma fonte surpreendente: os excrementos de aves. É uma história fascinante.”
O guano — do quéchua wánu, que significa “adubo” — era um fertilizante altamente eficaz: “Em comparação com esterco terrestre, como o esterco de vaca, o guano contém muito mais nitrogênio e fósforo, essenciais para o crescimento das plantas”, explicam os pesquisadores no The Conversation.
A equipe de arqueólogos combinou registros históricos, iconografia e análises bioquímicas de 35 amostras de milho encontradas em sepulturas, que demonstraram o uso contínuo da fertilização com guano na região por pelo menos 800 anos.
Assimilação ao império
Com uma população estimada em cerca de 100 mil pessoas no vale de Chincha, a cultura local se destacava por ter agricultores, pescadores e comerciantes. Os cientistas sugerem que os pescadores chincha navegavam até as ilhas para coletar o guano, que depois era distribuído entre agricultores e comerciantes para trocas ao longo da costa e em direção às terras altas andinas.
Seu domínio sobre o guano teria favorecido o crescimento demográfico, o desenvolvimento econômico e a posterior integração ao Império Inca no século 15. “Sugerimos que o guano provavelmente influenciou o surgimento do Reino de Chincha e sua eventual relação com o Império Inca”, acrescentam os autores.
O guano também foi fundamental para o império. De fato, os autores lembram que os incas controlavam o acesso às ilhas guaníferas e castigavam com a morte aqueles que matassem aves marinhas, especialmente em épocas de nidificação, quando os animais constroem os ninhos.
Além disso, os pesquisadores destacam que a cultura chincha entendia muito bem o ciclo ecológico do entorno: “Eles tinham uma profunda compreensão da conexão entre a terra, o mar e o céu. Seu uso do guano e sua relação com as ilhas não eram apenas uma escolha prática, mas estavam enraizados em sua cosmovisão.”
A imagens de aves marinhas, peixes, ondas e milho germinando eram ainda frequentes em têxteis, cerâmica, frisos arquitetônicos e objetos de metal, apontam os pesquisadores.