27/02/2026 - 9:06
Da escolha da temporada à seleção da companhia aérea, especialistas mostram como o viajante pode equilibrar prazer, cuidado e impacto real.Há alguns dilemas morais que se impõem no aparentemente simples ato de viajar. As emissões de carbono causadas pelos voos ou as consequências mais amplas do turismo de massa moderno são algumas das questões que incomodam o viajante contemporâneo menos distraído. Deveríamos simplesmente aceitar essas implicações? Ou deixar de viajar? Qual seria um meio-termo possível, um jeito mais responsável de ser turista?
Para Wolfgang Strasdas, a resposta é clara: “Não acho que precisamos nos sentir culpados”, diz o diretor científico do Centro de Turismo Sustentável de Berlim, que há anos estuda os impactos das viagens.
Em muitas partes do mundo, o turismo é um setor econômico fundamental e um importante motor de prosperidade. Mesmo assim, ele argumenta que certos fatores merecem uma análise prévia cuidadosa, particularmente o impacto ambiental de uma viagem e as pressões associadas ao excesso de turismo.
Priorize a baixa temporada
“Você deve se perguntar: ‘Eu realmente preciso ir a Atenas no meio do verão, quando já está superlotada?’, diz ele.
Passar a fazer passeios turísticos na baixa temporada, se suas circunstâncias permitirem, pelo menos ajuda a aliviar a pressão sobre um local. Você também pode se perguntar se existem destinos alternativos que sejam igualmente interessantes, mas menos lotados. Você poderia escolher a cidade alemã de Leipzig em vez da capital, Berlim, ou Filadélfia em vez de Nova York, sugere ele.
“Também existe o subturismo”, diz Strasdas – lugares cujos residentes ficariam encantados em receber mais visitantes.
Petra Thomas, diretora-gerente da Forum Anders Reisen (Fórum de Viagens Alternativas), uma associação alemã de turismo sustentável com mais de 140 operadoras de turismo afiliadas, concorda.
Ela dá o exemplo da região da Catalunha, no norte da Espanha, onde muitas pessoas nas áreas rurais gostariam de ver mais turismo. Barcelona, capital da Catalunha, por sua vez, claramente tem turismo em excesso. As operadoras de turismo da Forum Anders Riesen se comprometem a seguir um conjunto rigoroso de critérios para que seus clientes possam desfrutar de suas férias sem culpa. Entre outras coisas, isso significa que regiões onde há risco de turismo “excessivo” devem ser evitadas, diz Thomas.
Constrangimento em Camarões
Thomas está convencida de que “há condições em que o turismo tem um impacto positivo”. As pessoas se reúnem, ocorre um intercâmbio cultural e os viajantes ganham experiências valiosas que mudam sua visão do mundo, diz ela.
No entanto, ela já testemunhou em loco como o comportamento de turistas pode causar situações desagradáveis. Ela lembra de uma excursão para a zona rural de Camarões, quando alguns de seus companheiros de viagem começaram a fotografar as casas dos moradores locais de maneira desrespeitosa.
“Vários deles tiraram fotos dentro das casas como se não fosse nada”, lembra ela. Ela sentiu que os turistas haviam violado a privacidade da população local. “Fiquei envergonhada por eles.”
Oliver Zwahlen, um viajante apaixonado e autor do blog Weltreiseforum (Fórum de Viagens Mundiais), lida há anos com os conflitos morais que os viajantes enfrentam todos os dias.
“Em algum momento, percebi que a maioria das pessoas realmente tenta agir de forma responsável quando viaja e quer causar o mínimo de dano possível”, diz o escritor suíço. Ao mesmo tempo, ele observa que a conduta “certa” muitas vezes não é clara.
Boicotar lugares é uma solução?
Outro desafio para um viajante é lidar com países cujos governos e sistemas políticos ele não deseja apoiar.
“Sim, pode haver objeções legítimas a costumes, leis ou governos”, diz Zwahlen. “Mas quando boicotamos viajar para um lugar, afetamos principalmente as pessoas comuns, como aqueles que vendem água para turistas em suas lojas ou que trabalham em restaurantes.”
Além disso, em países isolados, os turistas são uma oportunidade de conexão com o mundo exterior.
Para Zwahlen, no entanto, uma questão não tem solução fácil. “Não importa o que você faça, viajar sempre será um desafio para a proteção ambiental”, diz ele.
As viagens aéreas, em particular, deixam uma pegada de carbono significativa, o que não tem solução num futuro próximo. Na melhor das hipóteses, diz ele, os viajantes podem tentar reduzir os danos. “Sempre tentei viajar com menos frequência, mas por períodos mais longos”, explica ele. Ele só voa quando não há alternativa prática e, sempre que possível, escolhe rotas diretas e aeronaves mais novas que consomem menos combustível.
Companhias aéreas e eficiência climática
O Forum Anders Reisen tem uma visão semelhante. “Do nosso ponto de vista, o objetivo é reduzir as emissões sempre que possível”, diz Petra Thomas. As empresas associadas tentam oferecer conexões de ônibus e trem sempre que viável, mas alguns destinos só podem ser alcançados por via aérea, observa.
Nesses casos, Wolfgang Strasdas recomenda consultar o índice de companhias aéreas publicado pela organização de proteção climática Atmosfair, que avalia as companhias aéreas com base em sua eficiência climática.
As emissões de dióxido de carbono restantes, sugere ele, devem então ser compensadas. Apesar das preocupações ambientais, os benefícios de viajar prevalecem, acredita. “Em teoria, viajar é uma situação em que todos os envolvidos saem ganhando.”
