30/11/2025 - 14:24
Colecionador quer vender ações para até dezenas de milhões de pessoas. Mas nada garante que o mercado da arte será mais democrático.Um colecionador de arte americano pretende se desfazer de partes do maior acervo privado de arte holandesa do século 17 de um jeito inusitado. A ideia de Thomas Kaplan, proprietário da Coleção de Leiden, não é vender os quadros em si, mas apenas ações virtuais.
Para as obras do famoso pintor Rembrandt, ele pretende oferecer uma grande quantidade destas cotas — tantas que até pessoas com orçamentos reduzidos possam investir.
“Penso que a melhor forma de despertar entusiasmo por Rembrandt é dar a milhões, talvez dezenas de milhões de pessoas comuns, a oportunidade de possuir um Rembrandt”, disse Kaplan em entrevista ao The Art Newspaper.
Investimento com valor de narrativa
Há vários motivos pelos quais as pessoas querem possuir arte. Muitas desejam ter contato direto com as obras que compram — seja para vê-las, pendurá-las ou exibi-las. Outras investem em arte para lucrar com vendas futuras, para além do interesse artístico.
Com o desenvolvimento das tecnologias de blockchain, surgiu a possibilidade de digitalizar obras de arte e dividi-las em frações virtuais, que podem ser negociadas individualmente.
Esse modelo, que poderá se aplicar à Coleção de Leiden, é chamado de propriedade fracionada (fractional ownership, em inglês). Neste caso, não se fraciona a obra física, mas a propriedade: ninguém possui uma parte física específica, mas todos são coproprietários do todo.
Kaplan já anunciou, entretanto, que manterá a maioria das cotas, para continuar emprestando as obras a museus.
Assim, no futuro muitas pessoas poderão possuir ações das obras de Rembrandt, talvez sem jamais vê-las pessoalmente. O valor para o investidor estaria tanto na esperança de valorização quanto no fato de que ser “dono” de uma parte de uma destas obras de arte certamente dá uma ótima história para contar.
Democracia no mercado de arte?
O especialista em mercado de arte Dirk Boll, da casa internacional de leilões Christie’s, não vê o conceito de propriedade fracionada como uma revolução no mercado da arte, embora já esteja virando tendência entre várias plataformas do nicho.
Segundo ele, o panorama completo é bem mais complicado do que parece. Obras de arte não são um investimento fácil, sobretudo por causa dos elevados custos de seguro e as necessidades de armazenamento especial e conservação.
“É preciso vender as obras com lucro ou criar um mercado secundário para os certificados de participação”, disse Boll à DW. O mercado secundário costuma falhar porque há mais certificados do que compradores.
Ele também vê com ceticismo a ideia de uma “democratização do mercado de arte”. É um slogan bonito, afirma, mas o mercado de arte é tão democrático quanto o mercado de automóveis: “Você pode comprar qualquer carro que possa pagar. Dependendo de quanto tem, será um VW Polo ou uma Mercedes Classe S. É um sistema econômico comercial.”
Estratégia para pagar impostos
Contudo, o especialista admite que a propriedade fracionada pode tornar obras muito valiosas acessíveis a mais pessoas, como no caso de Rembrandt. “Isso também conhecemos de outras áreas de propriedade compartilhada”, diz, mencionando os serviços de carsharing, em que se alugam carros por apenas alguns minutos ou horas, ou a posse compartilhada de casas de férias. E ações assim podem de fato aumentar o interesse pelo trabalho de Rembrandt.
Para Kaplan, a divisão da sua coleção com mais de 200 obras é uma solução para garantir seu futuro. Em entrevista ao The Art Newspaper, ele disse que seus três filhos admiram a coleção construída por ele e sua esposa, mas não sabem o que fazer com ela no futuro. Por isso, pediram que ele encontrasse uma solução.
No mercado de arte, há muitos casos em que partes de coleções são vendidas para cobrir custos — por exemplo, impostos de herança. A propriedade compartilhada abre a possibilidade de os recursos virem da venda das cotas.
As cotas da Coleção de Leiden ainda não estão no mercado, nem se sabe quais serão as dimensões da demanda por ações. Por ora, é apenas inegável que não é qualquer dia que se diz: “Ontem comprei um Rembrandt de verdade.”