O calor prolongado e a estiagem severa causaram níveis recordes de baixa no rio Danúbio, crucial para dez países da Europa Central e Oriental. A crise hídrica ameaça o fornecimento de energia, forçando o desligamento ou a redução da operação de usinas nucleares na Hungria e Romênia e impondo cortes no consumo energético para a população e a indústria.

O que aconteceu

  • O rio Danúbio e outras hidrovias europeias atingiram níveis historicamente baixos, impactando dez países da região.
  • Usinas nucleares na Hungria (Paks) e Romênia (Cernavoda) precisaram reduzir ou suspender operações devido à falta de água para resfriamento.
  • A escassez hídrica resultou em apelos para redução do consumo de energia, paralisação de setores industriais e dificuldades no transporte de cargas na Sérvia e Alemanha.

A Hungria e a Romênia se viram na situação inédita de precisar desligar reatores nucleares dependentes do Danúbio para resfriamento. A usina húngara Paks, com 44 anos e responsável por quase metade da eletricidade do país, esteve à beira do desligamento total, uma opção que ainda não foi descartada diante da previsão de mais dias de calor e seca.

Na Romênia, a Marinha agiu para mitigar o problema na usina nuclear de Cernavoda, que fornece cerca de um quinto da eletricidade nacional. Militares demoliram uma formação rochosa exposta pela baixa do Danúbio em um braço do rio, visando melhorar o fluxo de água para o resfriamento da instalação.

A operação, considerada um “sucesso” pelo ministro da Defesa romeno, Radu Miruta, incluiu o afundamento dos destroços em um ponto estratégico para ajudar a elevar o nível da água. Miruta destacou que os militares esperavam há décadas pela oportunidade de acessar e demolir essas rochas.

No entanto, se o desvio parcial de água não for eficaz, Miruta alertou que a usina de Cernavoda poderá ser totalmente desligada até a quinta-feira, 6 de agosto.

A crise já reverberou na indústria romena. O primeiro-ministro interino, Ilie Bolojan, anunciou que as montadoras Dacia e Ford concordaram em suspender a produção no país até 19 de agosto, após uma reunião com representantes de setores industriais de alto consumo energético. Outras empresas são esperadas para seguir o mesmo caminho.

crise energética: como a hungria se adaptou?

Na Hungria, o primeiro-ministro Peter Magyar informou que foi possível evitar, na segunda-feira, 3 de agosto, o desligamento total e inédito da usina nuclear de Paks, que havia sido anunciado na semana passada.

Apesar de evitar a paralisação completa, a usina, equipada com quatro reatores e responsável por quase metade da produção e cerca de um terço do consumo de eletricidade húngara, operava com pouco mais de 10% de sua capacidade total naquela segunda-feira.

Diante da iminência da crise, as autoridades húngaras apelaram à população para que reduza o consumo de energia voluntariamente, especialmente nos horários de pico. Recomendações incluem evitar o carregamento de veículos elétricos e o uso de aparelhos de ar-condicionado.

O impacto se estendeu ao transporte e à indústria: trens de carga elétricos foram paralisados na segunda-feira para aliviar a rede elétrica, e montadoras e fabricantes de baterias receberam ordens para diminuir o consumo de energia e água.

“Entramos no período crítico. A rede está estável, o consumo está atualmente bem abaixo dos níveis planejados, graças à moderação. A última turbina de Paks está operando”, declarou Magyar na segunda-feira, acrescentando que as previsões de gestão hídrica para os próximos dias se tornaram “ligeiramente mais otimistas”.

Outros países da europa sofrem com a seca?

A crise hídrica não se restringe à Hungria e Romênia. Na Sérvia, a usina hidrelétrica de Iron Gate, também no Danúbio, operava com apenas cerca de um quinto de sua capacidade na segunda-feira, motivando uma reunião de emergência convocada pelo primeiro-ministro Djuro Macut.

Macut instou os cidadãos a “minimizar o uso de aparelhos de alto consumo de energia em suas casas, como ar-condicionado”, descrevendo a situação como “grave e desafiadora” desde o fim da noite de domingo.

No estado alemão da Baviera, a estiagem no Danúbio está impactando diretamente o transporte de cargas. O novo ministro dos Transportes da Alemanha, Steffen Bilger, destacou que os níveis baixos do Danúbio e, principalmente, do Reno – a hidrovia interna mais movimentada da Europa – são o primeiro grande desafio de seu mandato.

Bilger caracterizou a situação como “muito tensa” em entrevista à Reuters TV, indicando que presidirá uma reunião de crise na próxima quinta-feira. Ele ressaltou a atipicidade do momento: “Estamos acostumados a episódios recorrentes de águas baixas, mas este é realmente um momento muito precoce do ano para os problemas que estamos enfrentando.”

Tradicionalmente, os rios europeus atingem seus níveis mais baixos mais tarde no verão. A previsão atual, contudo, aponta para mais semanas de clima predominantemente quente e seco, indicando uma prolongada crise hídrica.

Da IstoÉ

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