Após 12 anos de um governo cada vez mais autoritário e antidemocrático, legado do autodenominado “filho de Chávez” é de “oportunidade perdida” para analistas.Os Estados Unidos lançaram um “ataque em larga escala” contra a Venezuela na madrugada deste sábado (03/01), resultando na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, segundo anunciou o presidente Donald Trump. Condenada pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, como “afronta gravíssima à soberania da Venezuela”, a operação ocorre após meses de pressão crescente de Washington sobre o governo venezuelano.

A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, confirmou que Maduro e sua esposa serão processados criminalmente em território americano por acusações que incluem “conspiração para narcoterrorismo” e para “importação de cocaína”.

“Oportunidade perdida do chavismo”

A captura de Maduro parece encerrar uma era de mais de duas décadas do regime chavista no poder na Venezuela, numa trajetória que vinha sido marcada por um governo cada vez mais autoritário e antidemocrático .

Nicolás Maduro “foi a oportunidade perdida do chavismo para fazer as coisas de forma diferente”, afirmou, em entrevista à DW, o doutor em ciência política venezuelano Andrés Cañizalez. “Não teve a coragem ou o poder para realizar as mudanças que o país necessitava, aproveitando a morte de Chávez [em 2013]”, avalia. Ele se refere a uma correção profunda tanto do curso econômico quanto do político do país.

A trajetória de Maduro

Maduro passou de motorista de ônibus e dirigente sindical a presidente da Assembleia Nacional (2005-2006), ministro das Relações Exteriores (2006-2012) e vice-presidente da Venezuela (2012-2013), quando foi designado pelo ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013) como seu herdeiro político, para conduzir o país e liderar seu projeto de “socialismo do século 21”.

“Reconhecido por sua imprudência disfarçada de senso de humor e suas intervenções delirantes”, Maduro chegou ao poder com “comentários fora de lugar disfarçados de comédia”, destacou um perfil publicado na revista colombiana Cambio. E não largou a cadeira presidencial desde que substituiu Chávez após sua morte prematura. “Não sou Chávez, mas sou seu filho”, diria, em sua primeira campanha eleitoral. A descrição permanece em sua conta oficial na rede social X.

Polarização

Sua eleição em 2013, com 50,61% dos votos contra 49,12% do candidato opositor Henrique Capriles, com participação de quase 80% do eleitorado, foi “acirradamente disputada”, lembra Cañizalez. E deixou clara a polarização política que o país vivia.

Na opinião do analista, “essa eleição, onde as pessoas votaram nele sem que fosse uma grande figura conhecida, apenas porque Chávez disse para votarem nele”, teria sido o momento ideal para aplicar uma política de abertura à oposição e restabelecer liberdades econômicas cerceadas, mantendo ainda o papel central histórico do Estado venezuelano. Mas essa guinada, difícil de esperar do herdeiro político de Chávez, não ocorreu.

Propaganda e repressão

Por um lado, o aparato propagandístico do chavismo tentou “manter vivo o discurso socialista e anti-imperialista legado por Hugo Chávez, e Maduro como seu herdeiro oficial”. Por outro, o aparato repressivo do Estado concentrou-se em controlar a oposição pela força, observava, há uma década, o cientista político venezuelano Víctor M. Mijares, em entrevista à DW.

Em um cenário internacional marcado pela crise nos preços do petróleo e pelo esfriamento do apoio regional, somado a um contexto nacional de crescente deterioração econômica e social (desvalorização monetária, inflação, desabastecimento e protestos), Maduro assumiu uma “posição reativa”, “cada vez mais agressiva” para compensar o déficit de governabilidade, descrevia Mijares. E essa realidade não mudou enquanto o “filho político” de Chávez permaneceu no poder.

Hiperinflação, êxodo e possíveis crimes contra a humanidade

Maduro já está associado, no imaginário venezuelano, à hiperinflação , especialmente feroz por volta de 2015, ao êxodo massivo de mais de 8 milhões de venezuelanos na última década e a possíveis crimes contra a humanidade (execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados, torturas e detenções arbitrárias) investigados pelo Tribunal Penal Internacional, enumera Cañizalez.

Seu legado é muito “pobre” e “negativo” em matéria econômica, social e de direitos humanos, resume. Não há leis, políticas ou sequer obras públicas inovadoras que possam ser associadas ao seu nome.

“É um legado de horror e destruição maquiado com petrodólares e economias ilícitas”, sentencia, por sua vez, o jornalista e defensor dos direitos humanos venezuelano Luis Carlos Díaz, que denunciou ter sofrido detenção e torturas em seu país.

Saque de recursos públicos

Esse legado, para Díaz, é tanto de Maduro quanto de Chávez, e levará várias gerações para ser superado. Inclui “o maior saque de recursos públicos que um país já sofreu neste continente”, bem como “práticas de terrorismo de Estado que não se viam na América Latina desde as ditaduras do Cone Sul”, diz à DW.

Díaz ressalta o apoio recebido por ambos os dirigentes de parte “de um setor da esquerda internacional, que financiaram com dinheiro público de que o país necessitava”, e que atualmente vive uma crise humanitária, apoiado pelo Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas.

Maduro insistiu à exaustão em se autodescrever um “presidente operário”. Mas parte de seu legado é também “a destruição do salário e das pensões”, sublinha Cañizalez, pois o salário mínimo e as aposentadorias estão hoje, na Venezuela, abaixo de um dólar por mês.

Legitimidade questionada também pela esquerda

A isso se somam a lista atual de mais de 860 presos políticos, mais de dez partidos interditados e centenas de impedimentos para cargos públicos, inclusive de possíveis candidatos presidenciais como a laureada com o Prêmio Nobel da Paz de 2025, María Corina Machado .

Há, também, ao menos cinco processos de diálogo com a oposição, promovidos com mediação internacional, que sempre terminaram convertendo-se em “armadilhas” para desescalar crises políticas e enfraquecer adversários, sem chegar às exigidas eleições livres e transparentes.

Em 12 anos de chavismo sem Chávez, após três eleições presidenciais, sempre apertadas ou controversas, Nicolás Maduro tornou-se um dos mandatários latinoamericanos de legitimidade mais questionada da última década, inclusive frente a seus aliados da esquerda regional.

Para muitos, dentro e fora da Venezuela, no máximo após a internacionalmente denunciada “fraude eleitoral” de 28 de julho de 2024, trata-se do legado de “um ditador”.

Para Cañizales, “Maduro, de alguma forma, construiu o que aconteceu com um custo muito alto para a sociedade venezuelana”.